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Amor urgente e necessário chega de graça,
e entusiasma a alma.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008


FAMÍLIA NÃO É EMPRESA


Na Bienal do livro de 2008, no Rio de Janeiro, Fabrício Carpinejar se surpreendeu ao ouvir o escritor Içami Tiba professar, em palestra, a frase: “A família é como uma empresa”. Para expressar e ecoar sua indignação por tal aforismo, ele publicou em seu blog o texto Família não é uma empresa, ponto de vista que merece também nossa concordância e reflexão.

Quando um educador compara a família com empresa é sinal que o mundo dos negócios ganhou tamanha proporção que já confundimos espaços públicos e privados. Como não separar empresa de família? Pai não é patrão, mãe não é secretária e tampouco devemos confundir filhos com empregados.

O espaço familiar é onde construímos nossa subjetividade, onde não deveríamos precisar disfarçar os desejos. É espaço da intimidade por excelência, onde podemos ficar em silêncio pelo tempo que for necessário, sonhando com um futuro que talvez nunca exista. Lugar onde o benefício é de graça, pois nos é dado por quem nos ama.

Família é romance, história, memória e experiência. Lugar de ensaiar o futuro - errando, sofrendo e aprendendo. É onde podemos mostrar os tropeços e pedir encorajamento. É na família que guardamos nossa dor quando saímos para o trabalho, pois nem sempre devemos levá-la conosco. Na empresa nunca nos apresentamos por inteiros - sempre escondemos nossa miserabilidade, nossa condição de incompletos, faltosos. Por vezes, fazemos semblante de infalíveis como se tudo estivesse sob controle. Não dizem que quando se sai para trabalhar os problemas ficam em casa?

Lar é espaço para relaxar e chorar, para deixar o desejo esparramar, para nos soltar em devaneios sem vergonha de assumir nossas verdades, acariciando entranhas e fantasias. A família é o único lugar que acolhe o nosso lado obscuro, crepuscular, lugar que tampouco conhecemos.

Empresa é lucidez, razão, disciplina. Família é afeto. A primeira exige eficiência, o cumprimento de metas, a outra deve ser compreensiva com a desordem, o desequilíbrio, o fracasso, tendo em vista que o caos pode provocar a criatividade. Dois espaços totalmente distintos - um é para ganhar dinheiro, o outro é mais para aprender como gastá-lo, definindo valores e prioridades.

Mesmo os pais mais exigentes dificilmente vão colocar na rua filhos irresponsáveis, indisciplinados. Pode-se querer ir embora por razões diversas, mas a porta estará sempre aberta para acolher o riso ou o pranto. Na empresa, a ineficiência de alguém pode gerar uma demissão, na casa vai exigir compreensão, paciência e perseverança na reparação.

Essa confusão entre empresa e família tem se traduzido em prejuízo aos jovens que tentam ingressar no mercado de trabalho. Acabam se comportando com intimidade com o chefe, sem saber o limite entre esse e um colega ou tratam o chefe como se fosse pai.

Confundir a casa com a empresa é um erro tanto quanto confundir a empresa com a casa. Esse tipo de confusão revela o declínio das relações afetivas, da importância da dimensão humana na vida das pessoas. A família que quer ser como uma empresa é aquela que ainda não aprendeu que o trabalho é para sustentar os sonhos, colocá-los em dia, e que gente é mais importante que coisa. Empresa fabrica coisa e família educa gente.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008


Educação empreendedora


Seu filho é um empreendedor? Você pode educá-lo para ser um empreendedor? Você sabia que o conceito moderno de empreendedorismo está vinculado a qualquer tipo de sonho?
É comum conectarmos a palavra empreender a negócios. Mas não é sobre negócios que vamos falar. O empreendedor que nos interessa aqui é aquele que tem uma postura pró-ativa em relação ao mundo e vai em busca da realização de seu sonho, qualquer que seja ele, qualquer que seja a área.

Segundo o educador Sérgio Godinho, o empreendedor é aquele que realiza algo trabalhoso, desafiador, move mundos e fundos para alcançar um intento. Mas acreditamos que para ser um indivíduo com esse perfil é preciso ter um dom, que somente alguns privilegiados o tem. Será? Na verdade, atitudes e comportamentos de um empreendedor são passíveis de aprendizagem. Nós que nem sempre somos educadas para reconhecê-las e valorizá-las.

Vejamos as características empreendedoras listadas pelo autor Fernando Dolabella: energia, auto-estima, criatividade, tolerância ao erro, liderança, ousadia, rede de relações, persistência, conhecimento específico. E para desenvolvê-las, as crianças necessitam do estímulo da família. Claro que as pessoas nascem com certas vantagens em relação a outras, mas todas essas características podem ser construídas e aprimoradas. Evidente que vai depender do esforço empenhado.

O espírito empreendedor vai sendo conformado com as mensagens e os estímulos que o indivíduo recebe desde criança. A construção de uma elevada auto-estima vai depender, entre outros aspectos, do amor que se recebe dos pais, se esses valorizam as singularidades dos filhos, potencializando desejos e talentos. Um líder se fortalece se o indivíduo é incentivado a resolver seus próprios problemas, a tomar decisões. Ver o erro como aprendizagem e não como vergonha vai depender se a falha é crucificada ou encarada como uma tentativa de acerto, se o indivíduo é estimulado a fazer novamente e não avaliado como fracassado. A ousadia pode ser construída deixando o filho experimentar, arriscar, claro que salvaguardando a integridade física e mental dele. Criativas, espontâneas já nascem as crianças, e para que a criatividade não seja soterrada é importante que não fiquem só repetindo o que os outros fazem.

Como se vê, são muitas as atitudes que vão ajudar o filho a crescer empreendedor. Depende também se ele vai aprendendo a resolver por si os problemas, se é estimulado a perguntar, a dialogar, a exercer o direito de escolhas, se é apresentado ao mundo das artes para educar o olhar. É bom lembrar que quanto mais oportunidades, maior a chance de desenvolver o espírito empreendedor.

O mais importante é deixar o indivíduo sentir-se no direito de ter um sonho e fazê-lo responsável pela busca da realização, o que implica em assumir uma postura pró-ativa. Não tem importância se o sonho no primeiro momento é vago, sem contornos específico, como “mexer com teatro ou com carros”. Os pais podem ajudar os filhos a entregar-se ao sonho, incentivando a obter informações ou mesmo mostrando caminhos para localizá-las. E assim os sonhos vão se delineando, definindo. Com mais conhecimento, percebe-se mais possibilidades e potencialidades que promovem ajustes nos sonhos. Por isso não há que se dizer que fulano ”não sabe o que quer, cada hora faz uma coisa”. Cada um tem seu ritmo, sua maneira de ser.

É preciso considerar também que as coisas podem perder ou alterar o significado. Num determinado momento um sonho fascina o indivíduo, mas a medida que se aproxima do objeto desejado, descobre-se não tanta afinidade, entusiasmo, e o objeto deixa de fazer sentido ou é ressignificado . Para conhecer, definir, só mesmo chegando perto, vivenciando. Muitas vezes fantasiamos, idealizamos ou descobrirmos nossos limites, e é preciso aceitá-los.

O importante é manter o prazer de buscar, de experimentar, tendo a coragem necessária para dizer não ou sim de acordo com o que toca o sujeito. E quando tocar, deve-se focar esforço e emoção na busca de um sonho que dá sentido à vida, faz o indivíduo amadurecer. Cabe lembrar que o indivíduo deve definir um projeto de vida pessoal coerente com sonhos, interesses e potencialidades.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008


PARCERIA TRAIÇOEIRA


Circula na Internet um vídeo da TVE espanhola que merece nossa reflexão. Um garoto está à frente da TV completamente embevecido. Seu cão usa de várias estratégias para conquistar a sua atenção e companhia. O cachorro quer brincar, reivindica carinho e tenta demovê-lo de assistir TV. Vai até o quarto e pega uma coleira, uma bola, um barquinho, faz gracinha, e nada do amigo se sensibilizar. Por fim, frustrado e triste, o cão faz a mala e vai embora na certeza de que perdeu um amigo. E entra a locução: “Há muitas coisas que você pode fazer em lugar de ver tanta televisão. Se seu amigo não quer estar contigo, não será que vê demasiada televisão?”.

Pesquisa do Ibope de 2007 revela que cada brasileiro da classe A e B consumiu 4h40min de TV por dia. Crianças e adolescentes ligaram a TV por 4h50 min, muito mais que em outros países. Já pararam para pensar nos efeitos dessa relação? Durante esse tempo são infindáveis de mensagens que podem ser captadas e assimiladas. Mensagens que incitam a violência, a erotização precoce, que exibem o grotesco. Hábito que afasta as crianças do convívio social e dificulta a formação de laços afetivos.

Quem viciou as crianças a ficar tanto tempo na frente da TV? Os adultos que fazem das TVs babás das crianças? Existe um discurso dos pais de que não há tempo para os amigos nem para os filhos. Mas facilmente entregam o tempo livre à TV conferindo a ela um lugar privilegiado na casa. Não se pode perder o capítulo da novela, mas pode-se deixar para depois uma conversa com o filho, correndo o risco de que o depois se torne o nunca. Troca-se uma prosa, uma brincadeira, um passeio por horas de sofá. E assim ela vai lapidando mentes e corações, forjando subjetividades marcadas por um ideal de vida consumista e superficial.

Criança viciada em TV tem chances de tornar-se um adulto medíocre, pouco criativo e de uma pobreza simbólica considerável. Dificilmente ele gostará de estudar e terá dificuldade de se concentrar na leitura. O hábito excessivo de assistir TV faz muita gente trocar o livro pela tela, aumentando a população que só entende o que ouve, e não entende o que lê – geração “audiovisual” cuja presença intelectual resume-se à audição. É quando o registro psíquico existe para compreender apenas através do som das palavras, comprometendo a compreensão da leitura.

O fato é que a TV tem afastado os pais de seus filhos, as crianças dos amigos. Não se trata de demonizá-la, afinal é um instrumento poderoso de formação, informação e de entretenimento. Mas ela vem se tornando a senhora dos lares. Cada vez maior, bela, potente e sedutora, não resistimos aos seus chamados. Está na sala principal, às vezes, em cada quarto e até na cozinha. Uma mania que a América disseminou entre nós e que sobrevive poderosa, de forma pouco regulamentada, incentivando consumos e modismos, formando cabeças, consolidando uma cultura centrada na visibilidade. Ela vende qualquer coisa, tem poder em transformar bugigangas em ouro. Quando exibida na tela, qualquer mercadoria ganha status de coisa valiosa, fashion, produto cobiçado, fetichizado.

Deve-se ensinar aos filhos que não convém ver TV indiscriminadamente. Muitos pais desistiram de exercer controle e confessam impotência diante do brilho virtual, permitindo que os filhos sejam manipulados e controlados por uma ideologia de mercado fútil e de grande pobreza simbólica. É quando profissionais de comunicação despejam todo tipo de mensagem sobre suas cabeças. No Brasil a TV não respeita idade, os programas infantis veiculam propagandas que manipulam as crianças, o que não acontece em países como Canadá e EUA. Exercer controle não é fácil, mas virar as costas ao problema acaba por aumentá-lo.

O futuro de uma criança corre grande risco quando ela não é educada com disciplina e deveres a serem cumpridos – isso implica em não poder ver TV por muito tempo, tampouco ver qualquer coisa(?????????). E incluímos aqui outras máquinas como computador e jogos eletrônicos. A questão é saber limitar o contato da criança com a tecnologia, objeto que vicia e pode dificultar o processo de socialização. A idéia é fazer um movimento que reverencie a importância do contato humano, que valorize a companhia do outro, principalmente daqueles que são responsáveis pela educação da criança.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008


Educação e crueldade


É possível nos defendermos da crueldade do mundo? A crueldade existe e não podemos ignorá-la, desacreditar do seu poder destrutivo. Mesmo crianças e jovens são capazes de atos maldosos. Tornou-se comum namorados matarem namoradas, como Lindemberg que matou Eloá com um tiro na cabeça. Sempre há muitas explicações. Perversão, descontrole, falta de limite, incapacidade de suportar frustrações, função paterna frágil? Não dá para negar que atos como esses nos levam a desconfiar da forma como a intolerância tem aumentado entre os jovens. Intolerância ao sofrimento, pouca capacidade de suportar a ausência do outro - perdas afetivas. Geralmente, o homem confunde virilidade com agressividade. Mitologicamente, ele se julga poderoso por portar o significante fálico, o pênis, o que lhe confere uma ilusão de completude. E com isso se julga no direito de agredir, matar o outro que lhe nega algo. Ou se colocar como dono do corpo do outro, demonstrando posse, machismo. Eloá lhe negou amor. Tudo isso pode provocar atos descabidos quando a boa educação fracassa.

Vivemos numa sociedade permissiva que estimula e incentiva atos insanos, aplaudimos e achamos normal a vida sexual precoce. Devemos refletir sobre as conseqüências do excesso de permissividade a que estamos submersos. Quando o desejo corre solto, ele pode circular para o bem ou para o mal. Lindemberg saiu de casa munido de muito ódio e duas armas - determinado a matar aquela que frustrou seu desejo.

Desde sempre crianças ouvem histórias de personagens que representam a maldade: O lobo mau da Chapeuzinho, o lobo dos Três porquinhos, a madrasta da Branca de Neve e muitas outras que deveriam amedrontar as crianças. Como fábula deveria ensinar que a maldade faz parte da condição humana e se manifesta de diversas formas. Toda boa educação deve aguçar no filho um olhar capaz de se defender das contradições do ser humano - quantia certa para se proteger das maledicências do mundo.

Muitos dão sinais de suas maldades. É claro que os perversos escamoteiam suas garras, mas há os que deixam isso claro quando mentem, trapaceiam, dissimulam. Importante é alertar os filhos para ter cuidado quando se envolverem com pessoas excessivamente agressivas, ciumentas, possessivas. Como despertar nos filhos malícia diante daqueles que lhes causam medo, desconforto? Como respeitar a intuição quando o coração pedir cautela antes de entrarem de cabeça nas relações? Como descobrir quando uma pessoa é confiável?

Os pais não podem confundir precocidade com maturidade ou inteligência com esperteza. Uma adolescente que namora como uma mulher adulta assume riscos, e convém aos pais acompanhar de perto os passos do namoro. Pode ser um ótimo encontro, mas pode também não ser. Muitas mulheres, por diversos motivos, acabam se envolvendo com homens violentos e estabelecendo relações destrutivas, submetendo-se às grosserias, mentiras, comportamentos agressivos, posturas sado-masoquistas. Tudo em nome do amor ou uma evidência de baixa auto-estima? A violência virou moda, produto fashion?

Um indivíduo desequilibrado pode demorar para revelar sintomas que evidenciam uma patologia mais séria. Contudo, as crianças e adolescentes precisam ser educadas para ver além dos olhos, refletirem sobre o que sentem em relação ao outro, questionando os atos estranhos dos parceiros, amigos, levando mais a sério os sinais que incomodam e perturbam - não acreditando em tudo que ouvem e sempre observando se a fala do sujeito condiz com suas atitudes.

A ingenuidade só é boa até certa idade. Aos poucos ela deve dar lugar à boa percepção, pois quem não ficar esperto corre o risco de ser assassinado por um lobo mau. A proposta é alertar os pais da necessidade de debater, junto aos filhos, a crueldade do mundo. Por exemplo, como analisar o papel da mídia que, muitas vezes, estimula a maldade e celebra a bandidagem ao dedicar tanto tempo focando episódios como o caso Eloá?

sexta-feira, 19 de setembro de 2008


Estudo e entretenimento


A mãe, revoltada com o filho que não está com boas notas, decide pressioná-lo, pois teme uma bomba. Como a escola é particular, ela reforça que gasta muito dinheiro e não dá muita opção, ou ele estuda, ou muda de escola. Mas o garoto não quer mudar, gosta de onde estuda, só que ainda não pegou o jeito de estudar. Como tudo na vida, gostar de estudar envolve vários fatores, e pressionar não é o melhor caminho.

Filho não é investimento, é projeto de vida que além de afeto, cumplicidade e coragem, envolve vários desafios. Atualmente, tornou-se comum os pais computarem o quanto gastam com mensalidades escolares e usam esse argumento para obrigar os filhos a estudar. A dedicação aos estudos é muito importante na vida de uma pessoa - estudar é se envolver com a necessidade de adquirir conhecimento que irá orientá-la numa vida melhor, ajudá-la a conquistar uma profissão e se interessar por ela. Se o filho não está correspondendo aos estudos, o melhor caminho é investigar os motivos que o leva ao descaso pelo mundo dos livros. Será que os pais também são interessados em estudar, pesquisar e conhecer? Será que os lares atuais são um bom ambiente para estudar, se concentrar? Será que o mundo de hoje é um convite ao recolhimento?

A vida moderna combina consumo, shopping, paqueras, internet, orkut, celulares, jogos eletrônicos, TV, Ipod - tudo que desvia a atenção da garotada dos estudos. Vivemos o deslocamento do ser para o ter. Estudar não tem sido um valor apregoado pelo mercado.

Não podemos confundir filho com investimento, garantia de recuperar o dinheiro empregado na educação. Filho deve ser visto muito mais como promessa de bons sentimentos. Como é gente, se relaciona com o outro - diverge, briga, exige, ama e odeia. Sempre sabendo que, no fundo, a aposta que está valendo é a afetiva - o prazer em ajudar uma pessoa a se encontrar e descobrir por onde passa o seu desejo, despertando-a para o mundo.

A sociedade atual expõe as crianças a fortes emoções, incentiva o gosto pela violência. Quando crescem, iniciam-se em esportes radicais, músicas eletrônicas, jogos barulhentos e violentos. A adrenalina tornou-se o alvo quando o assunto é divertimento. E esse é sempre o objetivo da garotada. Se não for divertido, não estuda e não se interessa. Como competir com os meios de comunicação, com a tecnologia? Como conquistar o interesse da moçada se no dia a dia ela vive se entretendo com o mundo das novas tecnologias?

A questão passa mais pela forma como a criança foi acostumada a lidar com as máquinas, que devem ser regulamentadas. O ser humano segue orientações psíquicas, que muitas vezes não seguem o rumo que os pais gostariam. Como seduzir o jovem, convocá-lo ao exercício da reflexão e do pensamento crítico, se a televisão antecipa, facilita e entrega tudo pronto? Eis um desafio aos pais e educadores – como fazê-los se encantar com o ato de estudar. Estudar não é como passear ou praticar esportes. Exige ambiente, dedicação, empenho e perseverança. Muito diferente do que navegar na internet, ou ver um filme no DVD. Uma questão que cabe à família introduzir, junto ao filho, desde cedo, se posicionando e se implicando.

Os pais não devem se deixar contaminar pela ideologia do dinheiro, pela lógica do custo/benefício, onde o importante é recuperar o que se gastou. Viemos ao mundo para tentarmos ser felizes. Se ao longo de nossa trajetória formos bem sucedidos, ótimo. Afinal, o que é sucesso? Se conseguirmos ser reconhecidos no que gostamos de fazer, tanto melhor, mas não podemos condicionar a existência humana pela equação – poder e dinheiro. Cada qual terá que descobrir uma maneira própria de ser. A existência humana requer questões de diversas ordens – singularidades, subjetividades. O bom pai respeita as escolhas do filho, apoiando e acompanhando-o em sua trajetória pela vida.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008


Rivalidade entre irmãos


Na piscina de um clube, um pai se deliciava com sua pequena filha aprendendo a nadar e fazendo outras gracinhas. O filho de 10 anos também tentava ganhar atenção: “Pai, olha como o passarinho nada”. E a irmã, mais que depressa, fazia algo para garantir olhares exclusivos, e conseguia. Outras tentativas vieram: “Pai, olha como o passarinho mergulha”. Mas o olhar do pai não desviava da menina. Por fim, o menino desistiu, ficou a brincar sozinho em um canto.

Quando os pais privilegiam um filho, ou demonstram uma preferência por um dos filhos, quais os sentimentos que podem surgir entre os irmãos? Inveja? Ciúmes? Raiva? O mito de Caim e Abel nos ajuda a refletir sobre esse fato. Abel, um pastor, ofertou uma ovelha a Deus. Caim, lavrador de campos, ofertou parte de uma safra. Deus agradou-se da oferenda de Abel, mas não de Caim, que zangado com o favoritismo e sem poder descarregar sua raiva em Deus, mata o irmão.

A injustiça de Deus, nesse caso, gerou uma rivalidade entre os irmãos. Nas famílias, a preferência, o favorecimento de um filho pelo outro faz eclodir disputas que podem gerar problemas graves. Quando uma criança ou um adolescente se vê preterido, menos amado pelos pais, julgado menos bonito ou inteligente, sente raiva e costuma descarregá-la indevidamente. Ainda incapaz de conversar sobre a mágoa, de manifestar sua tristeza, de reivindicar e conquistar igualdade, acaba deslocando o alvo para o irmão. É quando surgem palavrões e outras agressões - atitudes que merecem ser melhor investigadas pelos pais, pois frustração e insatisfação costumam gerar violência e devem servir como alertas.

Todo indivíduo deve aprender a suportar as frustrações, afinal, os pais não possuem sentimentos iguais pelos filhos. Sabemos que o mundo não é igual para ninguém - cada um é um, e por mais doloroso que isso seja, devemos crescer dando conta das diferenças. O que não significa que elas devam ser escancaradas. Há várias formas dos pais lidarem com as preferências - com habilidade, procurando compensar por um lado, ressaltando aspectos positivos de cada filho para que nenhum se sinta rejeitado. O sentimento de rejeição é terrível e pode deixar marcas indeléveis, que poderão prejudicar o sujeito por toda a vida, caso não seja tratado - falado, explicitado, elaborado, analisado.

O filho preterido pode crescer sentindo-se inferior, com a auto-estima baixa, o que é danoso. É um campo que se abre e que geralmente se traduz em um sujeito infeliz, espalhando ressentimento pela vida afora. Gostar de si, aceitando-se com as imperfeições e limitações, é um percurso a ser construído desde a infância e requer o afeto dos pais.

Contudo, por mais difícil que seja, os pais devem procurar ser justos com os filhos, dividir as atenções e carinhos, tentar não discriminar nenhum deles. Sabemos que é encantador uma criança pequena, tudo que ela faz tem sua graça. O jeito que fala, sorri, anda, pula e corre. O que é desengonçado torna-se bonitinho. Mas toda criança tem sua beleza, aliás, todo indivíduo esconde algo que pode ser explorado e admirado, mas para tanto requer olhares de admiração de um outro.

É o outro que nos confere identidade, singularidade. O processo de subjetivação passa pelo outro, esse todo poderoso que nos nomeia. Toda criança depende do olhar de aprovação dos pais, olhar de reconhecimento - aquilo que vai ajudá-lo a construir um sentimento próprio e que pode ser de amor ou de ódio, de acolhimento ou de rejeição.

Rivalidades sempre haverá. São situações que fazem parte da condição humana e os pais não precisam se culpar por elas. Importa assumir e aprender a lidar melhor com tais incômodos. Antipatias, incompatibilidades sempre existiram. A sociedade excludente, que privilegia o belo e discrimina o feio, também colabora para aumentar ainda mais a rivalidade entre os indivíduos. Quem nunca presenciou elogios a uma criança sendo ignorada uma outra ao lado? A maternidade e a paternidade responsável exigem dos pais posicionamento. A construção de relações mais harmoniosas e humanas, menos injustas e que poderão garantir saúde psíquica aos filhos, depende da disposição e da capacidade da família para enfrentar os problemas – desafios da vida em sociedade.

terça-feira, 5 de agosto de 2008


Mitos e transtornos


Transtornos - é uma questão genética ou psicológica? Modismo ou sintomas que revelam aspectos subjetivos que dizem do sujeito e de sua história de vida? O que subjaz a tudo isso? Vivemos uma tendência de justificar as doenças pelo mau funcionamento do cérebro. O mercado dos psicofármacos vem crescendo a cada dia confirmando que as pessoas estão reverenciando a medicalização. Da ritalina à fluoxetina, a mania é apostar na neuropsiquiatria. É a prevalência do corpo biológico sobre o corpo erótico.

Certamente, em alguns casos, a medicação tem a sua indicação. O que assistimos, contudo, é mais uma tentativa de classificar e enquadrar os sentimentos. Vivemos a onda dos diagnósticos, tudo tem que ser rotulado e nomeado rapidamente. A pressa em diagnosticar, desresponsabilizando o sujeito pelo sintoma, nos faz questionar o que tem contribuído para a proliferação dos transtornos e síndromes.

Dispersão, impulsividade, agitação e desatenção podem ser sintomas do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), ou sinais de um sofrimento maior que afeta a adaptação social? Para que uma criança apresente um bom desempenho na escola, se desenvolva de forma saudável, ela necessita de um ambiente familiar favorável. Vários são os fatores que podem atuar no corpo psíquico comprometendo a aprendizagem.

Uma criança que vive num ambiente transtornado, barulhento e sem clima propício para estudar, ler, se concentrar, acaba expressando o desconforto. É quando qualquer coisa passa a irritá-la. Uma criança irritada é uma criança em sofrimento. Importa mais descobrir como estabelecer um vínculo de confiança que viabilize ela falar, do que apenas diagnosticar ou nomear o seu sofrimento.

O conceito de transtorno é complexo e controverso. Maria Luisa Salomon, mestre em psicologia, em entrevista à revista Encontro, afirmou suspeitar do diagnóstico de TDAH. Em 30 anos de experiência só teve um caso que considera realmente como tal. Aos adultos, cabe aqui uma reflexão, afinal quem não foi ou teve colegas super agitados, desinteressados pelos estudos e que se tornaram ótimos profissionais?

Quando uma pessoa presencia um fato desagradável, uma tragédia, ou vivencia uma perda, ela pode sintomatizar de diversas formas. Contudo, se o que ocorreu não for elaborado, falado, se a criança não vivenciar o luto pela perda ou não trabalhar o incômodo, ele retornará bloqueando e dificultando a aprendizagem.

TV, celular, computador, vídeo game, DVD, Ipod. Muita tecnologia e pouca gente. Muitos são os recursos que fazem parte do cotidiano da moçada e que, em excesso e sem regulamentação, podem prejudicar o desenvolvimento cognitivo. A criança moderna é solitária, cresce avulsa, há poucos irmãos na jogada. A média das famílias de classe média é de 1 a 2 filhos. As relações interpessoais sofreram um abalo, um empobrecimento afetivo, simbólico e intelectual.

Infância é tempo de criatividade, é quando ela interage com outras, desenvolve a auto-expressão e potencializa sua inventividade. Criança requer cuidados e atenção, gente para vetorizá-la, ser referência e plantar raízes. Criança não adquire uma concepção da vida sozinha - necessita de uma formação rica em bons exemplos, boas companhias. Contudo, o tempo com os pais é fundamental - tempo de rolar no tapete, tempo lúdico e afetivo. É quando ela vai se sentir protegida e acolhida por aqueles que cumprem com a função paterna. Sem isso, ela pode se sentir angustiada, incomodada, irritada.

A escola deve dar ouvidos à fala do aluno, orientando os pais na condução do tratamento, que deve priorizar uma mudança de atitude para com ela. Sem entender é difícil mudar, sem mudar é difícil melhorar. A harmonia interna só será conquistada numa relação de afeto, respeito e confiança. Não podemos tomar a manifestação do problema como se fosse o problema. Como formarmos cidadãos criativos, autônomos e equilibrados? Talvez a saída esteja em dar ouvidos ao que não está bem, pois onde tem doença, tem sujeito e histórias de vida. Reivindicar o direito à singularidade é uma forma de reivindicar sanidade. Entre mitos e diagnósticos, há muita criança solitária, mal compreendida e infeliz com uma educação tecnológica, fria, terceirizada.

terça-feira, 22 de julho de 2008


Solidão de filhos


Será que seu filho se sente só? Talvez você nunca tenha pensado no assunto. Talvez você perceba e não saiba como agir. Mesmo que ele esteja sempre rodeado de colegas, que tenha festas para ir e até namorada, pode ser que ele não reconheça em ninguém um amigo verdadeiro para confiar quando o coração aperta.

Alex, um adolescente skatista do filme Paranoid Park, nos alerta para a angústia e a solidão que alguns jovens sentem. Em busca de emoção, aproxima-se de skatistas, e acaba envolvido acidentalmente na morte de um guarda. Recobre-se de medo e culpa, e não fala nada a respeito nem para o pai, nem para a mãe, nem para ninguém.

Um traço da adolescência é a comunidade, a “galera”, a tribo, que dá a ilusão, para os jovens e para os pais, da ausência da solidão. Mas no grupo nem sempre há relações de intimidade, nem sempre há vínculos estreitos. E não é necessário acontecer uma tragédia para o adolescente se dar conta de que está só. Basta ter algo que o incomode muito, ou viva de uma maneira que não lhe dê orgulho para ter sentimentos de inferioridade e manter-se distantes das pessoas, esconder-se. Esconderijo que pode representar a busca por situações que proporcionam euforia e disfarçam a solidão. Esta pode ser tanto silenciosa quanto barulhenta.

O psicanalista Contardo Calligaris em seu livro, Adolescência, nos lembra que o “adolescente vive a falta do olhar apaixonado que ele merecia quando criança”. Olhar vital, imprescindível para o adolescente não se distanciar dos pais. E é essa proximidade que os faz compreender a demandas dos filhos. Não se está falando aqui que é possível aplacar toda a solidão que um jovem sente, porque afinal todo indivíduo, indiferente de sua idade, em determinados momentos, sente-se só. Temos nossas inquietações que não compartilhamos. O que está em questão é como os pais podem amenizar a solidão que se abate sobre os filhos. Mesmo quando esse está às voltas com outras atividades, ele pode estar se sentido desamparado, só, angustiado e sem saber como manifestar o incômodo.

A vida moderna cerca o jovens de mil parafernálias - jogos eletrônicos, celulares, orkut, esportes radicais, colegas e amigos, contudo, muitos se sentem fora de lugar, deslocados. O sentimento de desraizamento, de despertencimento é um dos sintomas da juventude atual. Quanto mais ampliamos os espaços e as oportunidades de convivência, menos neles nos aprofundamos. O mundo virtual pode ser uma forma de disfarçar a solidão de muitos jovens. Eles têm muito e não tem nada, pois realmente poucos se entregam às atividades de corpo e alma.

O importante é que os filhos, desde pequenos, se sintam com liberdade e com intimidade para se abrir e falar de seus mal-estares, os sentimentos difíceis, as emoções indefinidas. É na intimidade que assuntos subjetivos e profundos podem ser conversados, desabafados, revelados. E isso se faz com diálogo, com proximidade. A conversa franca, aberta para expressar idéias e sentimentos nos aproxima dos outros. E quando falamos, nos ouvimos, nos entendemos. Por isso, é fundamental que os pais criem o hábito do bem dizer – quando a família inclui no dia a dia a prática de olhar uns aos outros, e mirando nos olhos, parar para sentir se o outro está bem. Afinal, para que vivemos se não for para nos ajudar a sermos mais felizes, para trazer mais sentido e colorido às nossas vidas? Resignificar a existência passa pelo olhar, pelo escutar e pelo sentir. E não pelo diálogo mudo que muitas vezes estabelecemos com aqueles que amamos. Juventude feliz é aquela que desliza nas pistas de skate e nas do coração.

Por acaso, ou por inconseqüência, seu filho pode estar num espiral de confusão. Se sentir confiança, ele tende a falar, mas se não sentir, vai arrumar estratégias de acobertamento. Vai se enroscar na culpa e no medo desencadeando uma série de conflitos internos. Portanto, cultive a intimidade.

quarta-feira, 2 de julho de 2008


Jovens e violência

O casal de jovens – ela, estudante de arquitetura, ele, de direito –, namorou por alguns anos. Depois de certo tempo, a garota resolve terminar o namoro. O ex-namorado, inconformado, começa a persegui-la. Certo dia, força e consegue entrar no apartamento onde ela mora, ludibria a empregada e vai até o quarto da garota, ameaçando e agredindo-a, embriagado, descontrolado. Os pais da garota procuram os pais do rapaz para uma conversa. O pai do garoto tenta desculpabilizá-lo. Chocada, a mãe da garota tenta entender tal aberração.

Histórias como essa têm se tornado comuns, o que nos obriga a refletir sobre os fatores que têm contribuído para o aumento da violência entre os jovens. Quando essas histórias começam?
Um garoto que foi criado, desde pequeno, demandando e recebendo, chorando e sendo atendido, cresce despreparado e com um imaginário completamente distorcido sobre os códigos da boa convivência. A concepção que formamos da vida é internalizada desde que nascemos. Se a criança sente desejo de algo, ela vai lutar para conseguir. Caso ela consiga sem esforço, ou se nada lhe é negado, como ela vai desenvolver um equilíbrio pulsional - como ela vai aprender a domar pulsões e desejos? A possibilidade de essa criança crescer fora da lei, praticando atos inflacionários, desrespeitando regras e desconhecendo limites, é muito grande.

As famílias modernas, por falta de tempo ou por falta de disposição interna, delegam a terceiros a educação dos filhos. Nessa jogada entra, desde babás, escolas, avós, até televisão e computador. É grande o arsenal de atividades e pessoas que vêm cumprindo com a função paterna e materna. Isso tudo inclui aspectos positivos e negativos. Os negativos correm por conta dos excessos, exageros. Muitos, ainda bebês, iniciam sua trajetória no mundo externo – fora de casa, em berçários, submetendo-se a horários rígidos, longe do aconchego dos pais. Os primeiros anos de vida são fundamentais para a saúde psíquica e emocional da criança. Como conciliar a necessidade de trabalhar fora com a responsabilidade sobre os filhos? Educar exige disposição, implicação, dedicação, tudo que o mundo moderno não estimula, pois sempre nos chega com um compromisso urgente.

Contudo, há cenas, palavras e imagens que registramos ainda bebês, e para delas nos desvencilhar, não será muito simples. Somos as fantasias que criamos com o que vivemos, ouvimos e vimos. Se não aprendemos, desde cedo, aceitar recusas, considerar o desejo do outro, como iremos respeitar a namorada? Saber renunciar ao nosso desejo, saber lidar com frustrações e perdas é uma das coisas mais importantes da vida. Cabe aos pais inserirem o filho nos limites da condição humana. Todo ser humano sofrerá restrições, frustrações. Não existe vida humana em que algo não falte. Freud, em vários textos, nos alertou sobre o desamparo. Faz parte da tragédia humana a sensação de incompletude.

O bom pai é aquele que não poupa o filho dos fracassos e errâncias da vida. Educar demanda coragem e dedicação para, desde pequeno, apresentar ao filho a vida como ela é. Viver exige de nós responsabilidade, compromisso. Coragem para assumir erros e fracassos. O homem, quando toca sua insignificância, humaniza-se. Dignidade, honra e humildade, são valores que não podem sair do cardápio educativo dos filhos. Sem eles o mundo se tornará inviável, inconvivível. A anomia - o caos e a falta de lei não são bons para ninguém. A vida forjada na intolerância e no desrespeito ao outro é um inferno.

A educação de um filho começa bem antes de ele nascer. E requer muita gente! Como diz o provérbio africano: “É preciso um povoado inteiro para educar uma criança”. Há uma função social na educação dos filhos - embora seja responsabilidade dos pais, ela excede aos pais. O individualismo, sem uma moldura ampla de responsabilidades coletivas, é um perigo. Em que cultura educamos nossos filhos? Qual a nossa posição diante dos últimos acontecimentos? A cultura de consumo, individualista, narcisista, que incentiva o sucesso a qualquer custo, não ajuda muito. Pelo contrário, estimula a permissividade. E sabemos que sem coibir é impossível educar!


1968 – O ano em que tudo começou


O que teria levado valores como solidariedade, gentileza e respeito ao outro cair em desuso? Por que nos tornamos individualistas e consumistas ao extremo? O que levou à desestruturação familiar? Quando tudo isso começou? Para Jean-Claude Guillebaud, autor de Tirania do prazer, isso começa com a revolução sexual de 1968. O ano em que, na esteira de Wilhelm Reich, o sexo deixa de ser um acontecimento para tornar-se uma obrigação. Todos devem se candidatar ao imperativo do prazer sexual que se tornou a panacéia para todos os males. Para ele, o advento da liberdade sexual vai lutar contra a família, a moral e todas as formas de repressão. Reich atesta a crença no avanço de suas idéias: “A revolução sexual progride e poder algum do mundo poderá deter seu curso”. Contudo, o excesso de permissividade que vive os jovens atuais, o descontrole na forma de viver a sexualidade e a dificuldade dos pais e professores em impor-lhes limites e disciplina, fazem parte das conquistas do maio de 68.

Hoje, desejar uma família estruturada, ansiar por filhos respeitosos e obedientes, que agem dentro dos limites da lei, tornaram-se valores de esquerda. Ser revolucionário hoje é ser disciplinado, ético e solidário. Como reiniciar o retorno à ética e a conceitos como cidadania, público e alteridade? A descrença na política nos fez amantes dos costumes, tendências e modismos, como se somente eles pudessem nos salvar. Atestamos o fim da esperança por um mundo mais humano, igualitário e feliz. Resistimos ao triunfo do neoliberalismo com o direito de usarmos o nosso corpo, explorá-lo - usufruir dele e do corpo do outro como bem desejarmos. Eis a nossa revolta – somos libertários sexuais, mesmo quando não devemos ser. Nossa ética é garantir nosso prazer a qualquer custo.

As grandes matrizes ideológicas caíram por terra, o marxismo cedeu lugar a outras crenças. Longe de combater a luta de classe, agora queremos marcar posição, ganhar espaço, visibilidade. A luta é individual e vale lançar mão de todo tipo de pensamento. De Paulo Coelho à auto-ajuda, a ordem é garantir alguma salvação. A esperança transformou-se num presente sem futuro – o imediatismo comanda e orienta a vida forjada pelo mercado globalizado. Viver tornou-se num plano de metas, frenético e sem sentido. Tempo de desespero!

O jornalista Zuenir Ventura, em “1968 – o que fizemos de nós”, relembra: “Finda a era das certezas ideológicas, vivemos tempos de ambigüidade, do bem convivendo com o mal, do sim com o não, de um futuro em que nada está garantido, nem a existência do planeta”. Cultivamos como herança de 68 um relativismo moral e sexual, o fim das referências culturais e familiares, transformações no campo da estética - a moda deslocou para dietas e academias. A esperança apostada no socialismo desabou no consumismo. Os estudantes de outrora, pós-movimento estudantil, infiltraram-se nos partidos e sindicatos - que hoje ocupam cargos de poder, salários de magnatas.

Mas de tudo isso importa destacar a questão moral - a herança de uma liberdade conquistada que desloca para uma permissividade excessiva. Jovens de 68 tornaram-se pai confundindo educação com repressão. Negligentes e relapsos, não inseriram o filho nos limites da lei. Na confusão, relativisaram tudo, confundindo papel de pai com papel de amigo. A geração dos filhos dos militantes de 68, geralmente, é rebelde às avessas. Hoje, muitas crianças vivem o desajuste - o conflito entre certo e errado, verdade e ficção, bonito e feio, heterossexual e homossexual. Podemos ser melhores. Vamos lutar!

terça-feira, 17 de junho de 2008


Rivalidade feminina



O caso Isabella - a menina que, supostamente, foi asfixiada pela madrasta, e jogada pelo pai janela abaixo em São Paulo (29/04/08), provoca reflexões. Ao levantarmos questões e suposições, deparamos com uma infinidade de aspectos da sexualidade humana. Como explicar o que levaria um pai e uma madrasta a se envolverem em um assassinato de uma garota de 5 anos? Será que houve uma falha na metáfora paterna?

Toda criança, para crescer consciente da responsabilidade de seus atos e dos limites que a vida nos impõe, deve ser inserida na civilização - barrada e frustrada em seus desejos, impulsos e caprichos. Quando o sujeito infringe a ordem e comete um crime, o que se apresenta é uma falha na instauração da lei - falha na capacidade de apontar um ponto de basta interditando o sujeito em seu desejo. Tudo vai depender da forma como os pais sancionam a intervenção, funda a lei e instala a ordem, a autoridade. Castrar é limitar, é introduzir a frustração por meio da repressão, da interdição. É quando aprendemos, desde pequeno, a suportar os obstáculos da vida. Caso ela fracasse, agimos como donos do mundo, irresponsáveis (não respondendo pelos nossos atos), desrespeitando e descartando os que obstruem o nosso caminho, nos incomodam e nos irritam.


Isabella metaforiza a intrusa - intrometia e atrapalhava a madrasta na sua relação com o seu homem. Essa, irritada, resolve se livrar desse outro que excedia. A tela da janela, ao romper, simboliza a falta da lei na vida do casal. É ela que freia o sujeito em seus ímpetos, impedindo-o de cometer asneiras. O sujeito, no desespero e movido por uma urgência pulsional, passa-se ao ato – assassinatos e suicídios. O despreparo do casal diante dos obstáculos, limites e frustrações, tanto aponta o fracasso da função paterna como levanta a questão da rivalidade feminina.


Cinderela e Branca de Neve foram vítimas do ódio feminino. Elas provocavam inveja, ciúme, incomodo e ressentimento. Ao tentar investigar a rivalidade feminina, é importante enfrentar os entraves que, historicamente, foram responsáveis por muitas desavenças entre sogras e noras, madrastas e enteadas, mães e filhas. Muitos são os enigmas que envolvem a sexualidade feminina. A mulher, ao não portar em seu corpo o representante universal do falo (pênis), imprime em seu imaginário uma ausência. Ela traz no corpo a marca da falta (incompletude), o que pode eternizá-la na insatisfação. Daí pra frente, a mulher vai ter que fazer acordos com essa falta que provoca insegurança - buscar outras instâncias de poder e realização que lhe garanta um lugar – uma subjetividade, uma identidade. Toda mulher terá que construir uma posição na vida, uma forma de se sentir realizada e reconhecida. Caso isso não aconteça, ela corre o risco de cair no abismo. O abismo é quando a mulher se eterniza na insatisfação. Marcada pela rivalidade feminina, revoltada com sua existência e posição no mundo, ela, queixosa e intolerante, implica com marido, filhos e enteados.


O importante é alertar as mães para a necessidade de inserir os filhos na frustração, barrando-os nos excessos e caprichos. Treiná-los, desde cedo, a conviverem com os fracassos - obstáculos e imperfeições da existência humana. Ensinar o filho a tolerar o chato, suportar o diferente e conviver com o intruso - aquele que provoca ciúmes e rivalidade - faz parte do processo educativo.


Talvez se a madrasta, desde bebê, tivesse sido castrada em seus desejos e inserida, de forma carinhosa e firme, nas leis e limites da vida, ela teria administrado melhor o ciúme que sentia na relação de Isabella com o pai. Teria suportado melhor as birras da garotinha, que, provavelmente, disputava o amor do pai. Cabe às mães se investigarem e se prepararem como mulher para enfrentarem, junto às filhas, o fardo da sexualidade feminina – os fantasmas inconscientes que conduzem nossos atos. Tarefa dolorosa, contudo, necessária na trajetória de uma vida mais harmônica – seja nas relações com os homens, ou na convivência com outras mulheres. Como testemunhou Freud: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

terça-feira, 3 de junho de 2008


BARBIES E BOTOX


A adolescente chegou para a mãe e perguntou: “Quando eu vou colocar botox”? As meninas de hoje estão crescendo entre mitos que inspiram um ideal de vida, centrado na aparência - beleza plástica e vida sexual precoce. O efeito Barbie nas meninas é da mulher que conquistou sucesso financeiro e afetivo devido a seus atributos físicos, ou seja, por meio de um corpo magro, cabelos longos e loiros - símbolos da mulher bem sucedida e poderosa. A criança cresce acreditando que toda loira é rica, gostosa e cheia de pretendentes. O fetiche da Barbie está nas aquisições físicas e materiais. A ilusão que se vende é de uma felicidade fashion.

A vida idealizada em ícones como Barbie desconstrói a idéia de trabalho – ofício ou profissão que se conquista com muito esforço. Convenhamos, isso é uma grande sacanagem que o mercado, com o beneplácito dos pais, está promovendo entre as meninas. A vida é muito mais que um corpo bonito, seios grandes e bundas arrebitadas. Será que ninguém vai ocupar-se em desmascarar mais esse embuste?

Lembramos que a sedução brota da mente - das fantasias que criamos sobre o mundo e as pessoas. O desejo resulta de um clima de magias que construímos a partir dos significantes paternos e maternos. O que uma garota aspira revela como foi educada - como seu inconsciente foi contaminado. Se a contaminamos apenas com objetos trash, frivolidades, as chances de ela reproduzir esse comportamento pela vida afora são grandes. Contudo, vale o aforismo: “Diga-me em quais valores educas tua filha que direi quem tu és!”

Denunciamos os efeitos da cultura contemporânea na organização psíquica dos indivíduos. Chamamos a atenção de pais e educadores para os impactos que o mercado exerce sobre as garotas (seja por meio da mídia ou da indústria de brinquedos) ao veicular um ideal de vida, centrado no sucesso fácil, conquistado apenas com atributos físicos. Fatores como pressão social por poder, visibilidade, afrouxamento dos laços sociais e familiares acabam por engendrar uma desestabilização do sujeito. Quando as escolhas são narcíseas, dentro de uma significação fetichista, quando o foco se cristaliza no eu, temos a prevalência das chamadas patologias do ato ou patologias narcísicas como: toxicomania, anorexia, bulimia e doenças psicossomáticas. Da intoxicação narcísica à psicofarmacologia, o que testemunhamos é o indivíduo atual fugindo cada vez mais dele mesmo.

O brincar promove o desenvolvimento intelectual e psíquico da criança. A indústria, ao colocar no mercado bonecas como a Barbie, que já vem com tudo pronto – guarda-roupa e cenários completos – diminui na criança a oportunidade de ela própria criar histórias. Educados no mundo cibernético, desprovido do contato afetivo, nos tornamos produção in vitro de um modelo psíquico operatório, normatizado - seres operantes, que agem de forma mecânica, desconectados dos sentimentos. Sensualidade advém, também, da inteligência. Quando a mãe se ocupa em excesso com a aparência da filha, ela acaba transmitindo a idéia de que somente é possível felicidade em um corpo bonito. O verdadeiro tesão brota de mentes e espíritos sofisticados e iluminados. A pior pobreza é a simbólica, contudo, devemos recusar às nossas filhas o lugar da “loira burra”.


Inclusão, um caminho



Mauro chegou à sala e despertou a curiosidade da meninada. Pela primeira vez, a turma tinha um colega com Síndrome de Down. Com comportamento agressivo, procurava compensar a deficiência de sua linguagem verbal. Batia na professora e nos colegas, tornando-se necessário esclarecer a turma sobre as dificuldades e as razões que o levavam a agir daquela forma. Contudo, a criançada permanecia temerosa, o que é natural dentro de um processo de adaptação. Uma chegou a não querer ir para a escola, fantasiando que Mauro podia matar a professora. Esta chamou a mãe para conversar que, ao entender os fatos, com muita sensibilidade, explicou ao filho: “O Mauro não sabe que não pode bater. Ensina pra ele”. No outro dia, seu filho chegou à sala ensinando aos colegas que precisavam ter carinho com o Mauro. E aos poucos toda a turma foi mudando o comportamento. Passaram, juntos, a cuidar do colega – levá-lo para o recreio, ajudá-lo com o lanche e atividades pedagógicas, incluindo-o nas brincadeiras. O que não significa dizer que acabaram todos os conflitos.

Estamos diante de um caso de inclusão, algo novo na sociedade e na escola regular. Outrora, as crianças deficientes eram mantidas trancadas em casa e cuidadas somente pela família e a babá. Na história da civilização, quem é diferente sempre foi segregado. A psicanalista Ana Senra, em seu livro Inclusão e Singularidade, confirma que é mais fácil isolar que incluir. “Eliminação de corpos deficientes nas sociedades espartanas, um discurso religioso que associa conteúdos diabólicos ou pecaminosos às imperfeições humanas.”Ainda hoje, muitas crianças são segregadas pelos diagnósticos médicos e confinadas em escolas especiais.

Felizmente o mundo está despertando. Na Declaração Mundial de Educação para Todos, aprovada pela ONU em 1990, está implícito o direito da pessoa deficiente à educação. E tal documento inspirou o Brasil. Em 1998, o governo federal determinou a inclusão de alunos especiais nas salas regulares. Contudo, poucas escolas a cumprem alegando não estarem preparadas para lidar com esse tipo de criança. Mas, como se preparar? Quem nos prepara para ser mãe ou pai? O filho, não é mesmo? E quem prepara a professora para dar aula para uma criança de inclusão? O aluno. O importante é ter disposição e dedicação para enfrentar os desafios, que certamente são muitos, e também para pesquisar e estudar bastante. Uma criança que tem problemas para aprender aponta dificuldades que o professor tem para ensinar.

Precisamos compreender que todo indivíduo possui aptidões e reúne condições de desempenhar atividades, desde que tenha oportunidades para desenvolver seu potencial. Como diz a mãe do Joãozinho, personagem do belíssimo documentário Inclusão, de Beto Magalhães. “Ele não deu pra leitura, mas deu pro trabalho”. O rapaz, além de ajudar a mãe nos afazeres domésticos, trabalha num restaurante.

A sociedade necessita se abrir para incluir todos, sem exceção – deficiente físico, mental, sensorial, superdotado, minorias. Reconhecer o outro. Entender que conviver com pessoas diferentes é uma oportunidade. Se a criança não passa pela convivência com a diferença, mais tarde terá dificuldade para vencer os preconceitos. O deficiente colabora para formar adultos tolerantes, solidários e responsáveis pelos outros. Portanto, cabe à escola ser um reflexo de uma sociedade que é plural. Para Maria Teresa Mantoan, fundadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade, “uma sociedade justa e que dê oportunidade para todos, sem qualquer tipo de discriminação, começa na escola”.

Incluir não é todo mundo conviver no espaço -- na praça ou no mesmo supermercado. Não basta fazer adaptações físicas. É interação e implicação. É uma responsabilidade de todos nós. Como? Criando espaços genuinamente democráticos, onde conhecimentos e experiências são partilhados entre pessoas que tenham a cor, o cabelo, a estatura, o corpo, o pensamento que tiverem. Quebrando barreiras que impedem deficientes de se inserirem na sociedade e no mercado de trabalho. Não estamos nos perguntado como construir uma sociedade mais pacífica e harmônica? Eis um caminho.

domingo, 11 de maio de 2008

Mães, funções e desafios



Muitas mães, para não se haverem com preocupações, para se pouparem do esforço e da tensão proíbem os filhos de saírem à noite. Para algumas, retê-los em casa ou deixá-los sair apenas quando parece seguro exige menos – é menos angustiante. Outras, para não enfrentarem o desafio da interdição, permitem tudo. Os filhos com 13 anos já freqüentam baladas, ingerem bebidas alcoólicas, transam.

A questão não é permitir ou não os filhos de freqüentarem determinados lugares, mas debater o papel das mães no processo de amadurecimento dos filhos. Mães corajosas, comodistas, superprotetoras, dedicadas, relapsas, possessivas, amorosas. Qual a medida certa de ser mãe? A do Geraldão, do cartunista Angeli, é tão danada que faz tudo para não deixar o filho arrumar namorada.

Quando vai chegando o “Dia das mães”, o comércio se assanha, defende seus interesses. E, naturalmente, as mães aguardam um agrado. Mas é um bom momento para reflexão. Quão boa mãe você é? Quão boa mãe é a sua esposa?

Poderíamos citar inúmeras situações que revelam as que exageram nos cuidados, as que são permissivas, que são excessivamente castradoras. As que excedem na liberdade e as que demonstram desatenção e descaso com os filhos. Tanto a falta quanto o excesso pode deixar seqüelas, marcas que prejudicam o desenvolvimento emocional do filho.

A mãe que, por colocar o filho no lugar do falo – quando ele entra na relação tamponando a falta – acaba por sufocá-lo, dificultando o corte necessário entre mãe e filho. Por outro lado, a que não estabelece o laço necessário com o filho não transmite à criança a certeza de que ela ocupa um lugar no seu desejo. Mães que não sentam no chão e brincam com o filho não se ocupam da maternagem com gosto. Outras se ocupam de forma obsessiva, compulsiva e autoritária. Situações extremas geralmente provocam desequilíbrio. Um lar saudável prima por uma certa harmonia. Como conquistar tal equilíbrio?

O grande desafio que o mundo turbulento coloca às mães é: Como conciliar vida corrida com paz interior? Como atingir internamente o ponto de sustentação, de harmonia para conseguir a boa medida – ter firmeza ao dizer não e convicção ao dizer sim? Como não ser carrasca, tampouco superprotetora?

Superproteger é uma tendência materna. Aliás, é necessário que a mãe estabeleça uma fusão com o bebê. Este nasce totalmente indefeso, dependente.

Contudo, com o tempo, é também necessário que ela vá se distanciando – desviando o olhar para outros interesses. É importante que o filho perceba que a mãe não é toda dele. Educar implica limitar e frustrar o filho em seu desejo. A mãe suficientemente boa é aquela que interdita o filho nos excessos e prepara-o para os obstáculos da vida. É importante que a mãe incentive a criança na conquista de sua independência – que inicia-se com a transição do peito para a mamadeira, do colo para o chão, da casa para a escola. Entretanto, há mães que não querem que o filho cresça e dificultam a conquista da liberdade e da independência. Mães fálicas, egoístas e poderosas cujos filhos, geralmente, terão dificuldades em assumir responsabilidades, tomar rumo na vida.

Excessos de cuidados geralmente culminam em crianças inseguras. Crescem com dificuldades para fazer escolhas, temerosas diante dos desafios necessários ao amadurecimento. Inibidas ou acuadas, paralisam diante da angústia, demandando sempre dos pais as soluções.

Contudo, a falta de cuidado também é prejudicial, comprometendo o desenvolvimento psíquico da criança. Filho que sente que a mãe não gosta de despender parte do seu tempo com ele, que o trata com rispidez, provavelmente se tornará um adulto angustiado, mal humorado.

Qual é a função da mãe? Preparar um filho para a vida ou para atender aos seus caprichos narcísicos? Há mães que querem ser legais, moderninhas, amigas de suas filhas. Vale lembrar que ser mãe é diferente de ser amiga. Tornar-se uma mãe razoável, na dose necessária de bom senso e equilíbrio, é desafio. Muito trabalho, dedicação, erros e acertos. Primeiro, é importante que ela se equilibre, se estruture emocionalmente, psiquicamente uma longa caminhada que envolve desejo e seriedade. Ser mãe é, antes de tudo, uma escolha corajosa, bonita quando exercida com prazer e lucidez, pois é tarefa para toda uma vida. E o futuro do mundo depende dela. Se a vida está fora dos eixos, às mães cabe a determinação de contribuir para consertá-la. Esperança que não se finda!

quarta-feira, 30 de abril de 2008


A criança como patrimônio


Pesquisa da Unesp (Universidade Federal de São Paulo) com 800 famílias da periferia de São Paulo, relatada por Gilberto Dimenstein (Folha de São Paulo, 20/04/08), revela que 20% das crianças são vítimas de violência doméstica - espancamentos, asfixia, queimadura, entre outros. O que certifica que a violência contra crianças no Brasil tornou-se fato corriqueiro.

Há muitas outras Isabellas vítimas dos adultos. Crianças que morrem ou ficam marcadas pela insensatez, pela frieza e até pela loucura de quem deveria cuidar, dar proteção. E sabemos que a violência atinge também jovens e as classes mais altas. Pelos jornais e pelas ruas, presenciamos ou sabemos de inúmeras barbáries contra eles.

Segundo a senadora Patrícia Saboya, da Frente Parlamentar pela Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, entre 65 países, o Brasil é o que mais mata seus jovens. São 16 por dia! Como nos omitir diante de dados como esses? Qual a nossa responsabilidade? Como implicar, trazer o debate para dentro de nosso lar, para a nossa comunidade? Devemos nos posicionar, vigiar, indagar como vivem as crianças que fazem parte de nosso cotidiano – alunos, filhos dos empregados, vizinhos e amigos. Será que estamos comprometidos com o futuro de nosso maior patrimônio: as crianças e os jovens?

Dimenstein, que acompanha o assunto da delinqüência infanto-juvenil desde o final da década de 1980, afirma na mesma reportagem que “nem toda criança espancada vai para a marginalidade, mas quase todos os marginais passaram pela violência”. Contudo, muitos filhos tornam-se vítimas da própria família, passando de vítimas a culpados.

É importante refletir como nos relacionamos com os nossos filhos, muitas vezes, deixamos marcas indeléveis. Devemos valorizar cada etapa da criação, desde a amamentação. Todo gesto daquela que cuida do bebê é por ele registrado – a forma como a mãe oferece o seio ao filho, como ela fala com ele, o tom da voz. Uma criança terá maiores chances de crescer saudável quando ela reconhece que foi desejada pelos pais, sentindo-se confortável e segura pelos laços afetivos que a cercam. Relações que vão dizer muito de como ela será no futuro. Um adulto equilibrado, geralmente foi uma criança amada, acariciada. Diz da qualidade do afeto que recebeu – como foi respeitada em sua singularidade.

Em tempo, a madrasta que supostamente asfixiou Isabella, a garota que foi assassinada em São Paulo, (29/03/08), de forma brutal, o que revoltou a população, também foi vítima de violência por parte do pai. Mais um fato que constata que estamos vivendo uma epidemia da violência familiar. Como ajudar a contê-la? Epidemia que deságua na sociedade. Ao Estado, entre muitas outras medidas, cabe ampliar a discussão sobre planejamento familiar, socializar ainda mais os métodos contraceptivos, dar prioridade ao tema. A Senadora alerta que alguns importantes projetos não entram em votação. E a nós, o que cabe? Para começar, a reflexão: o que é ser um bom pai? Sem o comprometimento, sem a dedicação necessária, é possível participar da construção de um mundo melhor para nossos filhos? Ter filho exige maturidade, coragem para enfrentar obstáculos e frustrações. Exige doação, disposição, envolvimento. Requer dedicação para junto a eles debater temas como esses, livrá-los de preconceitos quando muitos julgam violentos e criminosos apenas o diferente - pobre, negro ou favelado.

Como bons pais, podemos ajudar a construir um país que valoriza e aposta no seu futuro. Como bons cidadãos, iremos nos sensibilizar com as milhares de vidas ceifadas precocemente. Não podemos simplesmente nos envergonhar com os números de vítimas da violência. Afinal, como define o filósofo francês Ruwen Ogien, “com a vergonha não vamos longe, é mesquinha, não nos move para uma ação positiva”. Devemos, sim, sentir um pouco de culpa, porque esta pode nos tirar do comodismo, nos mover para uma ação em direção ao outro. A criação de uma cultura de paz depende de cada um de nós, e isso não pode ser utopia.

domingo, 13 de abril de 2008


Educando meninas




Há algumas décadas, parecia mais fácil educar meninas. O caminho era prepará-las para a vida doméstica e torcer para que elas conquistassem bons maridos. Não havia muitos modelos femininos disponíveis. E os que existiam não eram muito alardeados. Raras mulheres ousavam acalentar sonhos e persegui-los, e as que a eles se dedicavam, eram consideradas loucas ou reconhecidas como más companhias para as moças tidas de família.

Ao longo do século 20, algumas mulheres mais ousadas e intempestivas, enfrentando preconceito e violência, abriram alas para as novas gerações. Na década de 60, o movimento feminista se organizou nos EUA e expandiu-se pelos países ocidentais. Lutaram por emancipação e liberdade. Queriam a equiparação aos homens em direitos jurídicos, políticos e econômicos - apesar das diferenças culturais, sexuais e subjetivas, procuravam se afirmar como indivíduos tão respeitados e valorizados quanto os homens.

O cenário mudou radicalmente. Muitas se destacaram profissionalmente, conquistaram searas masculinas. Assumiram seus desejos ou simplesmente se libertaram daquele tipo de opressão. Passaram a ver a maternidade como escolha e não mais como destino. O mito da mulher que só se realiza quando mãe caiu por terra.

Alguns fatos comprovam que a mulher soube se fazer respeitar, romper com o patriarcado; outros, que ainda vivemos numa sociedade em que a imagem da mulher “objeto de cama e mesa”, submissa ao poder econômico, pouco avançou. Cultuamos olhares para o corpo-mercadoria, exibido e cobiçado, e que forjaram a mulher-melancia, mulher- cerveja, que se deixam vender, explorar. Infelizmente é a própria mulher que anseia por vitrines, holofotes e bons cachês. Como nos alerta Frei Betto: “Estupradas em sua dignidade, elas são despidas em outdoors e capas de revistas, reduzidas a iscas de consumo na propaganda televisiva, ridicularizadas em programas humorísticos, condenadas à anorexia e à beleza compulsória pela ditadura da moda. As belas e burras têm mais “valor de mercado" do que as feias e inteligentes”. Contudo e apesar de tudo, é nesta sociedade que temos que educar nossas filhas, futuras mães!

Cabe aos pais ampliarem o olhar da filha sobre o mundo e as opções de vida. Muitas são as oportunidades que os pais podem incentivar e que não passam, necessariamente, pelo modelo apregoado pela mídia. Como fugir aos ditames do mercado? O desafio é mostrar que o mundo oferece espaço para todo tipo de mulher - a questão é expandir o foco, potencializar outras experiências, histórias e trajetórias. A questão é dar suporte às garotas na árdua tarefa de se descobrirem, valorizando singularidades, desejos, habilidades.

O complicado nessa história é justamente como provocar a mudança de foco - como reinventar um outro lugar, uma outra lógica nas cabecinhas das meninas e que fuja aos padrões da mulher boazuda e fútil. Quais valores norteiam mulheres como a poeta Adélia Prado? O mundo das artes nos reserva boas saídas. O mundo da criação, da auto-expressão é mágico, delicioso. Nada mais gostoso que se sentir capaz de produzir algo, poder nomear o resultado de um trabalho, sentir-se responsável por um processo criativo, seja ele em que campo for. Criar e fantasiar nos protege da loucura, faz bem à alma, alimenta e estimula o amor próprio. Apostar no talento e na capacidade de nos fazermos respeitadas e reconhecidas pelo que produzimos, é mais seguro que apostar apenas num belo corpo, frágil e efêmero. Além de mais nobre, bonito e merecedor.

sexta-feira, 11 de abril de 2008


Sindrome de Down e a angústia do pai


“A idéia – ou a esperança de que a criança vai morrer logo tranqüilizou-o secretamente. Jamais partilhou com a mulher a revelação libertadora. Numa das fantasias recorrentes, abraça-a e consola-a da morte trágica do filho, depois de uma febre fulminante”. Cristóvão Tezza, em O filho eterno, - romance com toque auto-biográfico de intensa beleza, sensibilidade e coragem - descreve a experiência de ser pai de uma criança com síndrome de Down, expondo as dificuldades em aceitar e assimilar tal realidade.

O homem dotado de capacidade de expressão, manejo nas palavras e no sentir, quando tocado nos subterrâneos da alma, produz coisas lindas e que dignificam a condição humana. Os fracassos são para ser explorados, vivenciados, ressignificados. Depois que fazemos a travessia, depois que enfrentamos o real que nos enoda e nos joga no limite de nossa capacidade de suportar a dor, transformamos a vergonha em arte, literatura. Ficamos forte e, redimidos, destemidos, damos ao significante o salto necessário. Saber ultrapassar os limites que, à primeira vista, escondemos, é sinal de nobreza no trato do sofrimento. Para o autor, “O fracasso é coisa nossa, os pássaros sem asas que guardamos em gaiolas metafísicas, para de algum modo reconhecer nossa medida”.

Cristóvão abre um debate franco e corajoso sobre a miséria humana, desmistificando imagens e vaidades ao revelar as fragilidades e imperfeições da existência humana. Sempre vamos ter que nos haver com errâncias da vida, seja por meio de um filho que nos chega com alguma deficiência ou certa dificuldade, ou por algo que em nós fraqueja. Contudo, o melhor é fazer como o autor - transformar a lama em ouro, preciosidade literária, artística. Sublimar - conferir à vida que malogra o estatuto de sublime exige coragem moral. Do sofrimento nascem belezuras.

Muitos pais procuram disfarçar a deficiência de um filho, tentam dissimular, esconder o desconforto e a vergonha de expor ao mundo o lado da vida que não saiu como desejavam. A tendência em esconder do mundo feridas e fracassos atribuímos à sociedade da perfectibilidade – uma cultura que não vê com bons olhos os defeitos e as diferenças. Somos treinados para aplaudir o bonito, o rico, o bem sucedido. O vencedor é sempre merecedor de palmas, pouco importa os meios utilizados para lá chegar. A vida que cultuamos é a que promete avanços e projeções. Ser bem sucedido significa ser portador de uma boa imagem, causar frisson, atrair holofotes, mesmo que seja sem fazer esforço, ou fazer por merecer.

O objetivo não é culpar os pais pela falta de habilidade em enfrentar esse mundo cada vez mais competitivo, em que as regras de mercado são violentas, rígidas e cruéis, mas contribuir no enfrentamento do problema. Quando os pais abrem o coração e aceitam falar, expor as angústias, raivas e pesares pelo que a vida lhes impôs de sacrifício, já é um bom caminho. Cristóvão, ao deixar-se deslizar pela angústia da qual foi tomado quando se viu pai de um filho com síndrome de Down, lança um novo olhar aos pais de crianças deficientes, tanto aos que julgam tal destino maldito, como aos que, por compaixão, os superprotegem. O melhor é achar uma forma de tratá-los com naturalidade, sem culpa e pena: “Quanto mais no chão ficar, melhor. Lembrava sempre de uma observação da clínica: freqüentemente os filhos dos pobres têm muito mais coordenação motora, agilidade, maturidade neurológica que os filhos dos ricos; a mãe pobre põe o filho no chão e vai lavar roupa, fazer comida, trabalhar – a criança que se vire. A mãe rica dispõe de colos generosos e perfumados, proteções de todo tipo contra o terror de infecção, babás cuidadosas, cintos de segurança, carrinhos, andadores com almofadas”.

terça-feira, 25 de março de 2008


Ética na mamadeira


O garoto chega em casa com um celular diferente, a mãe logo pergunta a quem pertence. Responde que um colega o emprestara. No dia seguinte, na escola, um aluno denuncia que seu celular foi roubado. O garoto, temeroso, não assume o ato mais tarde desvendado por um colega que acabou relatando-o à coordenação. A família, querendo poupar o filho da vergonha de ter de se desculpar, transfere-o de escola.

É assim que se perde uma boa oportunidade para ensinar o que é ética. É assim que muitas famílias podem produzir um delinqüente ou criminoso. Errar é humano, contudo não submeter o infrator à correção e punição é eternizar o sujeito em atos perversos, fora da lei.

Muitas escolas estão apavoradas. Não conseguem impor disciplina e limites na moçada. Os alunos estão cada vez mais desinteressados, distantes e desconectados do mundo da ética e da solidariedade. O que deixa professores e pais incomodados é a falta de educação de alguns jovens. Muitos são espaçosos e cara-de-pau, não respeitam o desejo do outro - o dele sempre é mais importante, imperativo e urgente.

Ética passa pela alteridade, é quando o outro entra em cena. Para que a ética prevaleça numa comunidade, ela tem que conferir sentido. Onde está o sentido de se viver numa sociedade cada vez mais desleal, individualista e competitiva? A educação, quando centra apenas em interesses privados, descaracteriza interesses como solidariedade, honestidade e amizade, colocando em risco a vida na sociedade. Educação só se transmite com convicção, quando a maioria está convencida que priorizar o bem viver, a boa convivência - o respeito ao outro e à comunidade são valores supremos.

Cinismo é não assumir o erro e ainda querer dele tirar alguma vantagem. No Brasil do jeitinho está cada dia mais difícil cobrar da moçada ética e cidadania, uma vez que os exemplos que dominam o cenário político são os piores. Quando os pais reprovam a escola por aplicar sansão num aluno, eles contribuem para a formação de um contraventor.

A contravenção dos jovens deflagra a cultura perversa que sustenta o imaginário do brasileiro – as contravenções sociais dos políticos e dos pais desobrigam-nos de respeitarem as regras da boa convivência. Viver com o outro exige aprendizado, implica cumplicidade, desejo de compartilhar.

A crise de autoridade que vivemos denuncia uma falha no imaginário de pai. Qual a representação de autoridade que os filhos constroem ao ver um pai acobertando falcatruas? O pacto social é efeito do pacto edípico - a criança aprende em casa a suportar a frustração e renunciar ao desejo, como a obedecer aos limites e as leis que a vida nos impõe. Cabe à família inserir a criança na cultura, nas regras sociais. Sem a passagem da lei do desejo para a lei da sociedade, dificilmente vamos conseguir viver de forma civilizada. Hoje, com a maioria dos lares monoparentais – quando um dos pais é quem assume a responsabilidade pela educação - impor a lei, apontar os limites aos filhos tornou-se um desafio. Além de sobrecarregar aquele que exerce a função paterna, propicia que este atue de forma permissiva.

Na cultura narcísica e competitiva, a ética tende a se afrouxar. Nas famílias atuais, salve-se quem puder - a menos que os pais incluam, na mamadeira do filho, ética todo dia. Primeiro passo para um Brasil mais solidário, menos corrupto e violento.

segunda-feira, 24 de março de 2008


Preconceito e intolerância


Gays espancados na UFRJ e na UFMA. Casal de homossexuais feminino agredido pelo segurança na USP. Professor negro barrado ao entrar num evento em um clube de elite em BH. Prostitutas e empregadas domésticas espancadas por jovens da Barra da Tijuca no Rio. Índio queimado por jovens de classe média alta de Brasília. Casos relatados pela mídia que envolvem racismo, intolerância, homofobia e revelam uma sociedade que se sente no direito de agredir o outro, o diferente. Neonazistas?

De onde parte tanto ódio, tanta falta de respeito pelo negro, pobre ou homossexual? O preconceito é uma ideologia, uma visão de mundo que vamos adquirindo desde pequenos. Ninguém nasce preconceituoso. Uma criança educada dentro de valores éticos, cristãos, onde todos são iguais perante Deus e a lei (pelo menos é assim que nos reza a Bíblia), tende a crescer não se julgando melhor e no direito de ser violento com aquele que o desagrada.

Ao debatermos a gênese do racismo e do preconceito no Brasil, é bom lembrarmos que somos filhos da colonização, crescemos meio a escravos sendo mal tratados, espancados. Exibir quantos escravos possuía, era sinal de riqueza. O luxo e o supérfluo seguidos de ostentação, certo perfume de classe, integravam o cotidiano do homem moderno. Ser importante era exibir uma posição, gozar de privilégios, sustentar uma superioridade econômica, social ou étnica, tal como hoje.

O maior índice de jovens que demonstraram intolerância e preconceito contra os homossexuais foram detectados entre os alunos do curso de direito da UFRJ (Revista Megazine - O Globo - 19/02/08). Em pleno século 21, muitas famílias criam os filhos cultuando a crença na eugenia - supremacia de um povo sobre o outro. É lamentável constatar que a humanidade, e neste particular o brasileiro, recua alguns passos atrás ao jogar na sociedade jovens preconceituosos, racistas ou homófobos - futuros advogados e juízes preconceituosos.

É importante mudarmos a postura diante dos filhos, abrindo espaços, rompendo fronteiras, preconceitos e discriminações. Erradicar feridas que mancharam a história de muitas nações. Conversar com eles sobre racismo, homofobia, neonazismo. Compreender que um artista pode ser tão honroso quanto um engenheiro ou médico. Há pais que não toleram que o filho demonstre interesse por atividades que não estejam inscritas no mundo masculino como futebol, judô, basquete. Em muitos lares, em plena era tecnológica, quando a informação corre mundo, muitos pais se julgam no direito de interferirem na subjetividade do filho, impondo escolhas, interesses e desejos.

Um jovem pode perfeitamente ser feliz sendo homossexual ou exercendo atividades que ainda pertencem ao imaginário feminino, como bailarino, cozinheiro – aliás, profissão que está na moda e valorizadíssima. Importa que ele seja feliz, profissional ético e escrupuloso. Contudo, é sempre bom lembrar que “o moralista condena para se absolver”.

Cabe não somente à família mas também às escolas trabalhar com a diversidade, incentivar a convivência com o diferente, criar atividades que envolvem um maior número de grupos de diversas etnias e classes sociais, desenvolvendo a tolerância e a convivência com o outro, o não igual. Afinal, ser diferente não significa ser doente.

sexta-feira, 7 de março de 2008


Vigilância e irresponsabilidade


A escola, preocupada em manter a disciplina, decide instalar câmeras nas salas de aula e conta com a aprovação da maioria dos pais. Pela internet, podem espiar os filhos. A intenção é boa, uma vez que escolas e pais, hoje, lutam para que a moçadinha contenha a faina, se acalme e estude. Mas esse é o melhor caminho para a formação do sujeito autônomo e consciente de seus atos?

A educação disciplinar do século XVIII vigiava e punia. Jeremy Bentham a descreveu em O panopticon onde analisa o mecanismo de controle apregoado pelas escolas, hospitais e prisões – modelo arquitetônico que possibilitava uma visão panorâmica. Michel Foucault, em Vigiar e Punir, retoma a questão e nos alerta sobre o olhar do poder e seus dispositivos de controle, quando a biopolítica, por meio do saber/poder, disseminou-se nas instituições.

O mundo escolar seguiu o modelo disciplinar do mundo industrial, coibindo e educando para a produtividade e rentabilidade. Contudo, quando instaura-se um clima de desconfiança, sofisticam-se os métodos disciplinares, dominando desejos e pulsões. A perfeição da vigilância tornou-se uma soma de malevolências.

Se o mercado de trabalho na atualidade exige, cada vez mais, indivíduos criativos e autônomos, que tenham iniciativa e que busquem saídas para situações inéditas, colocadas pela globalização e pelas novas tecnologias, como concordar com tamanha tutela? Uma criança, para desenvolver o senso crítico e a autonomia, deve, desde cedo, aprender a responder pelos seus atos. Responsabilidade é isso – assumir os erros, reconhecer as falhas sem se envergonhar e enfrentar os fracassos que fazem parte do processo de maturidade e crescimento do ser humano.

É compreensível os pais ansiarem pela segurança dos filhos, como também desejarem ampliar os dispositivos de controle e proteção sobre eles. Medidas que propiciam certo conforto interno, sensação de missão cumprida, alívio diante da culpa que muitos carregam pela falta de tempo e dedicação, ou pelo excesso de permissividade.

Entretanto, para conhecermos melhor os alunos é necessário espionagem? Como operar na formação de cidadãos conscientes, autônomos? Autonomia - ato de falar por si, responder pelos atos - fruto de um processo de idas e vindas, conversas e combinados, erros e acertos. Querer obter de forma precisa e rápida um relatório de conduta de um filho, nos lembra ações de polícias e de governos totalitários. Há formas menos invasivas e paranóicas de conhecer o mundo em que as crianças vivem. Não podemos aplicar nos filhos métodos opressivos que não gostaríamos para nós e que ferem a privacidade. É claro que cabe aos pais e educadores lançarem mão de normas disciplinares. Educar é uma prática social na qual se deve, desde cedo, inserir as crianças. A melhor forma de ensinar é por meio de exemplos - transmitindo nas atitudes valores e concepções de mundo que irão se perdurar.

Quando agimos de forma inadequada, tal postura poderá repercutir na vida dos jovens, interferindo e influenciando-os. Contudo, não podemos incentivar ações que ferem o Estado de direito, a liberdade de escolha e de defesa.

E por mais que pais e escolas queiram monitorar cada passo dos filhos, será impossível. O importante é construir uma relação de confiança, fomentando o senso de responsabilidade, levando-os a responderem pelas atitudes e escolhas. Inevitavelmente, aprendizagem implica em fracassos, atos impensados que fazem parte do processo de maturidade - sem os quais eles poderão prolongar-se em atitudes infantilizadas e inconseqüentes. Educar para a autonomia e a maturidade convoca o olhar do outro, que deve ser de confiança, reconhecimento, aposta na capacidade do indivíduo se assumir enquanto sujeito desejante. É quando aprendemos a nos ver como sujeitos de nossos atos, assumindo-nos. Percurso que nos desvencilhará dos temores, e nos ajudará a admitir os erros e a sonhar com os acertos.

Estamos diante de um paradoxo – a sociedade tornou-se vítima da falta de lei aos jovens? A permissividade em excesso atropela e compromete a liberdade individual, perdurando condutas infantilizadas e irresponsáveis? Questões a se pensar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008


O Tempo no amor


Quem conduz o tempo no amor é o desejo. Para que uma relação amorosa aconteça é necessário que os envolvidos estejam desejosos do amor. O amor, como a vida, requer boa vontade para deslizar, fluir. Amar é escorregar, despencar sentimentos. Aspirar ao amor é preparar a alma para que ele entre e se instale como hóspede esperado, aguardado. Significa colocar-se disponível para uma experiência em construção - que implica paciência, trabalho. Implicar no amor é cuidar, lutar para que a relação se amplie, desenvolva e produza bons momentos. Felicidade a dois, mais que mistério e presente divino, é experiência que exige envolvimento de ambas as partes. Contudo, é muito importante que os interessados no amor tenham tempo para ele, tempo para esperá-lo crescer, amadurecer, acontecer. O amor é como um relógio que pára, anda para trás e depois volta a funcionar. O tempo no amor é um tempo sem tempo, um outro tempo diferente do tempo do trabalho, da produção. Amar é dar corda no relógio (do amor), cujas batidas saem do coração. O amor é lento, preguiçoso - ele vai, volta e segue a lógica da fantasia, que quase sempre é sem lógica.

No filme O amor nos tempos do cólera, Florentino Ariza espera 50 anos para concretizar seu sonho – levar para a cama a bela Fermina Daza – paixão que cultivou durante toda a sua vida. Quando, finalmente, os dois se viram livres e desimpedidos para assumirem o amor ao qual estavam condenados, quando o grande encontro se realiza, o tempo pára, hasteiam-se as bandeiras, o barco desce o rio num percurso diferente, sem paradas. O grande personagem da viagem não era mais a mercadoria - o econômico tornou-se secundário. Se para o capitalismo, tempo é dinheiro, para o amor não há dinheiro que compre o tempo de amar, tempo precioso, guloso – no amor, todo tempo é pouco.

Já o tempo no amor cibernético, amor velocidade, tecnológico, é mínimo. O amor com tempo corrido é amor também mínimo, minguado, nanico, miúdo. Hoje a moda é ficar pouco tempo com o outro, tempo apenas para explorar seu corpo, extrair alguns minutos de prazer. Enquanto Florentino esperava Fermina, ele ficou com várias mulheres, soube viver os prazeres do sexo, mas nada que pudesse comparar com o êxtase da noite em que conduziu Fermina ao leito do amor. Acredito que o feito maior do romance de Gabriel Garcia Márquez, e que Mike Newell transportou para o cinema, foi ter transformado o amor num acontecimento épico, verdadeira epifania. O amor nos tempos do cólera é uma ópera ao amor. Ele deixa de ser um encontro entre duas pessoas para se afirmar como um fundamentalismo afetivo, amoroso - algo que funda o sentido da vida e reforça a crença no humano. Talvez o único fundamentalismo aceitável.

Garcia Márquez homenageou os que reverenciam o amor e que a ele dedicam suas vidas. Sem convicção dificilmente vamos saber o que é o amor, tampouco correr o risco de sermos contaminados por sua magia. Eis um filme que enaltece a sabedoria dos amantes - aqueles que transformam a experiência do amor num plano de metas, numa agenda íntima. Cultivar o orgasmo como metáfora de vida - acreditar nos insights que emergem da alma é mais que arte, é surfar no tempo do coração - e que só faz bem às coronárias.

O Tempo no amor deve ser uma criação entre enamorados, diferente da corrida frenética ao prazer fugaz, amor fast food, que mais machuca que ajuda. Talvez o amor banal dos tempos de agora explica o aumento da depressão entre as garotas. Sem se sentirem desejadas, amadas e reconhecidas, caem no desalento. Pura devastação.