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e entusiasma a alma.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

EMBRIAGADOS PELA BELEZA[1]

Inez Lemos 

            A celebrada sociedade do espetáculo, orientada no mercado, no individualismo e  no avanço tecnológico, multiplica seus efeitos sobre o corpo, colocando em cena personagens cunhados no estilo publicitário. Como explicar o investimento na perfectibilidade, via ciência estética e biológica? Corpos manipulados por bisturis, corpos simulados, falsificados. A mídia nos testemunha que o Brasil ultrapassou os EUA e se tornou campeão em cirurgias plásticas. Na tradição clássica, o humanismo questiona os fundamentos da razão moderna, as narrativas que nos afastam de Deus, divindade metaforizando transcendência, o lócus onde depositamos a fé no ser humano enquanto potencia criativa. Sem criação não há paixão, tampouco humanismo. Qual a relação entre plástica, transcendência e humanismo?  
            O corpo ganha primazia, torna-se o lugar de materialização do desejo, revelando a esperança de um futuro melhor - possibilidade de reconhecimento e sucesso. É onde o homem da era tecnológica produz a si mesmo. A trajetória do pensamento encurtou. O percurso da fantasia e da utopia simplificou. Hoje o endereço dos jovens que seguem a cartilha da vida espetáculo se resume numa clínica de cirurgia plástica. As noticias apontam para uma reificação do humano. Fashion é escolher um boneco como ater ego. O meu duplo é um ser midiático, industrial. É nele que vou me espelhar. Os humanos não me interessam. O que eles têm para me oferecer? Prefiro o homem de borracha, que não me frustra, tampouco me decepciona.
            Entre as reportagens que apontam mutações nas escolhas entre jovens e adolescentes, regulamentadas pelo espetáculo, via mídia, destaco: “Celso Santebanes, 20, quer ser uma celebridade de verdade. Se diz obcecado por beleza, sempre quis ser reconhecido, aparecer na mídia. Fez quatro cirurgias plásticas para ficar parecido com Ken, o companheiro da Barbie”. A imprensa confirma o deslocamento entre ciência, cultura e corpo. Mundo interno e externo, desejo e política, eu e o outro. Quem está agenciando o desejo humano? Por que a ciência segue os paradigmas da moda atual, produzida por uma indústria truculenta e perversa? Transformar o corpo humano em mercadoria é mais rentável, uma vez que o insere numa rede de consumo de produtos de beleza. Dermatologistas, plásticas, cosméticos, salões de beleza, spas do corpo.
            A beleza hoje é normativa, produzida pelos empresários da moda, que ditam os rumos da estética. Eles definem o bonito e o feio. Contudo, importa investigar o que subjaz à busca desenfreada pelo corpo perfeito, à intolerância com a imperfeição e a incompletude. A tentativa de instaurar uma superfície brilhante revela a necessidade de fugir do real. Como suportar o abismo sombrio de uma existência sem sentido? Como enfrentar o feio, significante que nos remete à finitude? A velhice nos coloca lado a lado com o efêmero, estética trágica imposta pelo tempo. O medo da velhice, expresso na corrida incessante à beleza, expõe uma interioridade precária e moldada na superfície da existência humana. Além de deflagrar pobreza simbólica, aponta para um vazio de transcendência - empobrecimento afetivo e laços sociais inconsistentes.  
            O feio em nossa cultura torna-se insuportável quando revela uma conexão com o dentro, o sentir. Na verdade, o que não suportamos é a dimensão do humano. Ao eleger a aparência, o externo como campo privilegiado do brilho e do belo, estamos interessados em afastar as perturbações, os ruídos que a existência nos coloca. Ser humano é ser apaixonado, é se atormentar pela positividade da ilusão. Quão difícil seria atender as demandas internas, os urros da alma que não cessam de nos incomodar, exigir? Mais fácil é eleger falsos brilhantes, falsas esculturas, falsas idéias de felicidade, representações simuladas de hedonismo. A hedoné moderna trilha na tecnocultura. 
            A rejeição do feio é um dos sintomas das sociedades midiáticas, que cultuam a imagem e a colocam acima de outros valores. O feio provoca conexão intensa com o sensível, por expor a vida como ela é. O belo convoca o brilho externo - luz, imagem, aparência, show, espetáculo. O feio convoca o dentro, por fora, ele não produz sedução alguma, apenas repulsa. Talvez o apaziguamento esteja na aceitação do feio, uma vez que ele nos ajuda a enfrentar a frustração, a fazer as pazes com a falta. A feiura nos humaniza ao desvelar nossa condição de mortal e avisar que o tempo não é benevolente. A morte é esse outro que nos invade e confunde os sentidos. Ela exige que sejamos realistas, que cultivemos mais os sentimentos, nos ocupemos com a intimidade, as vozes do coração. Para que trabalhar tanto, acumular riquezas, se amanhã morreremos?  
            O feio na era tecnológica, dos sorrisos espalhados no Facebook, é o espontâneo, o que escapa à produção, o que não foi elaborado, maquiado. Quase tudo merece intervenção: o rosto limpo, natural e imperfeito expõe o fantasma da falta – angústia ao enfrentar o real. O corpo como tributo de um novo tempo é o corpo-mercadoria, o corpo-máquina. As inovações tecnológicas trouxeram grandes transformações no campo das subjetividades. Entre elas, destaco a percepção humana e o novo estatuto imaginário corporal. Entram em cena novos personagens, corpos portando objetos estranhos, desenhos, marcas simbólicas: aparelho nos dentes, unhas e cabelos postiços, fios de ouro nas rugas, silicone nos quadris, dentes encapados. A ciranda dos objetos sobrepõe ao sujeito, que se apaga entre dietas e salões de beleza. O registro identitário é cunhado pela estética da transformação. Corpos mutantes, sujeitos opacos, desejos suspensos.
            “A junta comercial do Rio de Janeiro revela que os salões de beleza cresceram 142% entre 2000 e 2013. Enquanto cresce a procura por tratamentos de beleza, diminui a demanda por livrarias, que recuaram 57%”. O corpo é o sintoma do homem. O que equivale dizer que a nossa sociedade prioriza o culto à estética e à aparência, em detrimento da essência, do conhecimento e do saber. Os holofotes estão direcionados para o externo, as luzes do Olimpo miram os belos penteados. As belas palavras definham no obscurantismo, nos templos de Salomão, entre dourados imitando ouro. Simulacro de beleza oca. Vivemos a derrocada do pensamento, e se o pensamento é uma forma de resistência, significa que estamos condenados ao fundamentalismo midiático, na estética ou nas religiões.
            “A mãe jogou o filho de 2 anos na parede, matando-o. Alegou que a criança estava brincando com o seu celular, sem sua permissão”. O celular, nesse caso, corresponde ao objeto de desejo do filho, é ele que foi internalizado como parte do corpo da mãe. Desejá-lo é desejar uma parte da mãe que lhe faltou – mãe abandônica, ausente. Mães envolvidas entre tablets e smartphones, os novos objetos que fascinam. Brilhantes, sedutores, cobiçados. A internet é o ópio contemporâneo, age como substância tóxica, deixando a humanidade embriagada, viciada. Delírios provocados por uma caixinha, nada de fantasias ao vivo, o prazer é on line. Precisa mais?
            O eu não existe sem a alteridade. O Outro da pós-modernidade é um objeto. Na nova dimensão psíquica, a criança, ao ser marcada nas relações parentais - mais por objetos que por carinho, contato corporal -, segue uma orientação funcional, operacional. As relações são pautadas por agendas previamente estabelecidas. Os sentimentos devem seguir um plano de metas, que se traduz pelo imperativo de viver todas as formas de prazer em um só tempo. Se somos regulamentados por uma organização externa, é de se esperar que os desejos próprios sejam desviados. Se não fomos marcados por referências familiares sólidas, se não construímos laços sociais consistentes, sequer adquirimos uma mínima proteção afetiva e emocional. Um estofo básico que sustenta o sujeito diante das agonias da vida.
            Ao privilegiar o externo, perdemos a conexão com o subterrâneo, lugar onde cochilam as perturbações humanas. Ser humano é se debater entre o trágico, o cômico, o belo e o feio. Todos são elementos fundantes da loucura humana. E não há nada mais sedutor que uma doze de loucura. É ela que introduz a paixão nas relações. Ao intervirmos no corpo em função de um modelo, retiramos dele as insígnias, os traços familiares. Desprovido do simbólico, o corpo-expressão se apaga. Abandona a memória viva, desejante, para encarnar a imagem fria de um cadáver. Corpo sem persona. O mundo do pastiche é desumano. Beleza confinada em corpo morto.
            O filósofo Sócrates, exemplo de feiura, conduzia os discípulos ao paraíso, ao reino do saber, a sabedoria metaforizando o divino exercício do pensamento. A percepção da beleza que rege a existência exige tocar entranhas, desvendar os mistérios da aventura humana. O feio, ao mesmo tempo que provoca repulsa, fascina. Sedução, uma multidão de sentimentos, muito mais que obra de arte - escultura em praça vazia.    
   
                   



[1] Artigo publicado no caderno Pensar do jornal EM em 9/08/2014.

domingo, 10 de agosto de 2014

O APAGAMENTO DO SUJEITO

Inez Lemos[1]

Muito se escreveu sobre o desempenho da seleção brasileira na Copa. Neste particular, importa explorar os aspectos que escapam a toda família e que não foi diferente com a Scolari. A Copa é um evento esportivo apropriado por patrocinadores, articulados numa engrenagem midiática que fabrica astros, mitos, craques. A narrativa que envolvia os nossos jogadores era a do sucesso, como se o hexa estivesse escrito nas estrelas. Uma Copa não se ganha apenas com holofotes, torcida, selfies, glamour, mas com planejamento, trabalho e equilíbrio interno.
Talvez o maior pecado de Scolari foi ter subestimado o campo “psi”. O técnico esqueceu-se de trabalhar a parte interna dos jogadores, ao longo dos anos. Um trabalho que envolve aspectos emocionais, psíquicos, não se faz em apenas dois encontros, como confirmou a psicóloga Regina Brandão. Controle interno é capina árdua, constante.  Scolari não avaliou bem o desgaste emocional, a sobrecarga de pressão quando se disputa uma copa no próprio país. No jogo com a forte Alemanha, os jogadores,  fragilizados pelo infortúnio com Neymar, e sob os olhos do mundo, foram jogados como carne aos leões. Faltosos, inseguros e temerosos, não resistiram. A emoção solta voou balançando o que não estava muito firme, estruturado. O lado subjetivo sobrepôs ao objetivo.
Na sociedade de mercado, quando um jogador entra para um time poderoso, ele deixa de ser gente e passa a ser um produto. Não se interessa pelos aspectos psíquicos,  logo contrata um empresário. Ainda garoto, parte em busca de um sonho de infância, se consagrar ídolo. Ali não havia sujeito do inconsciente, seres humanos dotados de coração, alma, sentimentos, emoção. Havia produtos da Sadia, Itaú, Coca-cola, Hyundai.
Uma das características da cultura do espetáculo é o apagamento do sujeito. Significa que a orientação passa a ser comandada pela mídia. É quando ocorre a dessubstancialização do sujeito. Ele sofre uma intervenção subjetiva. Apropria-se de sua essência, instrumentalizando-a. O mercado insiste em descaracterizar o lado humano, focando apenas no resultado. O Futebol business se transformou em jogatina. Las Vegas comandada pela CBF e Fifa - corporações com cifras no celebro e dólares na retina.
A falta é que orienta a nossa relação com o mundo. A criança, desde cedo, convive com a falta de um objeto. Na configuração edipiana, trata-se da mãe. A maturidade psíquica exige experiência com a perda. É ela que orienta o desejo e ajuda a estruturar o sujeito. Significa que o desejo é organizado por uma falta simbólica, que  ensina a suportar a frustração, a entender os limites da vida e a desconfiar da capacidade de infalível. E assumir, sem muita dor, fracassos, responsabilidades, erros. Ao aprender a conviver com os tropeços que a vida nos impõe, estamos adquirindo estofo interno. Cabe aos pais prepararem os filhos para as adversidades do mundo.
Nossos jogadores não tiveram um bom pai. Esse, além de fracassar na formação dos filhos, não assumiu a responsabilidade pelos equívocos que resultaram na tragédia de 8 de julho. Contudo, algo escapa, rompe o traçado e espalha humanidade pelo gramado. Os garotos resolvem assumir sentimentos primários. Vergonha, humilhação. Consternados, não disfarçam mais a frustração de terem enterrado o sonho juvenil. Frustração não é sinônimo de vergonha e humilhação. Vergonha implica covardia, hipocrisia. E assumir erros é grandeza, coragem moral. Isso não faltou aos filhos, apenas ao pai.
Todo sintoma é alerta, sinal de que algo não vai bem. É quando desconfiamos de nós mesmos e assumimos a fragilidade interna. Os jogadores, ao longo das disputas, deram vários sinais de uma singularidade comprometida. Contudo, a máquina não podia parar. Após a derrota, quando não havia mais como sustentar a máscara, ouvimos deles pedidos de desculpas. Banhados em lágrimas, tentaram se redimir. No apagar das luzes, o que se via era um grito de pesar no ar. Tragédia épica encenada sob a memória de Tiradentes. O eterno retorno dantesco. Do riso fez-se o planto. Do céu fomos ao inferno.
Um pedido de desculpas acusa culpa. Ora, quem lutou até o fim, quem entra numa copa do mundo preparado e dando o maior de si, diante de uma eventual perda, resta-lhe um olhar desolado e triste, como fez Messi. Trágico não é perder, é se descobrir enganado, iludido, ludibriado. Os garotos, desavisados, se embalaram no conto de fadas do pai leviano, que não os prepararam à altura dos adversários.  Acreditaram na mídia, que os endeusaram, criando a ilusão de uma vitória que não se cumpriu. O mal é a promessa não cumprida. De deuses passaram-se a vilões.
Nenhum sentimento negativo cabe no Olimpo! E quanto mais endeusados, mais cegos e surdos para o óbvio eles se tornam. A cegueira não foi dos jogadores, eles avisaram, choraram, expuseram as fissuras. E o técnico, mesmo diante do fracasso, tentou nos convencer se valendo da matemática. Justo ela que não consegue alcançar o invisível, o que se oculta no mais íntimo dos mortais.  Estatística não toca o âmago, tampouco serve para sanar um corpo sangrando diante do flagelo humano. Frente a um país trucidado, o poderoso Felipão tenta um salvo-conduto, se defende e afirma que o time caminhava certo. O que nos faz lembrar Fernando Pessoa e seu Poema em linha reta: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos tem sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil...”
Enquanto isso, os alemães marcam a passagem esbanjando dedicação, carisma e comprometimento. Lembro-me de uma referência à seleção alemã, que não obstante seu prepara e empenho, considera o futebol uma questão de “educação e esporte”. Educação é processo que visa aprendizagem. Uma intervenção com o propósito de transformar, de inserir algo novo, modificando hábitos, vícios. A forma como a CBF lida com o esporte no Brasil é lamentável. De cima de uma estrutura poderosa, formada por um covil de coronéis, numa postura autoritária e arrogante, se coloca distante dos compromissos públicos. Esperamos que tudo isso tenha se espatifado no campo da pouco transparente Fifa.
A falta que o pai faz - tanto para a seleção como para o cidadão. Desamparados pela classe política, sofremos uma crise de representação. Como abandonar o imediatismo, o individualismo exacerbado, a urgência de ser feliz? Um país se faz com a participação de todos. Não apenas com personagens, astros, estrelas. Um sentimento coletivo, um grupo e não celebridades que pouco se interessam pelos bastidores. No campo e na rua, devemos cultuar a alteridade, o culto ao bem comum. O povo brasileiro demonstrou que leva jeito para isso. Basta convocá-lo à comunidade dos bons sentimentos.
O fracasso foi o significante fundante desta Copa. Muitos orquestraram o fiasco, julgando que seria um evento vergonhoso. Marcelo, no primeiro jogo, cumpre a profecia. Num ato falho, crava o gol contra. Seria o inconsciente atravessando a realidade? Um inconsciente de nação desacreditada, desprezada? O discurso não colou, não teve efeito de verdade, e a mídia nacional e internacional teve que desconstruir a narrativa pessimista. O sol é nosso, o céu azul também. Chega de cultuar crepúsculos.
O mundo do futebol é reduto dos machos, cartolas. Gente que não se interessa pelo mundo subjetivo - angústia que cochila no subterrâneo da alma humana. Esquecem que somos todos do mesmo barro, e quando encharca, vira lama. Ser que oscila, claudica, fraqueja. Como o sol, que ora se levanta, ora desce no horizonte e se recolhe. Nem sempre teremos céu azul. Um céu nublado ainda é céu. Assustados com os leões, os canarinhos não soltaram o canto. O que não significa que desaprenderam de cantar. Não há trauma que não possa ser superado, ultrapassado. A tragédia do fracasso serve para nos humanizar.
O sentimento que fica é de pesar. Pesar diante do sofrimento dos meninos. Doeu nas entranhas vê-los no limbo, soltos entre gorilas. Pesar por eles ter acreditados em Papai Noel. Velhinho que metaforiza o sonho de vida feliz, quando todos serão contemplados com um belo presente. Não, a Fifa não garante um lugar no pódio a todos, apenas aos mais preparados. Muitas serão as histórias que teremos a contar. O fato dos jogadores exibirem salários milionários não é suficiente para mudar a posição deles diante da complexidade humana. Ricos, porém precários como todos nós. Vale uma visita ao divã.












[1] Psicanalista. Email: inezlemoss@gmail.com

segunda-feira, 2 de junho de 2014

SELEÇÃO DOS RESSENTIDOS

Inez Lemos [1]


Como explicar a gênese da violência que assola o país? Depredação de ônibus, bancos, linchamentos aos supostos bandidos, execuções a pedradas, vasos sanitários e pauladas. Crueldade, vingança, ira e ressentimento. O caldo da maldade é engrossado dia a dia. Ao analisar os sinais de descontentamento e vandalismo, esbarramos em questões políticas e psíquicas. O inconsciente, ao ser contaminado pela realidade social, sofre os efeitos da vida política.
O descobrimento do Brasil fez parte do projeto de modernidade, em sua corrida pela acumulação de riquezas. Somos filhos da pirataria, da contravenção e da corrupção. Filhos de uma relação de interesses - o português que engravidou a índia como forma de obter informação de quem aqui vivia. Estratégias de dominação. A arte de manipular para melhor reinar. Alienar, impedir que o outro participe, interaja. Quanto mais alienado, mais fácil de controlar. Contudo, o brasileiro, cansado de desrespeito e descaso, resolve se rebelar contra o poder público e privado. Não sobrou ninguém. A espada está no pescoço de todos nós.
O que move o mundo é o desejo insatisfeito. O capitalismo manipula, os políticos fingem que não escutam, mas a verdade é que não se controla um país oferecendo apenas  pão e circo, celulares, tablets, lipoaspiração. O trabalhador, além de cartão de crédito, exige transporte, saúde e educação de qualidade. Anseia por dignidade, direitos, justiça. A desigualdade provoca revolta e ressentimento. O sonho agora é por igualdade de oportunidades. Punição aos ladrões de baixo e de cima. Quando o crime é uma prática da classe política, rebelar é a palavra de ordem entre os que sofrem as conseqüências.
 O Brasil é terra de ninguém, onde as leis dificilmente são cumpridas, onde viceja o racismo, a homofobia e a intolerância. A onda fascista é um efeito da anomia, da farra e desfaçatez dos poderosos. Como circular idéias de ética, honestidade e honradez, se grande parte dos governadores, prefeitos e deputados direciona o olhar para suas contas bancárias?  Educar e governar são tarefas intermináveis. Aprendemos a amar, respeitar e governar com os pais. Pai é aquele que, ao exercer a função paterna, simboliza a lei: interdita o desejo descabido. Cobrar doçura de um povo injustiçado é despautério. Sem o bom exemplo, os filhos continuarão no vandalismo. Seria o Brasil um convite ao banditismo?
            Por que somos tão condescendentes com os políticos corruptos? Se a corrupção sempre foi um direito dos que dela se beneficiam, privilégios e injustiças sempre fizeram parte dos que detém o poder econômico e político. Educar é barrar os filhos em seus impulsos destrutivos, inserindo-os nos limites da lei. Sem interditar, frustrar, a chance da criança tornar-se perversa é grande. A política é o palco privilegiado dos perversos, é onde eles são amparados em seus atos ilícitos e soltam as garras da ambição.    
O passado coronelista e patrimonialista nos ensinou a utilizar o espaço público como se fosse privado. Ao mesmo tempo que o criticamos, repetimos posturas que condenamos. Como ultrapassar o atavismo moral que parece nos definir? Mudar uma cultura, fundar outra idéia de nação, quão difícil! É trabalho profundo, há de se tocar entranhas e rever o lixo recalcado. Todo sintoma aponta para uma tentativa de cura. Ao mesmo tempo que denuncia o que não vai bem, revela um gozo – prazer e desprazer na compulsão à repetição. Reclamamos dos corruptos, mas somos tolerantes quando eles defendem nossos privilégios.   
            Ao analisar a violência, penso na palavra ressentimento. Res-sentir - sentir duas vezes, não perdoar, guardar mágoas, alimentar vingança, não se implicar nos conflitos.  Ressentimento é sentimento que fixa o sujeito na neurose. A neurose paralisa o sujeito no sintoma, impedindo-o de avançar nos bons sentimentos. O ressentido é um infeliz, pois se cristaliza na amargura. O brasileiro, que sempre gozou da condição de ressentido e  trapaceado, agora quer, nas ruas, exigir políticas públicas de qualidade. Melhor que reclamar em mesa de bar ou descontar no erário, engrossando o caldo dos corruptos.
A exposição de um cotidiano promíscuo provoca no brasileiro o desejo de desforra, de botar para quebrar. Se para o político a demanda da população é o que menos conta, se poucos se ocupam com suas necessidades, é de se esperar que o muro se rompa. No filme Getúlio, quando não havia mais o que esconder, o presidente Vargas confessa “Nunca me pediram nada para o país (ou para povo), sempre me pediram algo para alguém”. A violência das ruas metaforiza o filho lesado contra o pai perverso. Passa-se ao ato de forma impulsiva, impensável. É sangue fervendo na veia.
            Nossa história ressalta a ausência de interdição capaz de regulamentar o apetite pelo gozo e organizar um quadro social que outorgue a cidadania. O romance familiar brasileiro, nossa mitologia, produziu a fantasia do privilégio e da violação de direitos. Revisitando as determinações histórico-sociais dos processos de subjetivação, identificamos o descaso pela res-pública (coisa pública). O ethos que nos funda é o do prazer e não o da felicidade. A imagem que vendemos é do paraíso sexual. Mulheres gostosas e de fácil acesso.
País idílico, frívolo, que não soube se fazer respeitar. A Copa promete jogos e orgia. Goleada no campo e na cama. A volúpia e o fascínio que exercermos no imaginário dos estrangeiros condena nossa filiação. Submetidos ao imperativo do gozo, deixamos de cobrar o ouro que o mundo nos deve. Filhos de um amor pérfido. Sedução e traição.
A filha pobre e de pouca escolaridade, diante do dinheiro, se corrompe e se prostitui. Promiscuidade que lhe atravessa a alma e a lança na sarjeta das perdidas. Menina de um futuro morto. O que não nos faltam são motivos para subverter a ordem, romper com a imagem do negativo social. Chega de manipulação. Mídias e governantes nos alienam e dominam. Submissos aos interesses do mercado, nos fixamos no gozo.
            A herança escravocrata explica a sujeição ao grande outro e a vocação à dependência. Consumista, imediatista e permissivo. Reserva libidinal do mundo. Aos olhos dos estrangeiros, a imagem será de eterno prostíbulo? Como explicar a tendência da mulher brasileira à nudez? Nossa condescendência com os sedutores revela o fracasso da função paterna. Adoramos nos exibir. Do carnaval ao Facebook, não perdoamos os flashes. Repetiremos na Copa o destino colonial? Permitiremos que o estrangeiro entre e explore o melhor, seja açaí ou adolescentes?
            Sem Marx e Freud, sem pudor e ética, vencerá a violência. O niilismo quer acabar com a consciência social - utopia por maior distribuição de renda e oportunidades. O fantasma fundamentalista, aliado ao obscurantismo que se esconde nas religiões de esquina, prega a ignorância e a insanidade. Viver é enfrentar contradições. Saber lidar com os paradoxos humanos.
A anomia revela a desorganização social, a ausência de leis. Para que o tecido social se articule, é necessário mais que renúncia pulsional. Não se constrói uma nação apenas com repressão. O respeito aos pais se deve ao amor – o temor apenas é insuficiente para que a criança internalize a lei. Para que o brasileiro se anime e torça pelo Brasil, é preciso haver paixão. É preciso motivo para que o filho torça pelo pai. Contudo, a questão da violência no Brasil, antes de ser política, é psíquica.
            Se a Copa servir para deflagrar a consciência de cidadania, que aponta que a responsabilidade na construção de um país é de todos, valeram os investimentos. Se servir para estancar o masoquismo e investigar a condição de vítima, melhor ainda. Toda neurose, todo lugar de gozo, responde por uma filiação. A violência tanto pode ser efeito de uma metáfora paterna inconsistente, como do desamor do pai pelo filho. Como respeitar a casa se nela somos violentados, desprezados? Por tudo isso é difícil para o brasileiro sair às ruas com bandeiras e apitos. No lugar da torcida, prepara-se a revolta. Como sustentar um outro lugar, uma outra filiação?
            O significante que operou como referência simbólica foi o da permissividade – riqueza e sexo em terras tropicais: praias, borracha e minério. Quando a filiação fracassa, a maledicência ganha espaço e se instaura como arremedo da função paterna. Colonização e exploração, corrupção e impunidade, permissividade e leviandade. A história e os significantes nos condenam. A onda de ações predatórias revela a condição de rebotalho, ela está no inconsciente do sujeito e não em sua condição econômica. Traço de filho rejeitado, com mãe omissa e pai ambicioso. Filho do português com a índia, do coronel com a escrava. Como reparar as perdas? Não estaria os black blocs denunciando o fracasso da função paterna?








[1] Artigo publicado no caderno Pensar do jornal EM em 31/05/2014. Inez Lemos é psicanalista.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A VIDA NO SIMULACRO

Inez Lemos

O capitalismo sobrevivi das neuroses humanas. Cada época produz sintomas que definem seu tempo. Sem as patologias, o lucro dos empresários seria infinitamente menor. As histéricas não passariam as tardes nos shoppings adquirindo quinquilharias que não necessitam, os homens não teriam tanta fissura por carrões e os jovens tanta obsessão pelo mundo virtual. Os objetos deixariam de cumprir o papel de objeto fálico, e a humanidade não seria tão insatisfeita. Ou depositaria menos na aparência e no consumo a solução para as angústias e frustrações. Outros tampouco ocupariam o lugar de submissão e exploração, se entregariam menos ao sacrifício e masoquismo. Ao tratar as neuroses, procurariam saber de suas faltas - onde fracassam, derrapam. No processo analítico, mudariam de posição diante da vida.
Os objetos de ostentação servem para suprimir uma falta, uma ausência. Se nos sentimos frágeis, inseguros ou infelizes, se a vida não está como desejamos, a tendência é buscar fora de nós algo para nos completar. Aditivo narcísico: adicionar algo com o intuito de melhorar a imagem. Há a ilusão de que, ao portar um objeto valioso, ele nos colocará numa posição de prevalência, superioridade. Ao consumir, seja objeto ou imagem, a ordem é nos distrairmos e nos desviarmos do verdadeiro desejo.
O desejo que interfere nas escolhas é inconsciente e resulta das idéias que circulam na linguagem, portanto, o inconsciente é contaminado pela linguagem. Se na era digital as crianças estão sendo estruturadas na linguagem virtual, on-line, significa que a matriz psíquica está se realizando de outra forma. E a função paterna e materna está se processando mais na internet do que nas mesas de refeição.
Qual a educação sexual que os adolescentes estão recebendo via internet? Por que a garotada não desgruda os olhos das telinhas? O que elas oferecem de tão interessante que muitos nem comem direito, tamanha a fissura pelas imagens? Que magia é essa capaz de cooptar full time corpo, mente e coração? A maioria só existe se estiver acoplada ao seu aparelho, sem ele torna-se órfã de si mesma.
O tablet, além de aditivo narcísico, é o cabaré da vez. Num mundo repleto de imagens, onde há muito que ver e pouco que ler, o prazer deslocou-se do corpo real para o corpo imagem. Tocar, olhar nos olhos, sentir a pele do outro se tornaram emoções ultrapassadas, em desuso. Não estaria, essa nova forma de viver a sexualidade, aprofundando o desamparo, hiância inerente ao ser humano, sensação de que algo está faltando? E como fica a vida afetiva quando a máquina passa a ocupar o lugar do outro - o corpo no real não é mais objeto de desejo?
A mídia nos avisa: “Pornografia on-line influencia relações entre jovens, tornando-as estereotipadas e, às vezes, perigosas”. Filmes de conteúdo explícito inundam tablets e smarphones. Neles, jovens e adolescentes iniciam a vida sexual. O corpo é apenas uma imagem usada para garantir o orgasmo. Nada de fantasias sexuais, erotismo, preliminares. As imagens são nuas e cruas - um festival de genitálias garante o prazer rápido. Tudo acabado, é só iniciar novamente, sem trabalho de esperar pelo outro ou ouvi-lo em suas questões íntimas. Quais as conseqüências de crescer acreditando que o que se vê nos vídeos é a forma adequada de se iniciar sexualmente? Onde estão os pais e educadores? As famílias e as escolas não se ocuparam em construír argumentos  eficazes ao contrapor os conteúdos pornográficos que circulam na internet?
Não, a questão não é progresso, tampouco moralismo, mas sonhos. Avançamos em tecnologia, mas a concepção sobre a existência humana continua precária, imediatista, objetiva. Como encetar mudanças estruturais, práticas sociais e culturais, sem que a condição humana seja desrespeitada? Como ansiar por práticas sexuais menos violentas, menos estrupos, quando os jovens que educamos não são inseridos nos limites da lei? Como afirmou o psicanalista Hélio Pellegrino, sem pacto edípico não há pacto social. Sem que a criança internalize a lei, os limites da convivência humana é impossível a experiência harmônica e civilizada. Toda relação sexual implica um outro, que, por sua vez, esbarra em questões éticas, de respeito e cumplicidade.
A literatura clássica trata o sexo com erotismo. Eros – deus do amor, personagem mitológico. Mito, magia, fantasia. A arte é a forma poética de expressar aspectos da vida. Por meio dela, comunicamos o cruel, o feio e o encantador. O sexo, se tratado sem poesia e arte, além de grosseiro, é broxante. A questão está no desinteresse pelo outro, vivemos a falência da alteridade, do prazer compartilhado. A vida sexual dos internautas, robótica, solitária e operacional, é um arremedo do prazer conquistado pelos amantes.
O orgasmo na era digital é cópia imperfeita do que muitos casais, no real do sexo, já conquistaram. O capitalismo falsificou natureza, objetos, verdades. Não satisfeito, passou a falsificar o amor, o prazer e o orgasmo. Desinteresse é quando não interagimos, não participamos do banquete. É quando entramos apenas como consumidores, não nos julgamos autores da obra, apenas espectadores. Os jovens, ao tocarem apenas uma tela e dela extrairem prazer sexual, perdem a oportunidade de construir uma grande história de amor.  
O progresso tecno-ilógico dizimou a esperança do encontro amoroso, esperança de vida feliz. Não falo de sonhos impossíveis, mas de felicidade cunhada na prosa, no cotidiano das almas carentes de transcendência. Amor é fantasia pra ser fantasiada, ilusão pra ser iludida. Sem isso, o sexo é osso duro de roer. A violência entre os jovens revela a face maldita do mundo pós-industrial. O romantismo perdeu sentido. Coisificaram o amor, reificaram o sexo e objetivaram as relações. De coisa em coisa, cavamos o abismo ôntico. Como recuperar a crença nos encontros, como torná-los “eternos enquanto durem”?  No antigo imaginário feminino, prazer é picar couve, cantar e esperar o coração se descortinar, desvendando descampados, superando erosões. O amor exige tempo, há de se descongelar os sentimentos e decifrar as intermitências do coração.
O melhor do encontro é o que escapa, o que foge ao roteiro e nos envolve em enredos inusitados. O elemento surpresa garante a intensidade do êxtase. A literatura erótica conduz o leitor ao mundo fantasmagórico, enquanto nos vídeos o usuário entra em contato direto com a imagem, limitando o campo da fantasia. Erotismo é colocar poesia na pulsão, desviá-la do real. Sexo ao pé da letra. Coisa gostosa é sentir arrepios quando somos invadidos, assaltados por um olhar inesperado. Mas isso é outra coisa, é viagem feminina. E das antigas. Papo de outrora, quando as mulheres iam para a cozinha embalar lembranças de uma noite de amor. É quando elas descobrem que para gostar de panelas e fogão, primeiro precisam ser feliz na cama.
Mulher sonha, sonha alto. E de repente acorda, coloca os chinelos e vai colher girassóis. Ser mulher é profanar pecados. Maldição boa. Aquecer a alma nas panelas - desejo iluminado que transcende. Arrepiar, chorar e lamber lágrimas - quem não chora não sabe ser feliz. O choro prepara o rosto para o riso. Chorar levanta a alma e desperta emoções que cochilam, cura tristeza, mau olhado e desesperança. Na cozinha, enquanto se pica cebola, faz angu ... pulam-se cercas e currais. Sedução é metáfora, é encantar o mundo com a linguagem de dentro. Como nos lembra Adélia Prado: “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento”.  
O amor no feminino é busca eterna. Busca-se algo que transcenda o cotidiano, o tempo ordinário que nos consome em sacolões, bancos, trânsito. Ela quer olhar para o mundo e enxergar beijos, afagos, bossa nova, jantares a luz de velas, viagens. Homens, isso é a mulher - ela não esquece o desejo de subir montanhas, serras. É no topo do mundo que ela quer depositar o seu orgasmo, é lá que o seu corpo anseia testemunhar prazer, o prazer de sentir o feminino vasculhado pelo masculino. É nas alturas que ela quer reverenciar o êxtase de tocar um pedacinho do céu.
Isso, invadam a sua alma, arrebentem as entranhas e acariciem as ilusões de que, pelo menos naquele momento ela é única. Contudo, muitas garotas de hoje, ávidas consumidoras de pornografia on-line, assistem às perversões mais doentias. E isoladas, mergulham no simulacro de uma relação sexual, arremedo de vida feliz. E, desacreditadas de que alguém possa levá-las ao orgasmo, se viciam no prazer solitário. Vitimas do excesso de filmes de conteúdo explícito que distorcem, estereotipam e espetacularizam o que deveria, com recato e na penumbra, ser realizado em tempo real.      


quinta-feira, 6 de março de 2014

EDUCAÇÃO OU BARBÁRIE


Inez Lemos[1]

            O Brasil colonial era movido pela força dos negros africanos, tratados como animais de carga e transporte. Cabia aos escravos a função de transportar a realeza. Quando chega o automóvel, esse desponta no cenário como símbolo aristocrático, se distanciando da população, que contava apenas com o bonde e o trem. O carro segue como símbolo de superioridade social. Eis o imaginário que define a rotina do motorista que se julga superior por ostentar carro importado, reiterando a lógica da hierarquia social. É o cidadão que tem certeza de seu direito de curtir a noite, se embriagar, correr e matar.
Dificilmente nas rodas familiares os chamados “cidadãos de bem” discutem a postura do mais rico e poderoso em relação ao uso do espaço público. Qual o imaginário que permeia entre eles? Como construímos a hierarquia do rico sobre o pobre? Embora presenciemos demanda por intervenção e correção aos abusos cometidos no trânsito, sabemos que há um discurso direcionado ao outro (infrator) e um diferente quando somos nós, de melhor poder aquisitivo, a bola da vez. Situamos fora de nós o processo de conscientização que possa garantir melhoria da convivência no espaço urbano. A guerra  só se intensificará se não repensarmos posturas elitistas e racistas que reforçam o viés hierárquico. A dança é nossa, embora poucos se ocupem em lutar pela igualdade de todos perante as leis que regem a cidade.
Na moderna dinâmica social convivemos com o cinismo, a desfaçatez. Características do jeitinho brasileiro, hipócrita e obsceno - o mesmo que permite ao motorista responsável por mortes no trânsito se esquivar da penalidade. Seja comprando o policial de trânsito, a justiça ou os familiares da vítima, quando essa é pobre, negra e inferior. Como lutar e exigir punição aos criminosos, realidade que ameaça todos nós, vítimas de jovens que crescem acreditando na superioridade dos ricos sobre os pobres, do carro sobre o pedestre, do aeroporto sobre a rodoviária? Os nostálgicos do glamour imperial e escravocrata, no fundo, defendem a impunidade dos crimes cometidos por um de seus pares – brancos e bem nascidos. Lembramos que no Império fazendeiros que se opunham à escravidão eram também donos de escravos.
A mídia expõe as contradições de uma sociedade dividida. De um lado há os que se viciaram em julgar bandido apenas o menor infrator que nasceu na favela, cresceu entre traficantes, não teve oportunidade de estudar em boas escolas e, consequentemente, está na rua cobrando o que a vida lhe deve. Para ele não há outra saída senão os cárceres de Pedrinhas – amontoados de gente, ratos e torturas. O clamor por justiça e punição é ferrenho quando o réu vem do lado de lá. O grito por segurança ecoa nos jornais. Contudo, sabemos que a violência deve ser tratada como sintoma, como um aviso de que as coisas andam fora do lugar. É mais uma questão política, social e cultural do que de polícia. Nenhuma criança nasce bandida, criminosa. Ela assim se torna em função da forma como foi educada e inserida na cultura. 
Bandido é significante vazio. Uma criança não escolhe o mundo do crime por deleite, por ser raça ruim, gente imprestável, negativo social. Dificilmente, vamos à rua exigir punição para o vizinho da Zona Sul - filho de um amigo empresário. A criança que vive sob a cultura dos milicianos, que controlam a região onde vive, cresce sob a lógica da vingança e da corrupção. A lei dos milicianos, um Estado dentro de uma comunidade vítima da falência do poder público, é ferrenha. Não há segunda chance. O bom educador sempre aposta na recuperação do ser humano, quando a ele é dada oportunidade de repensar atos e conhecer o outro lado da vida. Na rua ele aprende a se defender apenas com armas, o poder dos excluídos. Enquanto que nós aprendemos o poder da palavra, da teoria, dos estudos e de uma boa profissão. O que revela que os bandidos que julgamos irrecuperáveis no fundo são humanos e carentes como nós. A diferença é que a vida é mais generosa com uns que com outros.
A vingança aos infratores, recomendada por gangues que operam à margem da lei, faz apologia à barbárie, justiça com as próprias mãos. Culpam a ação dos direitos humanos e das ONGs que defendem o direito à infância com lazer e escolas bem equipadas. Com cinismo e ironia, não vamos enfrentar essa tragédia social. No Brasil às avessas, o bandido é vítima de si mesmo. A delinqüência é efeito de uma autogestão burra e perversa. Revolta, vingança e violência. Eis o caldo que cozinhamos quando julgamos a manifestação do problema como se fosse o problema. Os fatos de forma simplista, com argumentos obscurantistas e pouco consistentes. A vida não se resume em culpar, punir e condenar. Seria fácil se a questão fosse apenas o rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade. Ou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o estatuto da Impunidade, como muitos julgam.
Seja rica ou pobre, se a criança não foi bem acolhida, ou se não foi interditada em suas pulsões destrutivas, as chances de cair na delinqüência são grandes. Falta ou excesso de amor? Educar é simbolizar sobre o certo e o errado. Não adianta pressa, o ser humano demanda tempo para entender as contradições da vida e dos sentimentos. Ódio, frustração, humilhação. Sentimentos que atravessam o corpo e bate fundo o coração. Talvez esse percurso nos ajude a questionar o que tem levado adolescentes a mergulhar na violência e no crime. Uma leitura ampliada sobre o sujeito e a sociedade em que estão inseridos. Uma comunidade implicada no sofrimento dos que vive a desesperança. Diante da condenação, tão somente, o futuro já nasce morto. Interessados em investigar os atos antissociais, e sem medo de rever posturas petrificadas, é hora de nos unirmos diante do caos. Ou escolhemos educar as crianças com rigor, carinho e oportunidades, ou mergulhamos na barbárie.   
Ao atacar a epidemia da violência, deveríamos traçar linhas de condutas preventivas (longo prazo) e curativas (curto prazo). Pouco se debatem propostas preventivas que dificultam que a criança se refugie na delinqüência - propostas que abordem aspectos sociais e subjetivos. Em vez de deixar o caos se estabelecer para, então, agir de forma truculenta, melhor seria pesquisar ações efetivas que atuam na raiz da questão. A cobiça que gera violência e crime é mais a forma como o desamparado, que vive a privação afetiva, simbólica e material, enfrenta os conflitos que um mal em si. A peste que recai sobre as almas miseráveis, que cresceram cultuando a vingança (quando se é pobre), sem chance de descobrir outros motivos para se viver, senão roubar do outro algo que lhe provoca inveja e revolta. 
Outro exemplo de leviandade no trato de questões profundas é como estamos debatendo a questão da maioridade penal. Agimos como adolescentes afoitos em assegurar os anseios a qualquer custo. “Quero por que quero uma sociedade segura, onde os filhos possam circular livres dos drogados, delinqüentes e criminosos”. O rebotalho social que atrapalha o gozo dos abastados. O discurso pró-redução da maioridade penal deflagra a desfaçatez com que julgamos o fracassado, o excluído. A vida é percurso abissal, descida fecunda aos abismos da alma humana. Pouco se pode falar sobre o drama do vulnerável, sujo e fedorento, que nasceu quando não deveria, e cresceu como animal - sem noção dos códigos que regulam a vida social. Contudo, mesmo sem ser promovido a sujeito, deverá responder pelos seus atos.
Esses menores são filhos do descaso dos pais e governantes - efeito da desigualdade social, da impunidade aos corruptos que, sem pudor, lesam o erário. Dinheiro que deveria garantir uma juventude com emprego e perspectivas, além de políticas públicas eficazes como planejamento familiar, inserção em atividades culturais e esportivas. A cultura do extermínio, que apregoa a exclusão aos que incomodam, é absoluta. A solução deve ser engendrada de forma ampla, investigando os motivos que levam uma criança, desde cedo, a “escolher” o caminho do crime. Punir por punir mais revolta que recupera. A forca é o último recurso. O criminoso habita todos nós, basta deixá-lo livre, não inseri-lo nos limites da lei - metáfora paterna.  
A maldade não escolhe conta bancária, é da condição humana. Inútil querermos aplacá-la apenas com prisões, quando sua origem deve ser simbolizada. Questão  complexa e que esbarra no outro - essa relação que determina e regula o desejo. Mais   eficaz seria criarmos um movimento exigindo mudança na forma como o Brasil educa as crianças. Expandir o olhar diante do outro – estupor e vergonha que produzimos.




[1] Inez Lemos é psicanalista

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

VINGANÇA NAS REDES SOCIAIS


Inez Lemos[1]

            Ao escrever sobre relações afetivas contemporâneas, quando a tendência é   expressar os sentimentos via ondas eletromagnéticas, o que está em questão é uma profunda mudança na produção da subjetividade – um novo sujeito e uma nova forma de vivenciar as pulsões: amor, ódio, vingança, inveja, ressentimentos. Outrora, ao falarmos de sentimentos, transportávamos o pensamento para um outro lugar - arrastávamos as entranhas para o mundo íntimo. Um mundo que, ao ser acessado, requer um pouco de silêncio e concentração, centrar no que nos causa estranhamento. O silêncio, por sua vez, requer tempo - tempo é a mediação que viabiliza contato com a vida interior. Sem ele dificilmente questionamos o modo de ser e estar no mundo.
            Vivemos a mania dos smartphones e tablets. Tornou-se comum entre a moçada   agendar as relações afetivas e sexuais on line. O tempo é o tempo virtual, é nele que se vive, se ama e se tenta resolver os incômodos. A vida íntima, os conflitos, logo é registrada em redes sociais. A questão que destacamos é a qualidade das relações, como os jovens estão elaborando a sexualidade, algo maior que envolve perdas, pernas e corações. Nem todos conseguem desvincular o ato sexual dos sentimentos. Relação implica duas pessoas se envolvendo, trocando profundezas. Intimidade não se resume em tirar a roupa e ir para a cama, mas desnudar, aos poucos, as camadas internas. É quando escolhemos quais as páginas da alma que queremos mostrar ao outro. A vida afetiva exige mergulho nas entranhas. Amar é entranhar, revisitar poços, cavernas e grutas.
            Como resistir à efemeridade nas relações, a não adesão à banalidade dos sentimentos? Como expressar o descontentamento com o rumo do mundo, quando tudo se transforma em espetáculo, circo midiático? Uma transa vira notícia no facebook, a viagem e o carro novo têm que ser postados. Exibimos a fartura, a abundância, a beleza e o sucesso. E como fica a vida quando tudo é precário, fracasso e pobreza? Não seria a violência, a criminalidade e os rolezinhos - o urro que destoa da manada, a boiada que sofre a exclusão? A obsessão em priorizar o consumo - a arrogância fascista de se impor pelo dinheiro define os traços de uma sociedade desigual e injusta. A maioria dos pais está ocupada em tamponar a falta do filho com objetos, máquinas e mimos. Poucos pensam em uma formação humanista, uma outra concepção de mundo. Qual o lugar que queremos que o nosso filho ocupe? O de bem sucedido, rico, estúpido e machista? Os monstrinhos de hoje serão os bandidos de amanhã. Ou será que julgamos monstros apenas os excluídos, que crescem sendo humilhados, destruídos pela desfaçatez daqueles que se julgam melhores por transitarem em carros importados?
O debate questiona o tempo e seu papel na educação das crianças. A forma como os jovens amam, pensam e circulam pela vida remete à postura dos pais. Família, cidadania, ética. Palavras desgastadas diante da fissura em locupletar. O pai não tem tempo para conversar com o filho, a mãe julga mais importante a academia e o salão de beleza. Tudo é prioritário quando se trata de cumprir com as funções paternas e maternas. Tempo, esse desconhecido quando o assunto é educação de filhos. Contudo, ele é o elemento que possibilita aos pais imprimirem nos filhos a marca, o diferencial de cada família. Como educá-los priorizando experiências em que viceja intimidade, interioridade? Relações sem viço são frouxas e expõem a descrença dos envolvidos na potência dos sentimentos. A qualidade da convivência confere sentido à vida, o fio que une brota de dentro. Dificilmente estabeleceremos relações douradoras apenas por satélites.
Nas redes sociais a comunicação é mecânica, a máquina mediando um espaço coletivo, espaço de pouca elaboração onde o tempo é fruição sem maturação. Tempo imediato e não mediato. A internet é um recurso excelente para se trocar visões de mundo, encontro de idéias e debates. A obsessão em registrar intimidades em rede atesta a superficialidade da nova ordem amorosa. O mundo virtual em que os afetos e desafetos são postados lembra o Coliseu romano. No Império Romano, a diversão da plebe era torcer pelos gladiadores. Hoje, a juventude se diverte digladiando uns aos outros na arena virtual. As feras soltam o veneno da inveja, ciúme e ressentimento. O palco cibernético é o escolhido pela moçada – muitas garotas se despem e oferecem aos namorados materiais para possíveis vinganças. 
O Brasil é um dos campeões em usuários de celulares e redes sociais, contudo, os índices não são suficientes em garantir qualidade nos conteúdos das mensagens. Não avançamos na forma de trabalhar os sentimentos danificados. O ressentimento não elaborado transforma-se em vingança – sentimento que nasce do retorno dos desejos vingativos sobre o eu. Ao querer se livrar dos incômodos, agimos sem pensar, sem tentar saídas honrosas. Logo, lançamos sobre o outro a fúria, caldo fermentado na crueldade. Sentimento tóxico que adoece a alma indigente e impiedosa. Destacamos a importância daquele que deseja lançar a espada sobre o seu algoz, de se implicar e analisar o teor da vingança - dívida adiada, acumulada. A vingança é a tentativa de reparar o sentimento de ter sido lesado. Uma reparação fajuta, uma vez que o alívio incide apenas em privar o outro de algo – se eu não a tenho ele também não a terá.
O sofrimento, sensação de perda e necessidade de se sentir superior expõe a frustração de não ser o que gostaríamos de ser – o eu idealizado confrontando com o eu real. Ser amado e aceito é um mecanismo de defesa, idealização de proteção. Fantasia que ameniza a sensação de desamparo e abandono. Dependência garantida. O que está em questão não é o amor que sinto pelo outro, mas a dor que sentirei ao perdê-lo. A propriedade é fantasia de proteção, defesa contra a tragédia do desamparo. Sentir amado  é deparar com a necessidade de escapar da angústia, do medo e da loucura. A traição é uma forma de fuga, de escapar do que realmente importa – a não consciência de si. É o ato de se excluir de uma determinada situação, um acordo que fazemos com a incapacidade de explorar os conflitos afetivos. Todo desejo é conflitante.
O ato de tentar escapar ileso, de não se implicar, demanda pouco esforço. Atravessar os incômodos é mais difícil que suplantá-los. O desejo de punição exposto na web, a chamada pornografia de vingança, é a versão atualizada da violência de gênero. E deveria contribuir para o debate sobre a forma como os jovens estão sendo educados. Machismo, homofobia e racismo apontam rejeição ao diferente e deflagra uma educação elitista, patrimonialista. Talvez falte às famílias introduzirem o dabate sobre temas e conceitos sociológicos e antropológicos. Saber perder, saber lutar, questão necessária quando o assunto é um mundo menos violento. A violência é efeito da frustração. Sem refletir sobre perdas, exclusão e humilhação, pouco podemos esperar dos jovens. Geração que aprendeu a exigir e pouco sabe sobre trabalho e conquistas.
            Deixar frustrar, suportar que o filho entre em contato com a dor pela perda da ilusão da superioridade. Saber do fracasso é se preparar para a satisfação, é dar conta de assumir o lado obscuro, a lama que habita cada um de nós. Cultivar a frustração é manter a ilusão sobre nós mesmos. Quanto mais frustrados, mais ressentidos e vingativos. Se o desejo advém da falta, negá-la é manter-se na repetição, na mesmice. Enfrentar as próprias mazelas, se implicando e se responsabilizando pelo fracasso, é transformação, ação sobre o sentimento.
Como enfrentar a dor se não paramos o caminhão? É na boleia, no ir e vir da vida, que a compreensão se processa. Ao nos proteger da raiva de se saber pior, mais feio ou menos poderoso, algo tem que se romper e abrir espaço para bons sentimentos. Perdão, tolerância, compreensão. A vingança, o desejo de fazer o mal é a incapacidade de estabelecer contato consigo e com os outros. Quando vivemos afastados de nosso âmago - lugar onde jorra emoção -, nos privamos de esperança. Como lutar por sentido e se extasiar pela alegria da conquista? Viver a secura do mundo, desidratado e pouco  recompensado por práticas afetivas consistentes, é cunhar loucura. Devastação. No deserto, as almas indigentes de sentido denunciam a descrença no futuro. Atos descabidos e enlouquecidos. O excesso ou a falta de esperança os condenam ao tédio, enfado - pouco há a desejar. Violência e vingança são apelos ao limite, o grito de socorro pela irrelevância da vida, quando tudo é permitido. Seres deformados pela promessa de prazer eterno. Covardia é pecado difícil de ser perdoado, uma vez que não há vida humana sem passar pela experiência da dor. Saber viver é saber conviver com a falta. Ser onde não tenho, eis a questão.    



[1] Psicanalista. Artigo publicado no Pensar em 25/01/2014 – Email: inezlemoss@gmail.com

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Existência tóxica[1]

Inez Lemos [1]

            Como prevenir para que os filhos resistam às adicções - drogas, álcool, internet? A pergunta de uma mãe expõe o dilema que muitas vivem. Iniciamos pelas substancias tóxicas. Como elas entram na vida dos jovens? É possível identificá-las como um aditivo narcísico, um ponto de apoio, um suporte. Elas chegam, muitas vezes, amparando uma crise de insegurança. Desconfiança, medo, incerteza. O mundo está cada vez mais inseguro e as profissões cada vez mais fragmentadas. Amigos, amores? Quem são? Festas ou baladas regadas a remédios controlados? Nas casas noturnas consome-se, como estimulante, Ritalina – medicação indicada no tratamento do chamado “déficit de atenção”. O ato aponta gozo em transformar o lícito em ilícito.
            Prazer ou a luta incessante em escapar do vazio - pavor ao deparar com o caos interno. A dor é fato, toda faxina nas entranhas causa medo, insegurança. Ninguém amadurece emocionalmente sem enfrentar os leões que rosnam. O problema das adicções desvenda a fragilidade descomunal identificada entre os jovens. A ferida narcísica, o Eu em frangalhos enlaça o parceiro - objeto que promete anular a dor de existir. E revela a necessidade de companhia na travessia. O vínculo com o objeto transforma-se em dependência. Como tamponar o buraco no meio do caminho? Se a passagem da infância ao mundo adulto e de responsabilidade não é tranqüila, se a ameaça diante da autonomia os apavora, vale dizer que os jovens não estão sendo educados para assumirem o duro fardo da existência?
            A questão existencial caminha junto à questão cultural, uma é efeito da outra. O pensamento é resultado das condições materiais, ele não surge do nada. Vivemos a pós-industrialização. Se não há mais emoção na aquisição de objetos de consumo, outros objetos devem ser solicitados na busca por satisfação. Se o sensacionalismo está para além do consumo ordinário, exigimos, cada vez mais, algo extraordinário. Como e onde  garantir sensação e excitação, quando tudo se tornou permitido?
 A fissura se expande a outros campos, outros tipos de adicção - além do alcoolismo e da toxicomania. As paixões deslocaram-se. Muitas se tornaram tóxicas - o amor vampírico envolve pactos sinistros e promessas mortíferas. Como apostar em um futuro marcado pelo excesso e regado a venenos – drogas tarja preta? O olhar morto não vislumbra esperança. Todo amanhã é devir que exige garra na construção. Diferente da vida fácil, oferecida pelos pais. O barro da existência é amassado diariamente.  
            A fissura pelo máximo de prazer e sensação infinita provoca alguns delírios, efeito de uma falha no conceito de prazer. Presenciamos a loucura pelo fetiche, muitos são movidos pela ilusão de que estão sendo privados de um grande encontro. Logo, percebemos confusão entre prazer e adrenalina, a necessidade de se dopar e se anular com objetos maléficos. A fissura pela entrega, pela fuga, denuncia a alma mutilada.
Na era cibernética, a massa é convocada por um líder que, de plantão, controla, manipula e seduz o espaço virtual 24 horas. A sorte está lançada. Como resistir aos convites? O uso do objeto é livre. Poucos pais regulam o tempo diante das telas. Não há uma lei que proíbe o jovem de passar a noite diante de uma máquina. O viciado em redes é um adicto, como o toxicômano ou o alcoolista. O internauta não reconhece o vício, e os pais tampouco vêem inconveniente na adicção virtual.
            Adicção é a compulsão por um objeto. O sujeito é dominado pelo ato repetitivo e irrefreável. Estabelece-se uma relação compulsiva - determinada pela fissura de se entregar ao objeto em total submissão. O corpo, escravo, obedece. Vários são os objetos de adicção ofertados pela sociedade atual, além das drogas de ação psicotrópica e o álcool. Podemos incluir: sexo, comida, tabaco, esportes, TV, computador, celular, trabalho, consumo, academia, jogo, entre outros. A questão não está nos objetos, mas na relação que se estabelece com eles, no uso que se faz deles. Uma vez que é utilizado de forma saudável, pontual, cumprindo apenas o papel que lhe é devido, nada a ressaltar. Contudo, quando o sujeito perde o interesse pelos outros objetos e se fixa no mesmo, direcionando a libido sempre a ele, reduz-se o campo de ação. Ocorre um empobrecimento do mundo externo e interno – uma vez que o viciado perde a liberdade de decidir entre usar ou não usar o objeto. Quando não se é livre para escolher, resta se submeter.
            O psicanalista Decio Gurfinkel resgata a raiz etimológica da palavra: “o adictu era, na Roma antiga, a pessoa que, incapaz de saldar uma dívida, tornava-se escrava do credor, como forma de pagamento. Em outros termos, trata-se da antiga lenda do indivíduo que vendeu sua alma ao diabo, e ficou aprisionado e refém de seu salvador/algoz”. A relação de alienação coloca os objetos de adicção na posição de imprescindíveis. É quando ocupam a lugar da necessidade e não do desejo, provocando  distorção no funcionamento pulsional. Se a relação com o objeto migra do desejo para a necessidade, constata-se uma inversão na lógica do prazer. É neste momento em que os convites se deslocam do: “vamos sair, conversar e tomar um vinho”? Para: “vamos tomar todas”?
            A adicção, grosso modo, pode ser definida como o sintoma de um tempo em que o afeto, o pensamento e a reflexão sofrem uma atrofia. A moda é o indivíduo operacional, a tônica está na ação e não nos sentimentos. Lidar com as fantasias tornou-se banal. Banaliza-se a vida interior, o foco é o desempenho. Todos são julgados pelo salário, pela profissão, pelo corpo. Pouco vale a forma que escolheram viver, se estão felizes, importa serem bem avaliados pelos auditores financeiros. Na lógica do agir, ingerir e consumir, pouco tempo resta para sentir e pensar. Meio ao excesso de teclas e botões, padece uma juventude carente de sentido. Angustiados, lutam por sobreviver ao déficit simbólico a que estão relegados.
            A obsessão limita os movimentos do indivíduo, paralisando o olhar em uma só direção - congelando emoções e sensações. O sintoma do mundo coisificado é o empobrecimento afetivo e simbólico. O sangue corre para um só objeto, fazendo do obsessivo um demissionário da vida emocional. Dominado pela dúvida, procrastina, adia. Viver é apenas uma operação. Uma técnica a mais.
Pouca coisa vale além do mergulho mortífero no objeto – objeto causa de fissura. Porém, sem um ponto de basta, sem ruptura na cadeia pulsional, resta pouca esperança. Seja na impulsividade, agindo sem pensar, ou na obsessividade, deixando de agir por pensar demais, ambos acusam desajuste - dessintonia com o eixo subjetivo. A relação com o objeto de adicção sustenta o paradoxo – ao mesmo tempo em que alivia, conforta e provoca sensação de proteção, acusa, também, submissão à devoção e devoração do objeto - causado pela posição de escravo.  
            O efeito passageiro do ato adictivo o coloca na posição de objeto transitório e revela as conseqüências nefastas de uma relação parental frágil e danificada. O vínculo que estabelecemos com os objetos (drogas, álcool ou outros adictivos) denuncia a forma como fomos acariciados e amados pelos pais. Quando há ruído nas relações familiares, o sujeito fica exposto aos efeitos de um Eu fraco, mal enraizado e carente de boas referências.
Para J. McDougall: “...a necessidade de objetos externos em forma de sexualidade compulsiva ou de abuso de drogas é evidência de colapso dos processos de internalização. Os atos adictivos são incapazes de reparar a representação estragada, seja do pênis ou do seio, no que se refere à sua significação simbólica. Aliviam a angústia apenas temporariamente e, portanto, adquirem qualidade adictiva pelo fato de terem de ser continuamente buscados”.
            Se somos marcados pela forma com que incorporamos vivências, afetos, se são eles que nos movem, aos pais resta o alerta: educar filhos é função que exige muita dedicação e responsabilidade. Não é tarefa para qualquer um. Muitos não querem arcar com tanto trabalho e implicação. É fundamental diferenciar o desejo de torna-se pai ou mãe, do desejo de cumprir com a paternidade/maternidade.
Se somos livres ao escolher entre ter ou não ter filhos, uma vez que os temos, o dever é oferecer boas referências, lembranças enraizadas no afeto. A criança que foi privada de uma relação boa com os pais, que incorporou fragmentos danificados, é forte candidato às adicções. O adicto é um visionário. Além de idealizar as qualidades mágicas do objeto, cria o conto de fadas para nele reinar. Quando o objeto é mais forte que ele, acaba se submetendo às suas bruxarias.                             



[1] Artigo publicado em 14/12/2013 no caderno Pensar do EM.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

ADEUS AO PAI

Inez Lemos

Lázaro, nome suspeito, evoca sacrifício, dor, castigo. Papai desafiou os desígnios bíblicos, fazendo do nome o seu contrário. Reverenciou, ao longo da vida, a liberdade, o despojamento, a simplicidade e a alegria. Alma ingênua, não habitada pela maldade. Apressado, corria para tudo, era a própria pulsão. Talvez fosse marcado por uma urgência da qual não sabia. Nunca sabemos direito o que nos movem, mas papai era movido pela boa ação. Em cada canto que teve fazenda, adotava um. Muitos empregados tornaram-se agregados - quando iam trabalhar com ele, de lá não queriam mais sair. Um Pai avançado, nada moralista. Sua moral era liberdade com responsabilidade. Educou os filhos na autonomia, ensinando, desde cedo, que cada um deveria aprender a cuidar de si. Avesso a fofocas, um dia, diante de uma, me chamou e disse: “Minha filha, os passarinhos estão cantando além do que deviam. Portanto, saiba cuidar de tua vida, se você fizer alguma besteira, o azar é teu”.

Sua vida resumia em: fazenda, família, igreja, jornal, cervejinha (engolida de uma só vez), um cigarrinho (escondido de mamãe), o Corintias e, claro, Truco!!!!!!!!!!
Não soube ganhar dinheiro, sua riqueza era a alegria - Sempre. Nunca reclamava de nada. Coração largo, bolso solto - principalmente para os de fora. Longe da aparência, nos ensinou a essência. Logo cedo, descobri que com ele não havia chance. Moleza é rosca que não tem osso. E a vida, luta a ser travada por si só. O desafio estava lançado. A existência como estrada - uma caminhada inventada e reinventada diariamente. Contar com as próprias forças, os próprios recursos. Imprimir a tua marca, não fugir da peleja de se saber só. Não envergonhar da tua singularidade. A felicidade é um conceito, construa a tua. 


Homem do sertão, da botina e do embornal. Avesso a modismos, aos filhos restava enquadrar na vida autêntica que lhes oferecia. Não queria ser exemplo para ninguém. Cada qual deveria cultuar a própria alma. Lugar onde habita o melhor de nós, os valores que escolhemos – o que queremos deixar e como queremos ser lembrados. “O que eu adorei em ti, foi a vida que me deste. Sem cobrar nada. Uma vida cunhada na LIBERDADE. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O FRACASSO DA SUBLIMAÇÃO

Inez Lemos
O mundo atual recusa a figura transcendente. Os valores são definidos de forma alheia à história, à mitologia e à carga simbólica que garantia as trocas. Somos solicitados a nos desfazer das nuances simbólicas que subsistiam nas transações de mercado. O foco é o simples e neutro valor monetário da mercadoria. Quando viver passa a ser um ato operacional, sem nenhum apelo transcendental, tradicional e moral, a humanidade, destituída de sua alma, sua mais nobre substância, se desespera. Ao homem dessubstancializado e dessimbolizado resta a servidão ao duro jogo da circulação infinita de mercadorias. Assim, livres do passado e dos signos que nos identificam, reverenciamos as propostas da sociedade de mercado. O novo sujeito, desatrelado de sua carga subjetiva, é oco, triste, entediado e deprimido – uma vez que fora do simbólico, circula apenas no real. E a vida no real é insuportável. Impossível ser feliz transitando por meio de semblant soft.        
Destaco alguns traços de nosso tempo no propósito de investigar o sofrimento vivenciado pelos jovens, quando deles são esperadas apenas a venda e a compra de mercadorias. Muitos não são acolhidos em seus delírios simbólicos, em suas fantasias. Quando um dos integrantes da família apresenta desajuste, foge ao roteiro doméstico e decepciona, fere expectativas, opta-se por sua exclusão. Expulso do paraíso, esse indivíduo amarga a devastação, pois nem tudo é negociável. Destituído de sua autonomia e de sua insígnia narcísica, o jovem se vê diante do mal. O mal é o sonho que não se cumpre.
A arte é a instância que melhor acolhe a expressão humana, expressão de desamparo e solidão. É fascinante abordamos o vazio e a incompletude humana por meio do belo. Ao criarmos, elaboramos os sentimentos incendiários que nos torturam. O que falta aos jovens que saem de cena e puxam, precocemente, a cortina da existência? Como não se demitir de um mundo que pressiona para o sucesso e não tolera o fracasso? Como esculpir a angústia abissal, enlaçar-se no erotismo do sonho que não se realizou? Sublimar é descobrir formas de suportar o objeto perdido, a falta tributária da condição humana. Quando as perdas não são simbolizadas – bordadas com pedras e miçangas, restam-nos a amargura, o gosto de morte na boca. Como enfrentar frustrações? Frustração – frustra é advérbio que significa “em vão”, que se relaciona com fraudar, subtrair. Sentir-se frustrado é experimentar a sensação de estar em falta, em desvantagem - mágoa por algo que não se cumpriu.
            A existência humana é peleja, esforço destinado a apaziguar insatisfações. Todos anseiam por gratificação - estado de graça, sentimento de plenitude e reconhecimento. Somos movidos por pulsões, elas tanto podem produzir obras de arte quanto neuroses. Que destinos devemos dar às pulsões, que interesses norteiam as escolhas dos jovens? A psicanálise vincula criatividade e sublimação. Cada cultura incentiva modalidades de sublimação. Ao mudar o objeto da pulsão, tem-se o reordenamento no circuito pulsional. Ou seja, pulsão é energia conectada aos valores de sua época.
Em Escritores criativos e devaneios, Freud aponta a criação como responsável pelo bem estar, tanto do autor como do leitor. Diz ele: “o escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos subordina com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias”.
            O debate aponta para a capacidade de o sujeito se envolver com o que produz - criação artística ou atividade que lhe confere satisfação. Por meio da sublimação, imprimimos sentido a fantasias que não cessam de pulsar. Cada época elege os valores que vão operar na proteção ao sofrimento e à loucura. Como orientar os interesses narcísicos? A escolha entre uma vida empobrecida, neurótica ou de grande riqueza simbólica dependerá de nossa capacidade de sublimação. O vínculo que enlaça o indivíduo e o coloca na posição de sujeito desejante e entusiasmado com sua produção se situa numa fantasia inconsciente, pois o objeto que causa desejo é perdido desde sempre. Impossível reeditar a primeira experiência de prazer. Resta-nos descobrir formas simbólicas de representá-la.
            Toda civilização é fonte de sofrimento, viver em sociedade exige renúncia, nunca vamos nos realizar plenamente. Entretanto, devemos dar ouvidos aos berros, ao que em nós urra, clama por satisfação. É trabalho de detetive, pois há toda uma logística em nos desviarmos e nos confundirmos, fazendo com que desejemos o que, no fundo, não desejamos. Ao transitar fora do eixo subjetivo, desprezamos a herança simbólica, empobrecemos a existência e, vulneráveis, sucumbimos frente aos interesses do mercado. Viver bem, cultuar a satisfação interna, enfrentar a falta visceral e o vazio existencial são tarefas de toda uma vida. Aspirar à felicidade é função social. O sujeito feliz sabe compensar a insatisfação provocada pela civilização. Suporta melhor  contradições e adversidades da vida.
            Pesquisa realizada no Brasil registra que a taxa de suicídio entre jovens aumentou cerca de 30% nos últimos 25 anos. Para o psiquiatra Neury Botega, da Universidade estadual de Campinas (Unicamp), é importante falar sobre o assunto. Esse tema deve deixar de ser tabu entre os profissionais da saúde. Dados relatados pela imprensa comprovam que o deserto é destino dos não engajados no discurso capitalista. Conversando com jovens que anseiam por realização pessoal e profissional, percebo que a maioria se sente frustrada, infeliz por não conseguir ocupar um lugar de destaque e por não ser reconhecida pelo que produz. Junto da frustração há a pressão da família e da sociedade, pois a maioria é educada para brilhar, ganhar muito dinheiro e fama.
A vida que se tece no anonimato, longe das luzes da ribalta, exige coragem moral. Superar a incompletude e a transitoriedade não é tarefa fácil. Excluídos entre os bens sucedidos, sem expectativas e impotentes para provocar movimento em suas vidas, muitos se desesperam. Como enlaçar o sujeito, como resgatá-lo em um vínculo erótico que garanta satisfação?
            Será que o suicídio, no estado atual do capitalismo, metaforiza o fracasso da sublimação? Na luta para obter prazer, algo fracassa. O prazer não foi substituído pela satisfação sublimada - a gratificação narcísica não se cumpre na produção artística ou profissional. Será que a tecnocultura não é suficiente para proporcionar aos jovens o apaziguamento necessário, os meios que vão operar na realização dos desejos? Privados de suas vias de expressão e diante de sonhos frustrados, muitos se culpam pelo fracasso. Faltam- lhes forças para, da lama, fazerem ouro.  
O inferno é qualquer lugar que nos limita e impede de expressar incômodos, sentimentos oceânicos. Se não formos competentes para descobrir nichos de paixão, se não nos deliciarmos com o que produzimos, sucumbimos. A felicidade está em gostar. Sem gostar é impossível ter saúde. Gostar é diferente de ansiar. Ânsia, sanha, insânia. O corpo em fúria dilacera. Contrariado, o sonho é dantesco - tormento, desgosto: tenta fugir ao açoite, imperativo que nos conduz a atos desarmônicos com a natureza ôntica. Saber recusar manobras que nos embaraçam e impedem a conexão com o próprio é garantia de satisfação. A gratificação potencializa, empresta força ao desejo frouxo e o impulsiona. A atividade criadora barra a frustração e viabiliza o enlaçamento do sujeito com sua interioridade, disponibilizando-o para a produção artística, superando o medo do fracasso e a angústia ao se expor ao outro. Na alteridade, realiza-se o laço social, a comunicação com o mundo.
O suicídio é a forma radical de escapar da sensação de impotência e da dificuldade de provocar mudanças. A passagem ao ato sem visitar entranhas. Ou o tédio deflagrado pelas máquinas, quando as relações interpessoais perdem consistência. Hoje, amor e amizade são conduzidos por sites - ações e afetos que antes pertenciam ao acaso agora são tarefa de empresas virtuais, esmaecendo a intensidade dos sentimentos.
Quando não ocupamos lugar que assegure pertencimento, desabamos. Sem partido e sem heróis que os representam, jovens partem em busca de uma causa - o coro dos descontentes se manifesta nas ruas, arrisca-se a vida em revoltas. A vida só vale a pena quando se tem uma causa pela qual vale morrer? A luta não é mais de classe, mas de place – lugar. O lamento pela perda de espaços de subjetivação e pela descrença no consumo individualista, que não o preparou frente aos anseios existenciais. Se fantasiar e simbolizar é tratar a insatisfação, muitos perambulam no real - inferno que habita cada um de nós.  
Inez Lemos - Psicanalista




                 

domingo, 11 de agosto de 2013

LOUCA POR TRANSCENDÊNCIA


           Maria é nome suspeito, plural e mulher precisa do singular, lugar próprio para existir. Marias são muitas: rezadeira, sonhadora, costureira, pecadora. Pensa na mãe: tirana - me fazia de gata borralheira, empregada. Onde vou resolver minhas aflições, dependurar o desejo de mulher, sonhos femininos, profanos? Maria se valia da solidão, do lugar invisível que a casa lhe destinava. Queria fugir, seguir pulsão, libido, pressão. Temia o fracasso, sina feminina: viver exige mais, mulher tem que fundar enredo próprio. Maria se sustentava na cozinha - as panelas não a deixavam desabar. Nelas acalentava fantasias, encontrava substância para a escrita, se reconhecia. Maria se ancorava nos fragmentos – pé de tamarindo, broa de fubá, biscoito frito. Como garantir leis próprias, transportar as marcas, as entranhas que a vida no mato lhe proporcionava? Queria gostar do seu destino, queria ser dona do seu futuro: Essa menina parece homem, precisa aprender a ser feminina e delicada. Praga de mãe repercute, faz eco, abre crateras e funda abismos. É a partir da raiva, da corrosão que ela lhe causava que Maria pensava, falava e escrevia. Mulher, que destino é esse? Apenas uma palavra solta num mundo regido por homens. Maria nasce das ruínas, lugar maldito e destituído pela mãe: Ou casa com homem rico, ou vai ser freira. Santa ou madame - escolhas que recusava, profanava. Do abismo retirava forças para escolher outra filiação, não ser liquidada pelas profecias da família: dinheiro, maldição de fazendeiro. Delirava com outros mundos: livros, socialismo, feminismo, marxismo, psicanálise. A missão era se libertar das chagas, buscar o avesso das coisas. Precisava se encher de sentido, estancar o tédio dos enricados. Sabia que se encontraria na dor, fugir dela seria crime - desperdiçar pistas, abandonar a investigação: viver é desfazer nós, desvendar segredos. Deixar doer. Mulher é sanar feridas.
Maria chega à cidade atravessada de sertão – suas metáforas e magias. Córregos, cachoeiras, paineiras. Desde pequena procurava sua grota. Sabia que mulher carrega grotas profundas que, não tratadas, faladas e ouvidas, a enlouquecem: eu me sentia um embornal, a sacola dos tropeiros onde sempre havia prendas - bolo, carne seca. Sei guardar preciosidades, fantasias que, nesse mundo de plástico e mochilas da moda, interessa a poucos. Temia desgarrar-se de suas veredas, lavoura arcaica: viver é se embrear. Na cozinha Maria voava, transcendia. Taioba, sexo, fubá. Misturava desejo de mulher com mania de mãe. Casa, comida, fogão a lenha. Descobriu que a mulher, antes de querer gostar de plantar taioba e pimenta, precisa cansar de sexo. Precisa desacreditar de amor eterno, de carícias de homem: cozinha é para depois da cama, quando se esgota a alma iludida, lasciva. Maria já ferventou amores, fritou esperança: mulher sonha, sonha alto. De repente acorda, coloca os chinelos e vai colher taioba. Ser mulher é profanar pecados. Maldição boa. Queimar a alma na panela de ferro, desejo iluminado que transcende. Arrepiar, chorar e lamber lágrimas - quem não chora não sabe ser feliz. O choro prepara o rosto para o riso. Chorar levanta a pessoa, desperta emoção que cochila - cura tristeza, mau olhado e desesperança. Na cozinha, picava cebola, fazia angu e... pulava cercas e currais.  Precisava esquecer brutalidade de homem - acolher a revolta, transgredir. Aborrecida, encerava casa, amassava pão de queijo. Redenção? Só nos romances íntimos: vida sem intimidade não vale - só vale quando falamos daquilo que nos faz chorar ou gargalhar. Coisa que, ao falar ou ouvir, amolece a gente. Ficava mole de tanto sentir. Buscava intimidade em tudo - nas histórias de família, na chaleira envelhecida, na fruteira de cristal. Vasculhava pecado, remorso e arrependimento. Baú de segredos, buraco escuro onde guardamos os cacos – sobras pujantes de um passado de erotismo, inveja, raiva e paixões. Sentimentos embrulhados em veludo vermelho, cheirando a Madeira do oriente, perfume de tia vaidosa.
Hoje, Maria quase não vê lugares de memória, é tudo descartável. Quando quer se encontrar, perder-se em devaneios e atavismos, visita museus. Poucos gostam de rememorar, revisitar intimidades: intimidade a gente só fala pra amigos de verdade. Não é coisa pra se exibir no facebook. Quando a gente se abre todinha, sem reservas, perdemos a defesa diante do outro. Mulher tem que saber sentir e saber mostrar. Saber distrair as vozes diabólicas que pulsam, pressionam. Ser mulher é pelejar com as intermitências do coração. Coração guloso que deseja todo o tempo. Mulher não sabe economizar sentimentos, esconder fantasias. É bicho atormentado, insatisfeito.
Maria é mulher antiga, não tem facebook, nem mania de shopping. Acha as moças da cidade todas iguais. Não sabem variar, brincar com as emoções, explorar cavernas. Sedução é pra ser cavoucada - beleza que vem da estrela que cada um carrega, brilho próprio. Não é Botox, lipoaspiração. No fogão descobriu felicidade simples - como se iludir com o possível. Trabalhar com as mãos é fazer o caminho de dentro - tortuoso, esburacado, côncavo. Trabalhar só com a cabeça deixa a alma fria, desidratada. Viver é desvelar sabedorias - todos têm, ela busca.
A vida que a gente escolhe é a que aprendemos a gostar desde pequena. Aventura humana que se cozinha na subjetividade, temperada com lágrimas, risos e garra. Força que brota de dentro, como a taioba, que nasce da terra molhada. Maria reverenciava a vida, encarnava as mulheres que não abandonaram o desejo no tanque: desejo é promessa não cumprida, é fantasma que não desaparece. Na cama ou na cozinha, é sarna que não termina. Fardo. Além da dor de existir, carregava as contradições do mundo: capitalismo, machismo, racismo. Para os irmãos, bicicletas, motos. Mulher se diverte na cozinha, enrolando rosquinha. Só teve uma boneca na infância. Mesmo assim, o irmão, quando resolve exercitar os dotes de futuro médico, a mutila com ferro do pai marcar boi. Como se proteger das invasões fraternas e machistas? Os irmãos abusavam de Maria com o beneplácito dos pais. As brincadeiras, sempre agressivas, abriam um abismo em sua fragilidade cor de rosa. Descobriu que ser mulher é coisa pra macho. É peleja pra vida toda: feminino é sentimento insatisfeito que não cessa de incomodar. Gostava de debruçar a alma gulosa, fragil, cutucar abismos e arranhar sentimentos. Depois de muita decepção, recolheu as fantasias que excediam - desejos inoportunos. Mulher fraca é insuportável, tem que fingir indiferença.
Demissionária da posição submissa, da loucura feminina quando não tratada, firmou pé: ser mulher é se reinventar, é construir identidade, conquistar poder. Descobre que só havia duas opções: se fazer mulher brava e determinada, ou enlouquecer. Submeter-se, jamais! Maria foi estruturada na raiva. Precisava receber, recuperar substância, intensidade. Olhava a cidade e sentia o cimento dentro. Necessitava curar o vazio: enquanto os carros correm, eu urro por dentro. Estava pronta para a vida com poesia, senão seria se extraviar, naufragar. A salvação viria da riqueza simbólica - divindade através das palavras. Abandonar de vez as futilidades, característica das cidades do interior paulista. Ar parado, respiração ofegante - tonteira diante das vitrinas. Abundância, tédio, vácuo. Nada transcendia aos arranha-céus. Paisagem de pouca sombra, curva e metafísica. Aridez. A atmosfera seca das pessoas desidratava os miolos. Ficava aflita de tanto desejar outro mundo. Atordoada pelos berros de dentro, simulava fugir - jogar a mala, pular a janela e descer pelo coqueiro. Vasculhar novas veredas, descampar outros sertões - vida de rico é pequena por dentro, só é esticada por fora.
Como se encontrar nas mulheres invisíveis deste país, longe do reino das botas e botinas? Rezava por desespero; a mãe gostava de rezar, ela, de nadar. Mania de mandar os outros tomarem banho. Achava que, se lavando por fora, se lavava também por dentro. Um dia descobre que, para lavar a alma, precisava de mais coisas além de água e sabão. Maria não acreditava em bondade bobinha. Desconfiava do calvário feminino, lugar instituído pela mãe: Mulher tem que aceitar a cruz, fazer mortificação, se entregar ao sacrifício. Vaidade pura, humildade é gostar de aparecer pelo sofrimento. Recusava, aos olhos dos outros, ser reconhecida como heroína. Não queria ser exemplo pra ninguém, apenas inventar a si mesma: precisa mais? Uma Maria entre tantas: cheia de graça, sem graça, sem santidade e sem véu. Desvelada. Pecados todos têm. Família é lugar de injustiça. Quando muitos filhos, o amor não dá para todos. Sempre falta: mãe gosta de dar mais amor pra filho homem. Mulher, na roça, tinha que se virar com o amor dos animais. Admirava as galinhas - alegres, assanhadas, histéricas: porco é preguiçoso, sujo, lambancento. Cavalo, macho elegante, nasceu pra conquistar. Há homens que conquistam só de chegar e olhar. Até dói.  Gostava de homens e de cavalos.
Com a magia dos rios no peito, escrevia para desatormentar a dor, sustentá-la na esperança: não se pode matar a angústia, ela carrega sinais que nos salvam e nos garantem voo ontológico. Era encantada com as palavras. Existem palavras moles e palavras duras. Com elas esvazia-se a alma incendiária e faz-se belezuras. Sua diversão preferida era sentir: hoje as pessoas preferem comprar que sentir e gostar. Ficava molhada de tanto sentir - arar o passado, apaziguar fantasmas, diabruras subterrâneas. Fantasias que nos protegem da loucura. Como se abastecer de histórias em que cochilam vivencias consistentes e saborosas? Maria não conseguia olhar para as panelas e não ver transcendência. Cozinhar é produzir sentido - colocar de molho sentimentos, palavras. Temperar, junto com a carne, mágoas e ressentimentos. Marinar consciência, preparar o perdão. A história que ensaio contar é tecida na brasa - fogo que arde, emoção que afaga e toca um pedaço do céu. O encontro da mulher com a verdade, a linguagem certa para nela se afirmar. Quando isso acontece, é epifania, alegria esfuziante.  

Inez Lemos