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Amor urgente e necessário chega de graça,
e entusiasma a alma.

terça-feira, 6 de novembro de 2007


Amor aos pedaços


Na pista de dança eles se encontraram. Embalados por um som metálico que jorrava das caixas de som, dançavam. Esbarraram-se e ali mesmo se beijaram. O próximo destino foi um lugar afastado que culminou numa transa. No dia seguinte, nem um nem outro lembrava o nome do parceiro.

Um dos sintomas que a sociedade atual denuncia, e que é lamentável, é a banalização do amor. O amor romântico foi tragado pelo amor fast food tornando-se produto descartável para consumo rápido. Na cama do amor moderno o nome do parceiro pouco interessa. O que subjaz à alta rotatividade nas relações afetivas?

As relações efêmeras não acontecem por acaso, elas fazem parte de um projeto de sociedade em que tudo deve ter vida curta. A rotatividade interessa ao capitalismo na medida em que provoca nas pessoas uma obsessão pela velocidade. A velocidade move o consumismo criando falsas necessidades no mundo dos objetos descartáveis. No amor também é desastrosa, pura devastação.

Contudo, devemos questionar o que está por trás da nova idéia de amor que descaracteriza e vulgariza o encontro amoroso. As relações sexuais em que os parceiros não se interessam em estabelecer um mínimo de intimidade revelam o processo de banalização que marca nossa era e que alguns pensadores nomearam de pós-humano.

Longe de querer criticar a nova ordem amorosa de forma moralista, chamamos atenção para o quanto esse modismo pode custar à garotada. Muitos, para não se sentirem fora de moda, acabam topando e se submetendo, sem avaliar as conseqüências, ao novo modelo de relação sexual. Muitas garotas confessam que, no fundo, o que elas gostariam era de se sentir amadas e valorizadas pelo parceiro, e não ser mais uma na agenda sexual.

Cabe aos pais e educadores refletirem com a garotada - até que ponto permitir que os mercadores do sexo conduzam os sentimentos, direcionando-os a ponto de decidirem como devemos gozar, intervindo na vida emocional e afetiva? A moçada precisa amadurecer a capacidade de suportar os percalços dos encontros e enamoramentos. Quem se lança no campo do afeto está exposto às frustrações. Quando um dos parceiros se sente preterido é desastroso – abri-se ali uma ferida narcísica que requer sabedoria no reparo. Amor não é garantia de prazer o tempo todo. Contudo, para quem está se iniciando nessa seara complicada da vida, sensibilidade e cautela são mais que necessárias.

Amor aos pedaços, sem nome é heresia pós-moderna, de mau gosto e que devemos combater. Apostar no outro como meio de prazer e companhia, cumplicidade e solidariedade é salutar, promessa de bem viver. Mesmo entre os jovens, devemos incentivar relações mais consistentes, menos efêmeras. Rodízio pega bem nas churrascarias.

O amor exige morosidade, é sentimento dialético, desdobrável - que vai e volta. Não desliza em pista de corrida de forma linear e transparente. Amor que satisfaz, contorna, percorre curvas, buracos e fendas. Amor focinheto gosta de enroscar e derramar a alma no colo da pessoa amada.

Um comentário:

Marco Antônio Patrício disse...

Embora as redatoras tenham produzido um texto que pode ser confundido como conservador, ele não é. A intenção primeira é a de não incentivar a banalização do amor e convoca os pais e educadores a refletirem com a garotada sobre isso. Não descartam o encontro amoroso. Mesmo porque estão "longe de criticar a nova ordem amorosa de forma moralista".
Alexandra Kolontai, esta sim, liberal, até ela, em seu livro "A Nova Mulher e a Moral Sexual", escrito em 1917, diz: "Ninguém é digno do amor, se não for capaz de conquesta-lo numa batalha cotidiana". São relações amorosas intensas, mas que não permitem ciúmes, que são esterilizantes. Ela chamou este amor de "Amor Jogo", que se encontra em todas as épocas da história da humanidade. "Nas relações entre a antiga Hiteria e seu amigo, no amor galante da época renascentista entre a cortesã e seu amor protetor, na amizade erótica da modelo, livre como um pássaro e seu companheiro estudante." Em todas estas relações podemos encontrar os elementos principais deste sentimento. Não é o Eros de fisionomia que a tudo devora, que exige a plenitude e a posse absoluta, mas tampouco é a sexualidade reduzida meramente ao ato fisiológico.
"O amor jogo é exigente. Seres que se aproximam unicamente por causa de uma simpatia mútua, que só esperam um do outro a amabilidade e o sorriso da vida, não podem consentir que se esqueça a sua personalidade, nem que se ignore o seu mundo interior."
o Amor jogo é o contrário do "Amor aos pedaços, que sem nome é heresia pós-moderna, de mau gosto e que devemos combater".

Che