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e entusiasma a alma.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A VIDA NO SIMULACRO

Inez Lemos

O capitalismo sobrevivi das neuroses humanas. Cada época produz sintomas que definem seu tempo. Sem as patologias, o lucro dos empresários seria infinitamente menor. As histéricas não passariam as tardes nos shoppings adquirindo quinquilharias que não necessitam, os homens não teriam tanta fissura por carrões e os jovens tanta obsessão pelo mundo virtual. Os objetos deixariam de cumprir o papel de objeto fálico, e a humanidade não seria tão insatisfeita. Ou depositaria menos na aparência e no consumo a solução para as angústias e frustrações. Outros tampouco ocupariam o lugar de submissão e exploração, se entregariam menos ao sacrifício e masoquismo. Ao tratar as neuroses, procurariam saber de suas faltas - onde fracassam, derrapam. No processo analítico, mudariam de posição diante da vida.
Os objetos de ostentação servem para suprimir uma falta, uma ausência. Se nos sentimos frágeis, inseguros ou infelizes, se a vida não está como desejamos, a tendência é buscar fora de nós algo para nos completar. Aditivo narcísico: adicionar algo com o intuito de melhorar a imagem. Há a ilusão de que, ao portar um objeto valioso, ele nos colocará numa posição de prevalência, superioridade. Ao consumir, seja objeto ou imagem, a ordem é nos distrairmos e nos desviarmos do verdadeiro desejo.
O desejo que interfere nas escolhas é inconsciente e resulta das idéias que circulam na linguagem, portanto, o inconsciente é contaminado pela linguagem. Se na era digital as crianças estão sendo estruturadas na linguagem virtual, on-line, significa que a matriz psíquica está se realizando de outra forma. E a função paterna e materna está se processando mais na internet do que nas mesas de refeição.
Qual a educação sexual que os adolescentes estão recebendo via internet? Por que a garotada não desgruda os olhos das telinhas? O que elas oferecem de tão interessante que muitos nem comem direito, tamanha a fissura pelas imagens? Que magia é essa capaz de cooptar full time corpo, mente e coração? A maioria só existe se estiver acoplada ao seu aparelho, sem ele torna-se órfã de si mesma.
O tablet, além de aditivo narcísico, é o cabaré da vez. Num mundo repleto de imagens, onde há muito que ver e pouco que ler, o prazer deslocou-se do corpo real para o corpo imagem. Tocar, olhar nos olhos, sentir a pele do outro se tornaram emoções ultrapassadas, em desuso. Não estaria, essa nova forma de viver a sexualidade, aprofundando o desamparo, hiância inerente ao ser humano, sensação de que algo está faltando? E como fica a vida afetiva quando a máquina passa a ocupar o lugar do outro - o corpo no real não é mais objeto de desejo?
A mídia nos avisa: “Pornografia on-line influencia relações entre jovens, tornando-as estereotipadas e, às vezes, perigosas”. Filmes de conteúdo explícito inundam tablets e smarphones. Neles, jovens e adolescentes iniciam a vida sexual. O corpo é apenas uma imagem usada para garantir o orgasmo. Nada de fantasias sexuais, erotismo, preliminares. As imagens são nuas e cruas - um festival de genitálias garante o prazer rápido. Tudo acabado, é só iniciar novamente, sem trabalho de esperar pelo outro ou ouvi-lo em suas questões íntimas. Quais as conseqüências de crescer acreditando que o que se vê nos vídeos é a forma adequada de se iniciar sexualmente? Onde estão os pais e educadores? As famílias e as escolas não se ocuparam em construír argumentos  eficazes ao contrapor os conteúdos pornográficos que circulam na internet?
Não, a questão não é progresso, tampouco moralismo, mas sonhos. Avançamos em tecnologia, mas a concepção sobre a existência humana continua precária, imediatista, objetiva. Como encetar mudanças estruturais, práticas sociais e culturais, sem que a condição humana seja desrespeitada? Como ansiar por práticas sexuais menos violentas, menos estrupos, quando os jovens que educamos não são inseridos nos limites da lei? Como afirmou o psicanalista Hélio Pellegrino, sem pacto edípico não há pacto social. Sem que a criança internalize a lei, os limites da convivência humana é impossível a experiência harmônica e civilizada. Toda relação sexual implica um outro, que, por sua vez, esbarra em questões éticas, de respeito e cumplicidade.
A literatura clássica trata o sexo com erotismo. Eros – deus do amor, personagem mitológico. Mito, magia, fantasia. A arte é a forma poética de expressar aspectos da vida. Por meio dela, comunicamos o cruel, o feio e o encantador. O sexo, se tratado sem poesia e arte, além de grosseiro, é broxante. A questão está no desinteresse pelo outro, vivemos a falência da alteridade, do prazer compartilhado. A vida sexual dos internautas, robótica, solitária e operacional, é um arremedo do prazer conquistado pelos amantes.
O orgasmo na era digital é cópia imperfeita do que muitos casais, no real do sexo, já conquistaram. O capitalismo falsificou natureza, objetos, verdades. Não satisfeito, passou a falsificar o amor, o prazer e o orgasmo. Desinteresse é quando não interagimos, não participamos do banquete. É quando entramos apenas como consumidores, não nos julgamos autores da obra, apenas espectadores. Os jovens, ao tocarem apenas uma tela e dela extrairem prazer sexual, perdem a oportunidade de construir uma grande história de amor.  
O progresso tecno-ilógico dizimou a esperança do encontro amoroso, esperança de vida feliz. Não falo de sonhos impossíveis, mas de felicidade cunhada na prosa, no cotidiano das almas carentes de transcendência. Amor é fantasia pra ser fantasiada, ilusão pra ser iludida. Sem isso, o sexo é osso duro de roer. A violência entre os jovens revela a face maldita do mundo pós-industrial. O romantismo perdeu sentido. Coisificaram o amor, reificaram o sexo e objetivaram as relações. De coisa em coisa, cavamos o abismo ôntico. Como recuperar a crença nos encontros, como torná-los “eternos enquanto durem”?  No antigo imaginário feminino, prazer é picar couve, cantar e esperar o coração se descortinar, desvendando descampados, superando erosões. O amor exige tempo, há de se descongelar os sentimentos e decifrar as intermitências do coração.
O melhor do encontro é o que escapa, o que foge ao roteiro e nos envolve em enredos inusitados. O elemento surpresa garante a intensidade do êxtase. A literatura erótica conduz o leitor ao mundo fantasmagórico, enquanto nos vídeos o usuário entra em contato direto com a imagem, limitando o campo da fantasia. Erotismo é colocar poesia na pulsão, desviá-la do real. Sexo ao pé da letra. Coisa gostosa é sentir arrepios quando somos invadidos, assaltados por um olhar inesperado. Mas isso é outra coisa, é viagem feminina. E das antigas. Papo de outrora, quando as mulheres iam para a cozinha embalar lembranças de uma noite de amor. É quando elas descobrem que para gostar de panelas e fogão, primeiro precisam ser feliz na cama.
Mulher sonha, sonha alto. E de repente acorda, coloca os chinelos e vai colher girassóis. Ser mulher é profanar pecados. Maldição boa. Aquecer a alma nas panelas - desejo iluminado que transcende. Arrepiar, chorar e lamber lágrimas - quem não chora não sabe ser feliz. O choro prepara o rosto para o riso. Chorar levanta a alma e desperta emoções que cochilam, cura tristeza, mau olhado e desesperança. Na cozinha, enquanto se pica cebola, faz angu ... pulam-se cercas e currais. Sedução é metáfora, é encantar o mundo com a linguagem de dentro. Como nos lembra Adélia Prado: “Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento”.  
O amor no feminino é busca eterna. Busca-se algo que transcenda o cotidiano, o tempo ordinário que nos consome em sacolões, bancos, trânsito. Ela quer olhar para o mundo e enxergar beijos, afagos, bossa nova, jantares a luz de velas, viagens. Homens, isso é a mulher - ela não esquece o desejo de subir montanhas, serras. É no topo do mundo que ela quer depositar o seu orgasmo, é lá que o seu corpo anseia testemunhar prazer, o prazer de sentir o feminino vasculhado pelo masculino. É nas alturas que ela quer reverenciar o êxtase de tocar um pedacinho do céu.
Isso, invadam a sua alma, arrebentem as entranhas e acariciem as ilusões de que, pelo menos naquele momento ela é única. Contudo, muitas garotas de hoje, ávidas consumidoras de pornografia on-line, assistem às perversões mais doentias. E isoladas, mergulham no simulacro de uma relação sexual, arremedo de vida feliz. E, desacreditadas de que alguém possa levá-las ao orgasmo, se viciam no prazer solitário. Vitimas do excesso de filmes de conteúdo explícito que distorcem, estereotipam e espetacularizam o que deveria, com recato e na penumbra, ser realizado em tempo real.      


quinta-feira, 6 de março de 2014

EDUCAÇÃO OU BARBÁRIE


Inez Lemos[1]

            O Brasil colonial era movido pela força dos negros africanos, tratados como animais de carga e transporte. Cabia aos escravos a função de transportar a realeza. Quando chega o automóvel, esse desponta no cenário como símbolo aristocrático, se distanciando da população, que contava apenas com o bonde e o trem. O carro segue como símbolo de superioridade social. Eis o imaginário que define a rotina do motorista que se julga superior por ostentar carro importado, reiterando a lógica da hierarquia social. É o cidadão que tem certeza de seu direito de curtir a noite, se embriagar, correr e matar.
Dificilmente nas rodas familiares os chamados “cidadãos de bem” discutem a postura do mais rico e poderoso em relação ao uso do espaço público. Qual o imaginário que permeia entre eles? Como construímos a hierarquia do rico sobre o pobre? Embora presenciemos demanda por intervenção e correção aos abusos cometidos no trânsito, sabemos que há um discurso direcionado ao outro (infrator) e um diferente quando somos nós, de melhor poder aquisitivo, a bola da vez. Situamos fora de nós o processo de conscientização que possa garantir melhoria da convivência no espaço urbano. A guerra  só se intensificará se não repensarmos posturas elitistas e racistas que reforçam o viés hierárquico. A dança é nossa, embora poucos se ocupem em lutar pela igualdade de todos perante as leis que regem a cidade.
Na moderna dinâmica social convivemos com o cinismo, a desfaçatez. Características do jeitinho brasileiro, hipócrita e obsceno - o mesmo que permite ao motorista responsável por mortes no trânsito se esquivar da penalidade. Seja comprando o policial de trânsito, a justiça ou os familiares da vítima, quando essa é pobre, negra e inferior. Como lutar e exigir punição aos criminosos, realidade que ameaça todos nós, vítimas de jovens que crescem acreditando na superioridade dos ricos sobre os pobres, do carro sobre o pedestre, do aeroporto sobre a rodoviária? Os nostálgicos do glamour imperial e escravocrata, no fundo, defendem a impunidade dos crimes cometidos por um de seus pares – brancos e bem nascidos. Lembramos que no Império fazendeiros que se opunham à escravidão eram também donos de escravos.
A mídia expõe as contradições de uma sociedade dividida. De um lado há os que se viciaram em julgar bandido apenas o menor infrator que nasceu na favela, cresceu entre traficantes, não teve oportunidade de estudar em boas escolas e, consequentemente, está na rua cobrando o que a vida lhe deve. Para ele não há outra saída senão os cárceres de Pedrinhas – amontoados de gente, ratos e torturas. O clamor por justiça e punição é ferrenho quando o réu vem do lado de lá. O grito por segurança ecoa nos jornais. Contudo, sabemos que a violência deve ser tratada como sintoma, como um aviso de que as coisas andam fora do lugar. É mais uma questão política, social e cultural do que de polícia. Nenhuma criança nasce bandida, criminosa. Ela assim se torna em função da forma como foi educada e inserida na cultura. 
Bandido é significante vazio. Uma criança não escolhe o mundo do crime por deleite, por ser raça ruim, gente imprestável, negativo social. Dificilmente, vamos à rua exigir punição para o vizinho da Zona Sul - filho de um amigo empresário. A criança que vive sob a cultura dos milicianos, que controlam a região onde vive, cresce sob a lógica da vingança e da corrupção. A lei dos milicianos, um Estado dentro de uma comunidade vítima da falência do poder público, é ferrenha. Não há segunda chance. O bom educador sempre aposta na recuperação do ser humano, quando a ele é dada oportunidade de repensar atos e conhecer o outro lado da vida. Na rua ele aprende a se defender apenas com armas, o poder dos excluídos. Enquanto que nós aprendemos o poder da palavra, da teoria, dos estudos e de uma boa profissão. O que revela que os bandidos que julgamos irrecuperáveis no fundo são humanos e carentes como nós. A diferença é que a vida é mais generosa com uns que com outros.
A vingança aos infratores, recomendada por gangues que operam à margem da lei, faz apologia à barbárie, justiça com as próprias mãos. Culpam a ação dos direitos humanos e das ONGs que defendem o direito à infância com lazer e escolas bem equipadas. Com cinismo e ironia, não vamos enfrentar essa tragédia social. No Brasil às avessas, o bandido é vítima de si mesmo. A delinqüência é efeito de uma autogestão burra e perversa. Revolta, vingança e violência. Eis o caldo que cozinhamos quando julgamos a manifestação do problema como se fosse o problema. Os fatos de forma simplista, com argumentos obscurantistas e pouco consistentes. A vida não se resume em culpar, punir e condenar. Seria fácil se a questão fosse apenas o rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade. Ou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o estatuto da Impunidade, como muitos julgam.
Seja rica ou pobre, se a criança não foi bem acolhida, ou se não foi interditada em suas pulsões destrutivas, as chances de cair na delinqüência são grandes. Falta ou excesso de amor? Educar é simbolizar sobre o certo e o errado. Não adianta pressa, o ser humano demanda tempo para entender as contradições da vida e dos sentimentos. Ódio, frustração, humilhação. Sentimentos que atravessam o corpo e bate fundo o coração. Talvez esse percurso nos ajude a questionar o que tem levado adolescentes a mergulhar na violência e no crime. Uma leitura ampliada sobre o sujeito e a sociedade em que estão inseridos. Uma comunidade implicada no sofrimento dos que vive a desesperança. Diante da condenação, tão somente, o futuro já nasce morto. Interessados em investigar os atos antissociais, e sem medo de rever posturas petrificadas, é hora de nos unirmos diante do caos. Ou escolhemos educar as crianças com rigor, carinho e oportunidades, ou mergulhamos na barbárie.   
Ao atacar a epidemia da violência, deveríamos traçar linhas de condutas preventivas (longo prazo) e curativas (curto prazo). Pouco se debatem propostas preventivas que dificultam que a criança se refugie na delinqüência - propostas que abordem aspectos sociais e subjetivos. Em vez de deixar o caos se estabelecer para, então, agir de forma truculenta, melhor seria pesquisar ações efetivas que atuam na raiz da questão. A cobiça que gera violência e crime é mais a forma como o desamparado, que vive a privação afetiva, simbólica e material, enfrenta os conflitos que um mal em si. A peste que recai sobre as almas miseráveis, que cresceram cultuando a vingança (quando se é pobre), sem chance de descobrir outros motivos para se viver, senão roubar do outro algo que lhe provoca inveja e revolta. 
Outro exemplo de leviandade no trato de questões profundas é como estamos debatendo a questão da maioridade penal. Agimos como adolescentes afoitos em assegurar os anseios a qualquer custo. “Quero por que quero uma sociedade segura, onde os filhos possam circular livres dos drogados, delinqüentes e criminosos”. O rebotalho social que atrapalha o gozo dos abastados. O discurso pró-redução da maioridade penal deflagra a desfaçatez com que julgamos o fracassado, o excluído. A vida é percurso abissal, descida fecunda aos abismos da alma humana. Pouco se pode falar sobre o drama do vulnerável, sujo e fedorento, que nasceu quando não deveria, e cresceu como animal - sem noção dos códigos que regulam a vida social. Contudo, mesmo sem ser promovido a sujeito, deverá responder pelos seus atos.
Esses menores são filhos do descaso dos pais e governantes - efeito da desigualdade social, da impunidade aos corruptos que, sem pudor, lesam o erário. Dinheiro que deveria garantir uma juventude com emprego e perspectivas, além de políticas públicas eficazes como planejamento familiar, inserção em atividades culturais e esportivas. A cultura do extermínio, que apregoa a exclusão aos que incomodam, é absoluta. A solução deve ser engendrada de forma ampla, investigando os motivos que levam uma criança, desde cedo, a “escolher” o caminho do crime. Punir por punir mais revolta que recupera. A forca é o último recurso. O criminoso habita todos nós, basta deixá-lo livre, não inseri-lo nos limites da lei - metáfora paterna.  
A maldade não escolhe conta bancária, é da condição humana. Inútil querermos aplacá-la apenas com prisões, quando sua origem deve ser simbolizada. Questão  complexa e que esbarra no outro - essa relação que determina e regula o desejo. Mais   eficaz seria criarmos um movimento exigindo mudança na forma como o Brasil educa as crianças. Expandir o olhar diante do outro – estupor e vergonha que produzimos.




[1] Inez Lemos é psicanalista

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

VINGANÇA NAS REDES SOCIAIS


Inez Lemos[1]

            Ao escrever sobre relações afetivas contemporâneas, quando a tendência é   expressar os sentimentos via ondas eletromagnéticas, o que está em questão é uma profunda mudança na produção da subjetividade – um novo sujeito e uma nova forma de vivenciar as pulsões: amor, ódio, vingança, inveja, ressentimentos. Outrora, ao falarmos de sentimentos, transportávamos o pensamento para um outro lugar - arrastávamos as entranhas para o mundo íntimo. Um mundo que, ao ser acessado, requer um pouco de silêncio e concentração, centrar no que nos causa estranhamento. O silêncio, por sua vez, requer tempo - tempo é a mediação que viabiliza contato com a vida interior. Sem ele dificilmente questionamos o modo de ser e estar no mundo.
            Vivemos a mania dos smartphones e tablets. Tornou-se comum entre a moçada   agendar as relações afetivas e sexuais on line. O tempo é o tempo virtual, é nele que se vive, se ama e se tenta resolver os incômodos. A vida íntima, os conflitos, logo é registrada em redes sociais. A questão que destacamos é a qualidade das relações, como os jovens estão elaborando a sexualidade, algo maior que envolve perdas, pernas e corações. Nem todos conseguem desvincular o ato sexual dos sentimentos. Relação implica duas pessoas se envolvendo, trocando profundezas. Intimidade não se resume em tirar a roupa e ir para a cama, mas desnudar, aos poucos, as camadas internas. É quando escolhemos quais as páginas da alma que queremos mostrar ao outro. A vida afetiva exige mergulho nas entranhas. Amar é entranhar, revisitar poços, cavernas e grutas.
            Como resistir à efemeridade nas relações, a não adesão à banalidade dos sentimentos? Como expressar o descontentamento com o rumo do mundo, quando tudo se transforma em espetáculo, circo midiático? Uma transa vira notícia no facebook, a viagem e o carro novo têm que ser postados. Exibimos a fartura, a abundância, a beleza e o sucesso. E como fica a vida quando tudo é precário, fracasso e pobreza? Não seria a violência, a criminalidade e os rolezinhos - o urro que destoa da manada, a boiada que sofre a exclusão? A obsessão em priorizar o consumo - a arrogância fascista de se impor pelo dinheiro define os traços de uma sociedade desigual e injusta. A maioria dos pais está ocupada em tamponar a falta do filho com objetos, máquinas e mimos. Poucos pensam em uma formação humanista, uma outra concepção de mundo. Qual o lugar que queremos que o nosso filho ocupe? O de bem sucedido, rico, estúpido e machista? Os monstrinhos de hoje serão os bandidos de amanhã. Ou será que julgamos monstros apenas os excluídos, que crescem sendo humilhados, destruídos pela desfaçatez daqueles que se julgam melhores por transitarem em carros importados?
O debate questiona o tempo e seu papel na educação das crianças. A forma como os jovens amam, pensam e circulam pela vida remete à postura dos pais. Família, cidadania, ética. Palavras desgastadas diante da fissura em locupletar. O pai não tem tempo para conversar com o filho, a mãe julga mais importante a academia e o salão de beleza. Tudo é prioritário quando se trata de cumprir com as funções paternas e maternas. Tempo, esse desconhecido quando o assunto é educação de filhos. Contudo, ele é o elemento que possibilita aos pais imprimirem nos filhos a marca, o diferencial de cada família. Como educá-los priorizando experiências em que viceja intimidade, interioridade? Relações sem viço são frouxas e expõem a descrença dos envolvidos na potência dos sentimentos. A qualidade da convivência confere sentido à vida, o fio que une brota de dentro. Dificilmente estabeleceremos relações douradoras apenas por satélites.
Nas redes sociais a comunicação é mecânica, a máquina mediando um espaço coletivo, espaço de pouca elaboração onde o tempo é fruição sem maturação. Tempo imediato e não mediato. A internet é um recurso excelente para se trocar visões de mundo, encontro de idéias e debates. A obsessão em registrar intimidades em rede atesta a superficialidade da nova ordem amorosa. O mundo virtual em que os afetos e desafetos são postados lembra o Coliseu romano. No Império Romano, a diversão da plebe era torcer pelos gladiadores. Hoje, a juventude se diverte digladiando uns aos outros na arena virtual. As feras soltam o veneno da inveja, ciúme e ressentimento. O palco cibernético é o escolhido pela moçada – muitas garotas se despem e oferecem aos namorados materiais para possíveis vinganças. 
O Brasil é um dos campeões em usuários de celulares e redes sociais, contudo, os índices não são suficientes em garantir qualidade nos conteúdos das mensagens. Não avançamos na forma de trabalhar os sentimentos danificados. O ressentimento não elaborado transforma-se em vingança – sentimento que nasce do retorno dos desejos vingativos sobre o eu. Ao querer se livrar dos incômodos, agimos sem pensar, sem tentar saídas honrosas. Logo, lançamos sobre o outro a fúria, caldo fermentado na crueldade. Sentimento tóxico que adoece a alma indigente e impiedosa. Destacamos a importância daquele que deseja lançar a espada sobre o seu algoz, de se implicar e analisar o teor da vingança - dívida adiada, acumulada. A vingança é a tentativa de reparar o sentimento de ter sido lesado. Uma reparação fajuta, uma vez que o alívio incide apenas em privar o outro de algo – se eu não a tenho ele também não a terá.
O sofrimento, sensação de perda e necessidade de se sentir superior expõe a frustração de não ser o que gostaríamos de ser – o eu idealizado confrontando com o eu real. Ser amado e aceito é um mecanismo de defesa, idealização de proteção. Fantasia que ameniza a sensação de desamparo e abandono. Dependência garantida. O que está em questão não é o amor que sinto pelo outro, mas a dor que sentirei ao perdê-lo. A propriedade é fantasia de proteção, defesa contra a tragédia do desamparo. Sentir amado  é deparar com a necessidade de escapar da angústia, do medo e da loucura. A traição é uma forma de fuga, de escapar do que realmente importa – a não consciência de si. É o ato de se excluir de uma determinada situação, um acordo que fazemos com a incapacidade de explorar os conflitos afetivos. Todo desejo é conflitante.
O ato de tentar escapar ileso, de não se implicar, demanda pouco esforço. Atravessar os incômodos é mais difícil que suplantá-los. O desejo de punição exposto na web, a chamada pornografia de vingança, é a versão atualizada da violência de gênero. E deveria contribuir para o debate sobre a forma como os jovens estão sendo educados. Machismo, homofobia e racismo apontam rejeição ao diferente e deflagra uma educação elitista, patrimonialista. Talvez falte às famílias introduzirem o dabate sobre temas e conceitos sociológicos e antropológicos. Saber perder, saber lutar, questão necessária quando o assunto é um mundo menos violento. A violência é efeito da frustração. Sem refletir sobre perdas, exclusão e humilhação, pouco podemos esperar dos jovens. Geração que aprendeu a exigir e pouco sabe sobre trabalho e conquistas.
            Deixar frustrar, suportar que o filho entre em contato com a dor pela perda da ilusão da superioridade. Saber do fracasso é se preparar para a satisfação, é dar conta de assumir o lado obscuro, a lama que habita cada um de nós. Cultivar a frustração é manter a ilusão sobre nós mesmos. Quanto mais frustrados, mais ressentidos e vingativos. Se o desejo advém da falta, negá-la é manter-se na repetição, na mesmice. Enfrentar as próprias mazelas, se implicando e se responsabilizando pelo fracasso, é transformação, ação sobre o sentimento.
Como enfrentar a dor se não paramos o caminhão? É na boleia, no ir e vir da vida, que a compreensão se processa. Ao nos proteger da raiva de se saber pior, mais feio ou menos poderoso, algo tem que se romper e abrir espaço para bons sentimentos. Perdão, tolerância, compreensão. A vingança, o desejo de fazer o mal é a incapacidade de estabelecer contato consigo e com os outros. Quando vivemos afastados de nosso âmago - lugar onde jorra emoção -, nos privamos de esperança. Como lutar por sentido e se extasiar pela alegria da conquista? Viver a secura do mundo, desidratado e pouco  recompensado por práticas afetivas consistentes, é cunhar loucura. Devastação. No deserto, as almas indigentes de sentido denunciam a descrença no futuro. Atos descabidos e enlouquecidos. O excesso ou a falta de esperança os condenam ao tédio, enfado - pouco há a desejar. Violência e vingança são apelos ao limite, o grito de socorro pela irrelevância da vida, quando tudo é permitido. Seres deformados pela promessa de prazer eterno. Covardia é pecado difícil de ser perdoado, uma vez que não há vida humana sem passar pela experiência da dor. Saber viver é saber conviver com a falta. Ser onde não tenho, eis a questão.    



[1] Psicanalista. Artigo publicado no Pensar em 25/01/2014 – Email: inezlemoss@gmail.com

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Existência tóxica[1]

Inez Lemos [1]

            Como prevenir para que os filhos resistam às adicções - drogas, álcool, internet? A pergunta de uma mãe expõe o dilema que muitas vivem. Iniciamos pelas substancias tóxicas. Como elas entram na vida dos jovens? É possível identificá-las como um aditivo narcísico, um ponto de apoio, um suporte. Elas chegam, muitas vezes, amparando uma crise de insegurança. Desconfiança, medo, incerteza. O mundo está cada vez mais inseguro e as profissões cada vez mais fragmentadas. Amigos, amores? Quem são? Festas ou baladas regadas a remédios controlados? Nas casas noturnas consome-se, como estimulante, Ritalina – medicação indicada no tratamento do chamado “déficit de atenção”. O ato aponta gozo em transformar o lícito em ilícito.
            Prazer ou a luta incessante em escapar do vazio - pavor ao deparar com o caos interno. A dor é fato, toda faxina nas entranhas causa medo, insegurança. Ninguém amadurece emocionalmente sem enfrentar os leões que rosnam. O problema das adicções desvenda a fragilidade descomunal identificada entre os jovens. A ferida narcísica, o Eu em frangalhos enlaça o parceiro - objeto que promete anular a dor de existir. E revela a necessidade de companhia na travessia. O vínculo com o objeto transforma-se em dependência. Como tamponar o buraco no meio do caminho? Se a passagem da infância ao mundo adulto e de responsabilidade não é tranqüila, se a ameaça diante da autonomia os apavora, vale dizer que os jovens não estão sendo educados para assumirem o duro fardo da existência?
            A questão existencial caminha junto à questão cultural, uma é efeito da outra. O pensamento é resultado das condições materiais, ele não surge do nada. Vivemos a pós-industrialização. Se não há mais emoção na aquisição de objetos de consumo, outros objetos devem ser solicitados na busca por satisfação. Se o sensacionalismo está para além do consumo ordinário, exigimos, cada vez mais, algo extraordinário. Como e onde  garantir sensação e excitação, quando tudo se tornou permitido?
 A fissura se expande a outros campos, outros tipos de adicção - além do alcoolismo e da toxicomania. As paixões deslocaram-se. Muitas se tornaram tóxicas - o amor vampírico envolve pactos sinistros e promessas mortíferas. Como apostar em um futuro marcado pelo excesso e regado a venenos – drogas tarja preta? O olhar morto não vislumbra esperança. Todo amanhã é devir que exige garra na construção. Diferente da vida fácil, oferecida pelos pais. O barro da existência é amassado diariamente.  
            A fissura pelo máximo de prazer e sensação infinita provoca alguns delírios, efeito de uma falha no conceito de prazer. Presenciamos a loucura pelo fetiche, muitos são movidos pela ilusão de que estão sendo privados de um grande encontro. Logo, percebemos confusão entre prazer e adrenalina, a necessidade de se dopar e se anular com objetos maléficos. A fissura pela entrega, pela fuga, denuncia a alma mutilada.
Na era cibernética, a massa é convocada por um líder que, de plantão, controla, manipula e seduz o espaço virtual 24 horas. A sorte está lançada. Como resistir aos convites? O uso do objeto é livre. Poucos pais regulam o tempo diante das telas. Não há uma lei que proíbe o jovem de passar a noite diante de uma máquina. O viciado em redes é um adicto, como o toxicômano ou o alcoolista. O internauta não reconhece o vício, e os pais tampouco vêem inconveniente na adicção virtual.
            Adicção é a compulsão por um objeto. O sujeito é dominado pelo ato repetitivo e irrefreável. Estabelece-se uma relação compulsiva - determinada pela fissura de se entregar ao objeto em total submissão. O corpo, escravo, obedece. Vários são os objetos de adicção ofertados pela sociedade atual, além das drogas de ação psicotrópica e o álcool. Podemos incluir: sexo, comida, tabaco, esportes, TV, computador, celular, trabalho, consumo, academia, jogo, entre outros. A questão não está nos objetos, mas na relação que se estabelece com eles, no uso que se faz deles. Uma vez que é utilizado de forma saudável, pontual, cumprindo apenas o papel que lhe é devido, nada a ressaltar. Contudo, quando o sujeito perde o interesse pelos outros objetos e se fixa no mesmo, direcionando a libido sempre a ele, reduz-se o campo de ação. Ocorre um empobrecimento do mundo externo e interno – uma vez que o viciado perde a liberdade de decidir entre usar ou não usar o objeto. Quando não se é livre para escolher, resta se submeter.
            O psicanalista Decio Gurfinkel resgata a raiz etimológica da palavra: “o adictu era, na Roma antiga, a pessoa que, incapaz de saldar uma dívida, tornava-se escrava do credor, como forma de pagamento. Em outros termos, trata-se da antiga lenda do indivíduo que vendeu sua alma ao diabo, e ficou aprisionado e refém de seu salvador/algoz”. A relação de alienação coloca os objetos de adicção na posição de imprescindíveis. É quando ocupam a lugar da necessidade e não do desejo, provocando  distorção no funcionamento pulsional. Se a relação com o objeto migra do desejo para a necessidade, constata-se uma inversão na lógica do prazer. É neste momento em que os convites se deslocam do: “vamos sair, conversar e tomar um vinho”? Para: “vamos tomar todas”?
            A adicção, grosso modo, pode ser definida como o sintoma de um tempo em que o afeto, o pensamento e a reflexão sofrem uma atrofia. A moda é o indivíduo operacional, a tônica está na ação e não nos sentimentos. Lidar com as fantasias tornou-se banal. Banaliza-se a vida interior, o foco é o desempenho. Todos são julgados pelo salário, pela profissão, pelo corpo. Pouco vale a forma que escolheram viver, se estão felizes, importa serem bem avaliados pelos auditores financeiros. Na lógica do agir, ingerir e consumir, pouco tempo resta para sentir e pensar. Meio ao excesso de teclas e botões, padece uma juventude carente de sentido. Angustiados, lutam por sobreviver ao déficit simbólico a que estão relegados.
            A obsessão limita os movimentos do indivíduo, paralisando o olhar em uma só direção - congelando emoções e sensações. O sintoma do mundo coisificado é o empobrecimento afetivo e simbólico. O sangue corre para um só objeto, fazendo do obsessivo um demissionário da vida emocional. Dominado pela dúvida, procrastina, adia. Viver é apenas uma operação. Uma técnica a mais.
Pouca coisa vale além do mergulho mortífero no objeto – objeto causa de fissura. Porém, sem um ponto de basta, sem ruptura na cadeia pulsional, resta pouca esperança. Seja na impulsividade, agindo sem pensar, ou na obsessividade, deixando de agir por pensar demais, ambos acusam desajuste - dessintonia com o eixo subjetivo. A relação com o objeto de adicção sustenta o paradoxo – ao mesmo tempo em que alivia, conforta e provoca sensação de proteção, acusa, também, submissão à devoção e devoração do objeto - causado pela posição de escravo.  
            O efeito passageiro do ato adictivo o coloca na posição de objeto transitório e revela as conseqüências nefastas de uma relação parental frágil e danificada. O vínculo que estabelecemos com os objetos (drogas, álcool ou outros adictivos) denuncia a forma como fomos acariciados e amados pelos pais. Quando há ruído nas relações familiares, o sujeito fica exposto aos efeitos de um Eu fraco, mal enraizado e carente de boas referências.
Para J. McDougall: “...a necessidade de objetos externos em forma de sexualidade compulsiva ou de abuso de drogas é evidência de colapso dos processos de internalização. Os atos adictivos são incapazes de reparar a representação estragada, seja do pênis ou do seio, no que se refere à sua significação simbólica. Aliviam a angústia apenas temporariamente e, portanto, adquirem qualidade adictiva pelo fato de terem de ser continuamente buscados”.
            Se somos marcados pela forma com que incorporamos vivências, afetos, se são eles que nos movem, aos pais resta o alerta: educar filhos é função que exige muita dedicação e responsabilidade. Não é tarefa para qualquer um. Muitos não querem arcar com tanto trabalho e implicação. É fundamental diferenciar o desejo de torna-se pai ou mãe, do desejo de cumprir com a paternidade/maternidade.
Se somos livres ao escolher entre ter ou não ter filhos, uma vez que os temos, o dever é oferecer boas referências, lembranças enraizadas no afeto. A criança que foi privada de uma relação boa com os pais, que incorporou fragmentos danificados, é forte candidato às adicções. O adicto é um visionário. Além de idealizar as qualidades mágicas do objeto, cria o conto de fadas para nele reinar. Quando o objeto é mais forte que ele, acaba se submetendo às suas bruxarias.                             



[1] Artigo publicado em 14/12/2013 no caderno Pensar do EM.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

ADEUS AO PAI

Inez Lemos

Lázaro, nome suspeito, evoca sacrifício, dor, castigo. Papai desafiou os desígnios bíblicos, fazendo do nome o seu contrário. Reverenciou, ao longo da vida, a liberdade, o despojamento, a simplicidade e a alegria. Alma ingênua, não habitada pela maldade. Apressado, corria para tudo, era a própria pulsão. Talvez fosse marcado por uma urgência da qual não sabia. Nunca sabemos direito o que nos movem, mas papai era movido pela boa ação. Em cada canto que teve fazenda, adotava um. Muitos empregados tornaram-se agregados - quando iam trabalhar com ele, de lá não queriam mais sair. Um Pai avançado, nada moralista. Sua moral era liberdade com responsabilidade. Educou os filhos na autonomia, ensinando, desde cedo, que cada um deveria aprender a cuidar de si. Avesso a fofocas, um dia, diante de uma, me chamou e disse: “Minha filha, os passarinhos estão cantando além do que deviam. Portanto, saiba cuidar de tua vida, se você fizer alguma besteira, o azar é teu”.

Sua vida resumia em: fazenda, família, igreja, jornal, cervejinha (engolida de uma só vez), um cigarrinho (escondido de mamãe), o Corintias e, claro, Truco!!!!!!!!!!
Não soube ganhar dinheiro, sua riqueza era a alegria - Sempre. Nunca reclamava de nada. Coração largo, bolso solto - principalmente para os de fora. Longe da aparência, nos ensinou a essência. Logo cedo, descobri que com ele não havia chance. Moleza é rosca que não tem osso. E a vida, luta a ser travada por si só. O desafio estava lançado. A existência como estrada - uma caminhada inventada e reinventada diariamente. Contar com as próprias forças, os próprios recursos. Imprimir a tua marca, não fugir da peleja de se saber só. Não envergonhar da tua singularidade. A felicidade é um conceito, construa a tua. 


Homem do sertão, da botina e do embornal. Avesso a modismos, aos filhos restava enquadrar na vida autêntica que lhes oferecia. Não queria ser exemplo para ninguém. Cada qual deveria cultuar a própria alma. Lugar onde habita o melhor de nós, os valores que escolhemos – o que queremos deixar e como queremos ser lembrados. “O que eu adorei em ti, foi a vida que me deste. Sem cobrar nada. Uma vida cunhada na LIBERDADE. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O FRACASSO DA SUBLIMAÇÃO

Inez Lemos
O mundo atual recusa a figura transcendente. Os valores são definidos de forma alheia à história, à mitologia e à carga simbólica que garantia as trocas. Somos solicitados a nos desfazer das nuances simbólicas que subsistiam nas transações de mercado. O foco é o simples e neutro valor monetário da mercadoria. Quando viver passa a ser um ato operacional, sem nenhum apelo transcendental, tradicional e moral, a humanidade, destituída de sua alma, sua mais nobre substância, se desespera. Ao homem dessubstancializado e dessimbolizado resta a servidão ao duro jogo da circulação infinita de mercadorias. Assim, livres do passado e dos signos que nos identificam, reverenciamos as propostas da sociedade de mercado. O novo sujeito, desatrelado de sua carga subjetiva, é oco, triste, entediado e deprimido – uma vez que fora do simbólico, circula apenas no real. E a vida no real é insuportável. Impossível ser feliz transitando por meio de semblant soft.        
Destaco alguns traços de nosso tempo no propósito de investigar o sofrimento vivenciado pelos jovens, quando deles são esperadas apenas a venda e a compra de mercadorias. Muitos não são acolhidos em seus delírios simbólicos, em suas fantasias. Quando um dos integrantes da família apresenta desajuste, foge ao roteiro doméstico e decepciona, fere expectativas, opta-se por sua exclusão. Expulso do paraíso, esse indivíduo amarga a devastação, pois nem tudo é negociável. Destituído de sua autonomia e de sua insígnia narcísica, o jovem se vê diante do mal. O mal é o sonho que não se cumpre.
A arte é a instância que melhor acolhe a expressão humana, expressão de desamparo e solidão. É fascinante abordamos o vazio e a incompletude humana por meio do belo. Ao criarmos, elaboramos os sentimentos incendiários que nos torturam. O que falta aos jovens que saem de cena e puxam, precocemente, a cortina da existência? Como não se demitir de um mundo que pressiona para o sucesso e não tolera o fracasso? Como esculpir a angústia abissal, enlaçar-se no erotismo do sonho que não se realizou? Sublimar é descobrir formas de suportar o objeto perdido, a falta tributária da condição humana. Quando as perdas não são simbolizadas – bordadas com pedras e miçangas, restam-nos a amargura, o gosto de morte na boca. Como enfrentar frustrações? Frustração – frustra é advérbio que significa “em vão”, que se relaciona com fraudar, subtrair. Sentir-se frustrado é experimentar a sensação de estar em falta, em desvantagem - mágoa por algo que não se cumpriu.
            A existência humana é peleja, esforço destinado a apaziguar insatisfações. Todos anseiam por gratificação - estado de graça, sentimento de plenitude e reconhecimento. Somos movidos por pulsões, elas tanto podem produzir obras de arte quanto neuroses. Que destinos devemos dar às pulsões, que interesses norteiam as escolhas dos jovens? A psicanálise vincula criatividade e sublimação. Cada cultura incentiva modalidades de sublimação. Ao mudar o objeto da pulsão, tem-se o reordenamento no circuito pulsional. Ou seja, pulsão é energia conectada aos valores de sua época.
Em Escritores criativos e devaneios, Freud aponta a criação como responsável pelo bem estar, tanto do autor como do leitor. Diz ele: “o escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos subordina com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias”.
            O debate aponta para a capacidade de o sujeito se envolver com o que produz - criação artística ou atividade que lhe confere satisfação. Por meio da sublimação, imprimimos sentido a fantasias que não cessam de pulsar. Cada época elege os valores que vão operar na proteção ao sofrimento e à loucura. Como orientar os interesses narcísicos? A escolha entre uma vida empobrecida, neurótica ou de grande riqueza simbólica dependerá de nossa capacidade de sublimação. O vínculo que enlaça o indivíduo e o coloca na posição de sujeito desejante e entusiasmado com sua produção se situa numa fantasia inconsciente, pois o objeto que causa desejo é perdido desde sempre. Impossível reeditar a primeira experiência de prazer. Resta-nos descobrir formas simbólicas de representá-la.
            Toda civilização é fonte de sofrimento, viver em sociedade exige renúncia, nunca vamos nos realizar plenamente. Entretanto, devemos dar ouvidos aos berros, ao que em nós urra, clama por satisfação. É trabalho de detetive, pois há toda uma logística em nos desviarmos e nos confundirmos, fazendo com que desejemos o que, no fundo, não desejamos. Ao transitar fora do eixo subjetivo, desprezamos a herança simbólica, empobrecemos a existência e, vulneráveis, sucumbimos frente aos interesses do mercado. Viver bem, cultuar a satisfação interna, enfrentar a falta visceral e o vazio existencial são tarefas de toda uma vida. Aspirar à felicidade é função social. O sujeito feliz sabe compensar a insatisfação provocada pela civilização. Suporta melhor  contradições e adversidades da vida.
            Pesquisa realizada no Brasil registra que a taxa de suicídio entre jovens aumentou cerca de 30% nos últimos 25 anos. Para o psiquiatra Neury Botega, da Universidade estadual de Campinas (Unicamp), é importante falar sobre o assunto. Esse tema deve deixar de ser tabu entre os profissionais da saúde. Dados relatados pela imprensa comprovam que o deserto é destino dos não engajados no discurso capitalista. Conversando com jovens que anseiam por realização pessoal e profissional, percebo que a maioria se sente frustrada, infeliz por não conseguir ocupar um lugar de destaque e por não ser reconhecida pelo que produz. Junto da frustração há a pressão da família e da sociedade, pois a maioria é educada para brilhar, ganhar muito dinheiro e fama.
A vida que se tece no anonimato, longe das luzes da ribalta, exige coragem moral. Superar a incompletude e a transitoriedade não é tarefa fácil. Excluídos entre os bens sucedidos, sem expectativas e impotentes para provocar movimento em suas vidas, muitos se desesperam. Como enlaçar o sujeito, como resgatá-lo em um vínculo erótico que garanta satisfação?
            Será que o suicídio, no estado atual do capitalismo, metaforiza o fracasso da sublimação? Na luta para obter prazer, algo fracassa. O prazer não foi substituído pela satisfação sublimada - a gratificação narcísica não se cumpre na produção artística ou profissional. Será que a tecnocultura não é suficiente para proporcionar aos jovens o apaziguamento necessário, os meios que vão operar na realização dos desejos? Privados de suas vias de expressão e diante de sonhos frustrados, muitos se culpam pelo fracasso. Faltam- lhes forças para, da lama, fazerem ouro.  
O inferno é qualquer lugar que nos limita e impede de expressar incômodos, sentimentos oceânicos. Se não formos competentes para descobrir nichos de paixão, se não nos deliciarmos com o que produzimos, sucumbimos. A felicidade está em gostar. Sem gostar é impossível ter saúde. Gostar é diferente de ansiar. Ânsia, sanha, insânia. O corpo em fúria dilacera. Contrariado, o sonho é dantesco - tormento, desgosto: tenta fugir ao açoite, imperativo que nos conduz a atos desarmônicos com a natureza ôntica. Saber recusar manobras que nos embaraçam e impedem a conexão com o próprio é garantia de satisfação. A gratificação potencializa, empresta força ao desejo frouxo e o impulsiona. A atividade criadora barra a frustração e viabiliza o enlaçamento do sujeito com sua interioridade, disponibilizando-o para a produção artística, superando o medo do fracasso e a angústia ao se expor ao outro. Na alteridade, realiza-se o laço social, a comunicação com o mundo.
O suicídio é a forma radical de escapar da sensação de impotência e da dificuldade de provocar mudanças. A passagem ao ato sem visitar entranhas. Ou o tédio deflagrado pelas máquinas, quando as relações interpessoais perdem consistência. Hoje, amor e amizade são conduzidos por sites - ações e afetos que antes pertenciam ao acaso agora são tarefa de empresas virtuais, esmaecendo a intensidade dos sentimentos.
Quando não ocupamos lugar que assegure pertencimento, desabamos. Sem partido e sem heróis que os representam, jovens partem em busca de uma causa - o coro dos descontentes se manifesta nas ruas, arrisca-se a vida em revoltas. A vida só vale a pena quando se tem uma causa pela qual vale morrer? A luta não é mais de classe, mas de place – lugar. O lamento pela perda de espaços de subjetivação e pela descrença no consumo individualista, que não o preparou frente aos anseios existenciais. Se fantasiar e simbolizar é tratar a insatisfação, muitos perambulam no real - inferno que habita cada um de nós.  
Inez Lemos - Psicanalista




                 

domingo, 11 de agosto de 2013

LOUCA POR TRANSCENDÊNCIA


           Maria é nome suspeito, plural e mulher precisa do singular, lugar próprio para existir. Marias são muitas: rezadeira, sonhadora, costureira, pecadora. Pensa na mãe: tirana - me fazia de gata borralheira, empregada. Onde vou resolver minhas aflições, dependurar o desejo de mulher, sonhos femininos, profanos? Maria se valia da solidão, do lugar invisível que a casa lhe destinava. Queria fugir, seguir pulsão, libido, pressão. Temia o fracasso, sina feminina: viver exige mais, mulher tem que fundar enredo próprio. Maria se sustentava na cozinha - as panelas não a deixavam desabar. Nelas acalentava fantasias, encontrava substância para a escrita, se reconhecia. Maria se ancorava nos fragmentos – pé de tamarindo, broa de fubá, biscoito frito. Como garantir leis próprias, transportar as marcas, as entranhas que a vida no mato lhe proporcionava? Queria gostar do seu destino, queria ser dona do seu futuro: Essa menina parece homem, precisa aprender a ser feminina e delicada. Praga de mãe repercute, faz eco, abre crateras e funda abismos. É a partir da raiva, da corrosão que ela lhe causava que Maria pensava, falava e escrevia. Mulher, que destino é esse? Apenas uma palavra solta num mundo regido por homens. Maria nasce das ruínas, lugar maldito e destituído pela mãe: Ou casa com homem rico, ou vai ser freira. Santa ou madame - escolhas que recusava, profanava. Do abismo retirava forças para escolher outra filiação, não ser liquidada pelas profecias da família: dinheiro, maldição de fazendeiro. Delirava com outros mundos: livros, socialismo, feminismo, marxismo, psicanálise. A missão era se libertar das chagas, buscar o avesso das coisas. Precisava se encher de sentido, estancar o tédio dos enricados. Sabia que se encontraria na dor, fugir dela seria crime - desperdiçar pistas, abandonar a investigação: viver é desfazer nós, desvendar segredos. Deixar doer. Mulher é sanar feridas.
Maria chega à cidade atravessada de sertão – suas metáforas e magias. Córregos, cachoeiras, paineiras. Desde pequena procurava sua grota. Sabia que mulher carrega grotas profundas que, não tratadas, faladas e ouvidas, a enlouquecem: eu me sentia um embornal, a sacola dos tropeiros onde sempre havia prendas - bolo, carne seca. Sei guardar preciosidades, fantasias que, nesse mundo de plástico e mochilas da moda, interessa a poucos. Temia desgarrar-se de suas veredas, lavoura arcaica: viver é se embrear. Na cozinha Maria voava, transcendia. Taioba, sexo, fubá. Misturava desejo de mulher com mania de mãe. Casa, comida, fogão a lenha. Descobriu que a mulher, antes de querer gostar de plantar taioba e pimenta, precisa cansar de sexo. Precisa desacreditar de amor eterno, de carícias de homem: cozinha é para depois da cama, quando se esgota a alma iludida, lasciva. Maria já ferventou amores, fritou esperança: mulher sonha, sonha alto. De repente acorda, coloca os chinelos e vai colher taioba. Ser mulher é profanar pecados. Maldição boa. Queimar a alma na panela de ferro, desejo iluminado que transcende. Arrepiar, chorar e lamber lágrimas - quem não chora não sabe ser feliz. O choro prepara o rosto para o riso. Chorar levanta a pessoa, desperta emoção que cochila - cura tristeza, mau olhado e desesperança. Na cozinha, picava cebola, fazia angu e... pulava cercas e currais.  Precisava esquecer brutalidade de homem - acolher a revolta, transgredir. Aborrecida, encerava casa, amassava pão de queijo. Redenção? Só nos romances íntimos: vida sem intimidade não vale - só vale quando falamos daquilo que nos faz chorar ou gargalhar. Coisa que, ao falar ou ouvir, amolece a gente. Ficava mole de tanto sentir. Buscava intimidade em tudo - nas histórias de família, na chaleira envelhecida, na fruteira de cristal. Vasculhava pecado, remorso e arrependimento. Baú de segredos, buraco escuro onde guardamos os cacos – sobras pujantes de um passado de erotismo, inveja, raiva e paixões. Sentimentos embrulhados em veludo vermelho, cheirando a Madeira do oriente, perfume de tia vaidosa.
Hoje, Maria quase não vê lugares de memória, é tudo descartável. Quando quer se encontrar, perder-se em devaneios e atavismos, visita museus. Poucos gostam de rememorar, revisitar intimidades: intimidade a gente só fala pra amigos de verdade. Não é coisa pra se exibir no facebook. Quando a gente se abre todinha, sem reservas, perdemos a defesa diante do outro. Mulher tem que saber sentir e saber mostrar. Saber distrair as vozes diabólicas que pulsam, pressionam. Ser mulher é pelejar com as intermitências do coração. Coração guloso que deseja todo o tempo. Mulher não sabe economizar sentimentos, esconder fantasias. É bicho atormentado, insatisfeito.
Maria é mulher antiga, não tem facebook, nem mania de shopping. Acha as moças da cidade todas iguais. Não sabem variar, brincar com as emoções, explorar cavernas. Sedução é pra ser cavoucada - beleza que vem da estrela que cada um carrega, brilho próprio. Não é Botox, lipoaspiração. No fogão descobriu felicidade simples - como se iludir com o possível. Trabalhar com as mãos é fazer o caminho de dentro - tortuoso, esburacado, côncavo. Trabalhar só com a cabeça deixa a alma fria, desidratada. Viver é desvelar sabedorias - todos têm, ela busca.
A vida que a gente escolhe é a que aprendemos a gostar desde pequena. Aventura humana que se cozinha na subjetividade, temperada com lágrimas, risos e garra. Força que brota de dentro, como a taioba, que nasce da terra molhada. Maria reverenciava a vida, encarnava as mulheres que não abandonaram o desejo no tanque: desejo é promessa não cumprida, é fantasma que não desaparece. Na cama ou na cozinha, é sarna que não termina. Fardo. Além da dor de existir, carregava as contradições do mundo: capitalismo, machismo, racismo. Para os irmãos, bicicletas, motos. Mulher se diverte na cozinha, enrolando rosquinha. Só teve uma boneca na infância. Mesmo assim, o irmão, quando resolve exercitar os dotes de futuro médico, a mutila com ferro do pai marcar boi. Como se proteger das invasões fraternas e machistas? Os irmãos abusavam de Maria com o beneplácito dos pais. As brincadeiras, sempre agressivas, abriam um abismo em sua fragilidade cor de rosa. Descobriu que ser mulher é coisa pra macho. É peleja pra vida toda: feminino é sentimento insatisfeito que não cessa de incomodar. Gostava de debruçar a alma gulosa, fragil, cutucar abismos e arranhar sentimentos. Depois de muita decepção, recolheu as fantasias que excediam - desejos inoportunos. Mulher fraca é insuportável, tem que fingir indiferença.
Demissionária da posição submissa, da loucura feminina quando não tratada, firmou pé: ser mulher é se reinventar, é construir identidade, conquistar poder. Descobre que só havia duas opções: se fazer mulher brava e determinada, ou enlouquecer. Submeter-se, jamais! Maria foi estruturada na raiva. Precisava receber, recuperar substância, intensidade. Olhava a cidade e sentia o cimento dentro. Necessitava curar o vazio: enquanto os carros correm, eu urro por dentro. Estava pronta para a vida com poesia, senão seria se extraviar, naufragar. A salvação viria da riqueza simbólica - divindade através das palavras. Abandonar de vez as futilidades, característica das cidades do interior paulista. Ar parado, respiração ofegante - tonteira diante das vitrinas. Abundância, tédio, vácuo. Nada transcendia aos arranha-céus. Paisagem de pouca sombra, curva e metafísica. Aridez. A atmosfera seca das pessoas desidratava os miolos. Ficava aflita de tanto desejar outro mundo. Atordoada pelos berros de dentro, simulava fugir - jogar a mala, pular a janela e descer pelo coqueiro. Vasculhar novas veredas, descampar outros sertões - vida de rico é pequena por dentro, só é esticada por fora.
Como se encontrar nas mulheres invisíveis deste país, longe do reino das botas e botinas? Rezava por desespero; a mãe gostava de rezar, ela, de nadar. Mania de mandar os outros tomarem banho. Achava que, se lavando por fora, se lavava também por dentro. Um dia descobre que, para lavar a alma, precisava de mais coisas além de água e sabão. Maria não acreditava em bondade bobinha. Desconfiava do calvário feminino, lugar instituído pela mãe: Mulher tem que aceitar a cruz, fazer mortificação, se entregar ao sacrifício. Vaidade pura, humildade é gostar de aparecer pelo sofrimento. Recusava, aos olhos dos outros, ser reconhecida como heroína. Não queria ser exemplo pra ninguém, apenas inventar a si mesma: precisa mais? Uma Maria entre tantas: cheia de graça, sem graça, sem santidade e sem véu. Desvelada. Pecados todos têm. Família é lugar de injustiça. Quando muitos filhos, o amor não dá para todos. Sempre falta: mãe gosta de dar mais amor pra filho homem. Mulher, na roça, tinha que se virar com o amor dos animais. Admirava as galinhas - alegres, assanhadas, histéricas: porco é preguiçoso, sujo, lambancento. Cavalo, macho elegante, nasceu pra conquistar. Há homens que conquistam só de chegar e olhar. Até dói.  Gostava de homens e de cavalos.
Com a magia dos rios no peito, escrevia para desatormentar a dor, sustentá-la na esperança: não se pode matar a angústia, ela carrega sinais que nos salvam e nos garantem voo ontológico. Era encantada com as palavras. Existem palavras moles e palavras duras. Com elas esvazia-se a alma incendiária e faz-se belezuras. Sua diversão preferida era sentir: hoje as pessoas preferem comprar que sentir e gostar. Ficava molhada de tanto sentir - arar o passado, apaziguar fantasmas, diabruras subterrâneas. Fantasias que nos protegem da loucura. Como se abastecer de histórias em que cochilam vivencias consistentes e saborosas? Maria não conseguia olhar para as panelas e não ver transcendência. Cozinhar é produzir sentido - colocar de molho sentimentos, palavras. Temperar, junto com a carne, mágoas e ressentimentos. Marinar consciência, preparar o perdão. A história que ensaio contar é tecida na brasa - fogo que arde, emoção que afaga e toca um pedaço do céu. O encontro da mulher com a verdade, a linguagem certa para nela se afirmar. Quando isso acontece, é epifania, alegria esfuziante.  

Inez Lemos

                                                                                                                                                                

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Brasil no divã[1]

 Inez Lemos

Se o pai foge à responsabilidade, se não cumpre bem a função paterna, como a de garantir saúde e profissão ao filho, se não o respeita, um dia o filho cobrará caro desse pai. Se a nação é a casa, a morada do povo, os governantes representam os pais, os que têm o dever de amparar os filhos, prepará-los para enfrentar o mundo. Contudo, quando o povo se vê desamparado, excluído de seus projetos, ele se desespera. E sem esperança, se revolta. Há muito vivemos por um fio, dependurados na corda da crença por um amanhã melhor. A Ficha Limpa não passou de promessa. No Congresso mais caro do mundo, a maioria constitui uma máfia, cujo trabalho é convencer seus pares a votar em interesses próprios. Os homens de ternos pretos que sucateiam o país em troca de poder, vaidade e muita grana. Sempre para eles, enquanto o povo rala dependurado em ônibus e metrôs como gado.
Toda relação social é determinada por um discurso e o discurso que permeia o debate sobre a violência, na sociedade de mercado, aponta para o vazio, a falta de sentido e, portanto, de perspectiva. Como enfrentar o problema atacando apenas suas manifestações? Propostas de combater a violência com carros blindados, polícia e cerca elétrica deflagram o quanto a sociedade não está interessada em desvelar a questão até as raízes. Se ninguém nasce violento, é de se perguntar: em que medida o Brasil produz o delinquente, o vândalo - monstro que espalha terror? Como evitar que eles se reproduzem? Sabemos que a questão é complexa e começa dentro das casas, nas famílias, e esbarra nas políticas públicas, instituições de ensino, mídia. Arranha todos nós, deixando de ser apenas uma questão de segurança pública, para ser uma questão subjetiva – diz das formas de subjetivação social, pois educar um filho é função social.
Todo país, como toda família, deve se sustentar em parâmetros filosóficos, sociológicos, os quais nortearão os rumos a seguir. Uma sociedade que prima pela competição, pelo desejo do ganho fácil, que prega a inveja e não a solidariedade, o que esperar de seus cidadãos? Prevenir – ver antes, agir por antecipação. Ao nos prevenir contra a violência, o melhor é ouvir os anseios do filho e considerar as demandas com seriedade. O cenário mostra crianças nas periferias que crescem sem perspectiva,  convivendo com a polícia, que, muitas vezes, agride e mata mais que protege. Quais as chances de esse garoto se tornar um criminoso? É quando ele olhará o outro, o bem nascido, com fúria, inveja e desejo de extermínio, uma vez que não foi acolhido com carinho, tampouco com olhar de respeito e reconhecimento. Apenas lhe apontaram o lugar de negativo social. O que norteia o impulso agressivo é a identificação com um ódio pela criança que ele foi, uma infância de dor e sofrimento, exclusão e violência. Portanto, o outro, o que lhe confere ódio, deverá sofrer ainda mais, e nele descarregará toda a revolta pela injustiça social. Entretanto, se realmente estamos interessados num Brasil melhor, devemos repensar nossa participação na sociedade - nosso compromisso por uma cidade melhor, uma família melhor.
Muitos dos jovens violentos são movidos a inveja, cujo conceito revela a forma como nos vemos no outro – olhamos o outro que nos incomoda. É quando desejamos ocupar o lugar desse outro e, não conseguindo, orientamos a ação no sentido de privá-lo daquele objeto ou lugar de privilegiado que ocupa. A inveja deflagra significantes como: compre, venha, participe, assine! Todos são convocados a comprar a felicidade, um lugar de prestígio. E aos excluídos do banquete, o cacete! O revoltado, o desamparado busca, muitas vezes, uma oportunidade de revanche contra a violência da qual foi vítima. Nunca combateremos a violência com cinismo e hipocrisia, fingindo que essa conta não é de todos nós. Os sofistas vão dizer que cabe apenas aos políticos,  esquecendo-se que esses apenas legitimam interesses, e se fazem malfeito, cabe a nós cobrar e protestar, como os jovens nesse momento. Nada mudará se nós não mudarmos, não repensarmos valores e práticas sociais. Será que realmente estamos dispostos a nos implicar em outras posturas, novos paradigmas? Como iniciar uma mudança de cultura, implementando micropolíticas – políticas de subjetivação? Como contribuir na formação de um novo sujeito, um novo brasileiro: humano, solidário, gentil, atuante e interessado nos conflitos individuais e sociais?        
Todos devem se implicar. Os empresários - muitos podem devolver à cidade parte dos lucros aviltantes em forma de cultura, arte, fundações. As montadoras de carro podem contribuir com a qualidade do transporte público - chega de tanto lucrar no Brasil, país onde o carro é mais caro do mundo. Como o oligopólio do transporte coletivo, que há anos enriquece e pouco devolvem à população – nunca o olhar chega ao usuário. E as famílias se comportando melhor no trânsito - fila dupla nas escolas, até quando? Seria muito sugerir que estacionem o carro e levem o filho até lá? Ética e cidadania ensinam-se com mais leitura e menos TV. O Brasil é um dos países onde menos se lê no mundo. Somente esticando o olhar à nossa volta, somente mudando o foco, posturas e paradigmas, conseguiremos um país mais agradável para se viver. Sejamos realistas, exigimos o possível! É o Brasil no divã por um futuro melhor.
O erotismo ganhou as ruas. Eros evoca paixão, fervor - garra em defender um país, uma causa. É o que presenciamos quando a geração Facebook, que fingia apodrecer diante da web, resolve dar lição de cidadania. Num só grito, rompe com o biopoder, quando confinava desejos e sonhos em apartamentos - espremendo utopia, esperança e coragem. Sim, eles estão lutando por muito mais que smartphone e iPad. Os significantes que emergem das ruas são: compromisso e respeito com o público. Não brinquem com o sentimento do povo, há algo no ser humano que não pode ser violado e que se chama dignidade. Não se fere com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo o coração que pulsa na cidade. O país, ferido em seu narcisismo, sangra e exige perdão. Perdoar em política é assumir erros, rever prioridades. Aos políticos, cabe repensar suas práticas, pois a vida sem Eros é abismo, osso duro de roer. Sem o erotismo da juventude, o país brocha. Exigir reconhecimento é erótico, é desejar festa. Eros sabe apreciar a vida, gosta de bons vinhos, é amigo de Baco.  
A cidadania metaforizada nos vinte centavos ultrapassa a escuridão, abre clareira e aponta rumos. A rua foi ocupada e nela registraram o recado - não desejamos o que vocês querem que desejamos. Há de haver o dia em que o filho terá um lugar no desejo dos pais. Gostamos de Copa, mas deveríamos definir prioridades, como saneamento básico, escolas profissionalizantes de qualidade, hospitais, planejamento familiar para as mulheres de baixa renda, políticas de fixação do homem no campo, visando desafogar as metrópoles. Governar é saber priorizar.
Onde a bandidagem é maior no país? O povo foi violentado e desrespeitado por aqueles que o deveriam proteger, amparar. Somos órfãos de pais vivos – políticos irresponsáveis, descompromissados e corruptos. Lutemos por um congresso sério, políticos que trabalham por amor à pátria e não apenas para defender seus feudos e altos salários. Onde buscar um discurso que sustenta uma moral de princípios? Em Kant? Onde buscar forças para acreditar que a lógica perversa e cínica dos sofistas não irá prevalecer ao sofrimento dos desvalidos, aos protestos dos desamparados? O cinismo é a caricatura da moral iluminista - a guerra entre capital e trabalho, a falência do marxismo sob o espetáculo, a exploração e a manipulação. O fetiche da mercadoria virou contra os feiticeiros. Ninguém acredita mais em seus feitiços. A confraternização dos perversos com a exclusão dos pobres, negros e homossexuais estão com os dias contados. Presenciamos a revolta dos filhos contra pais fundamentalistas e obscurantistas, que debocham dos direitos humanos - Feliciano e sua “cura gay”, entre tantas pautas descabidas e insanas.
A massa ressentida exige o fim da orgia. Exigir respeito é promover autoestima, é ser protagonista da história, registrando escolhas e propostas. Devemos ler o recado das ruas para além dos olhos. A frente fria de inverno chega anunciando: não queremos apenas bens de consumo. Nossos sonhos não cabem num micro-ondas. Desejamos ir além das montanhas - parem de nos propor o vazio, o nada que nos levará a lugar nenhum. Desejamos a essência - tocar a vida na plenitude, apreendê-la com sabedoria. Queremos sorver o conforto material e o existencial. Para tanto, estamos aprendendo a fazer política e pretendemos continuar na escola - revendo lições, debatendo propostas. Vale lembrar Freud e suas três profissões intermináveis: educar, governar e analisar. Tarefas que não se findam.     



[1] Artigo publicado no Caderno Pensar do jornal EM em 29/07/13.

segunda-feira, 20 de maio de 2013


GERAÇÃO TARJA PRETA[1]
Inez Lemos
            Acredito ser papel dos intelectuais anunciarem as mazelas de seu tempo, como bem fez Roseli Fishmann, professora da Universidade de São Paulo (USP), ao denunciar os perigos que a “geração Ritalina” está sujeita, tendo em vista o aumento do consumo da medicalização em substituição a processos educacionais mais plenos – uma solução aparentemente confortável para as famílias, escolas e sociedade. Todo educador deve prevenir os pais ao desconfiar que o caminho apontado como saída coloca a saúde do estudante em risco. Ao debater o uso de Ritalina e congêneres, devemos estender o olhar à cultura a que estamos submetidos, e que reforçamos quando exigimos, de forma obsessiva, que os filhos potencializem o desempenho escolar.    
Quais as conseqüências, na saúde psíquica dos filhos, de pais ansiosos por resultados, e que exigem rendimento escolar a qualquer custo? Muitas crianças estão crescendo entre adultos aflitos e estressados. Sociedade ambiciosa, competitiva, crianças inquietas, irritadas, hiperativas. Pesquisas apontam que o consumo de Ritalina e Concerta aumentou 75% entre crianças e adolescentes. O medicamento, composto de metilfenidato, tem sido indicado no tratamento de TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Crianças indisciplinadas em casa ou na escola, que manifestam algum incômodo ou desajuste, ou não correspondem às expectativas dos pais ou professores, tornam-se candidatas à “droga da obediência”. 
            A proposta é alertar pais e educadores para a necessidade de ampliar o olhar sobre o sintoma, questionando diagnósticos apressados. Antes de empurrarmos as crianças ao abismo, lembrar que os efeitos colaterais de tais medicações são tenebrosos. Qual o futuro de uma criança que, desde cedo, é submetida a drogas tarja preta que atuam no sistema nervoso central, gerando dependência física e psíquica?
            Vivemos num mundo marcado pela pressa e pelo barulho. Muitas famílias adoram levar os filhos para almoçarem, aos domingos, nas praças de alimentação dos shoppings - lugar pouco ameno e tranquilo. Muitas casas acordam com a TV ligada em alto volume. Poucos zelam pelo silêncio - cuidado em proporcionar às crianças clima sereno, propício aos estudos e à reflexão. Geralmente, não gostamos de parar o que estamos fazendo para ouvir o filho, acolhê-lo. Infância é lugar desamparado e povoado de fantasmas. Contudo, o que essas crianças estão querendo dizer com as inquietações? Hiperatividade? Que barulho é esse?
            Muitas vezes, a criança chega à escola atravessada por conflitos, angústias, pressões. Entram na vida das cobranças despreparadas, desavisadas. São empurradas, sem defesas, à lógica do custo/benefício. Logo soltam o grito de socorro: “Se com vocês o que interessa é obedecer sem questionar, cabe a nós, descontentes, manifestarmos o protesto - seja pela desobediência ou pela inquietação, importa avisar que assim não rola”. Qual a forma exata que uma criança, insatisfeita e incomodada com a sua vida, deve se comportar? Onde que elas estão aprendendo a serem ansiosas e estressadas? A quem interessa a homogeneização, o silenciamento dos incômodos? Será que a mordaça, que antes era imposta pelos governos autoritários, deslocou-se para os lares e escolas?
            Além das controvérsias sobre a medicalização, muitos especialistas questionam a veracidade dos diagnósticos, denunciando a banalização com que são realizados. Será que estamos sofrendo os efeitos de um saber científico que, motivado por interesses econômicos, conspira contra a saúde da humanidade? Uma rede de serviços, orquestrada por um conjunto de iniciativas, apostam, cada vez mais, na produção de diagnósticos que, outrora, eram desconhecidos. Panicados e transtornados, devemos todos exibir a carterinha, a senha de dependentes de drogas lícitas - candidatos a um futuro morto.
            Domar a lucidez em troca de uma falsa felicidade, triunfo diabólico dos psicofármacos. Um elogio à loucura, um retorno à nau dos loucos, pintada por Bosch, ao ilustrar os desajustados encarcerados em navios. Recurso medieval no tratamento dos que extrapolavam, fugiam às regras. Tratar todos sob um mesmo diagnóstico, uma mesma química, sem dar ouvidos à “locura” que cada um de nós carrega, é no mínimo perverso.
Quem nos diferencia, nos singulariza, é o sintoma. Ele diz do sujeito - seus anseios, fantasias, frustrações. Sinal, alerta que o corpo emite tentando dizer daquilo que não vai bem. Ele é salvação quando enfrentado com sabedoria e investigadas as razões - diferente de tamponá-lo com medicamentos. “A loucura não está mais a espreita do homem pelos quatro cantos do mundo. Ela se insinua nele, ou melhor, é ela um sutil relacionamento que o homem mantém consigo mesmo”. Assim, Foucault, em História da loucura, rompe o mistério, o obscurantismo que rondava a loucura, tratando-a como manifestação subjetiva. O importante é que investiguemos as doenças e suas metáforas, o que elas representam no mundo atual.
            O verdadeiro espetáculo advém dos delírios, quando deitamos e deixamos o pensamento voar, fantasiar. O renascimento rompe com as leis, os dogmas irracionais do teocentrismo. Hoje, contudo, quando o homem é tratado como coisa, não estão nos garantindo grandes vantagens. O poder de manipulação se apresenta em nova roupagem, nova nosografia.  O mal não é o fracasso da criança diante do que se espera dela, mas impedir que ela participe do tratamento, entenda o processo, apreenda as fases da vida. Tratar – falar, desvelar a verdade sobre si mesmo. O saber científico produz discursos com efeito de verdade, drogas com promessas de cura. Delegamos à medicina a saúde das crianças - a ela cabe normatizar nossas vidas. Estamos governando os afetos e as emoções como se fossem um fígado, um rim.  O olhar técnico impõe sua lógica.  Desterritorializados dos sentimentos, ingressamos numa existência artificial.  
            Será que existe uma ordem maldita na qual devemos nos espelhar ao educar os filhos? Ao incorporar o discurso médico sem questioná-lo, validamos as práticas  irresponsáveis do mercado. Zelar pela saúde dos filhos é trabalhoso - demanda dedicação, paciência e esforço. É estender o olhar sobre a família e a sociedade. Desresponsabilizar a cultura - pais, escola, práticas sociais, é, no mínimo, leviandade. Onde há grito e sofrimento, devem-se levar atenção e cuidado. Educar exige implicação na dor do outro, senão transformaremos sintomas em transtornos, doenças crônicas.
            Interessa chamar a atenção dos pais e educadores para o fenômeno. Propor que, antes de optar pela medicalização, que esgotem outros caminhos. Oferecer às crianças oportunidades, espaços onde possam entrar em contato consigo mesmas. Apostar nas múltiplas facetas do ser humano – carregamos uma multidão de interesses e habilidades a serem exploradas. No lugar de posturas desumanas, vivências intensas, consistentes e que honram a aventura humana. O contato com as entranhas, com o âmago, propicia êxtase. Vontade de gostar da vida. Ao acariciar o temor que espreita a infância, aplacamos a insegurança e promovemos apaziguamento. Interpretar os berros com ternura silencia a alma inquieta. Convoca as divindades necessárias, diante do desafio de educar uma criança. Já o barulho promove estresse, inquietação, agressão.
            Estamos nos pautando pelo discurso de uma ciência erigida na rentabilidade e que reduz o homem num ser biológico. Fugimos do mal-estar, optamos por tratamentos em que não somos convocados, não participamos do processo de cura. Transferimos aos filhos a mesma postura irresponsável diante das manifestações de sofrimento. Devemos refazer o olhar, inundá-lo de poesia, reformulando posturas e expectativas. Dar tempo  às demandas internas. Vida louca, chata, sem sentido. Crianças aborrecidas, rebeldes. Pressa, pressão. O mundo moderno desabou sobre nós murchando o sonho de vida feliz, enfraquecendo a autoridade dos pais e ampliando os focos de violência e epidemias.
Com a sacralização das especialidades, perdemos o elo da totalidade, o gancho com o estranho mundo dos sentimentos. Não há sintoma fora de contexto, pensamento isolado, escolas desconectadas da cultura. A dança é complexa e exige interação de seus pares. Pais, lembrem-se que a maior conquista do homem é cunhar sua liberdade e autonomia. Com coragem, recusar a barbárie, o olimpo dos tolos - os preguiçosos que seguem pegadas alhures, estranhas. Educar é abrir o coração ao filho, prepará-lo para o salto à cultura, à expansão do mundo. Desobstruir estradas, desmatar veredas. Esperança é crença boa, é escutar a vontade que chega de dentro - conquista necessária.                     
             



[1] Artigo publicado em18/05/2013 no caderno Pensar do EM.

segunda-feira, 13 de maio de 2013


FELICIDADE E UTOPIA
Inez Lemos[1]
           
Os filmes O porto e As neves de Kilimanjaro cumprem o papel fundamental de plantar a esperança nos corações desamparados de ética, solidariedade, respeito ao outro. Vivemos a época em que a culpa por prejudicar ou maltratar uma pessoa é banida do cotidiano narcísico - descabido e furioso em sua meta por sucesso a qualquer custo. Filmes como esses ajudam a suportar a aridez que permeia as relações humanas, quando elas são conduzidas pelo imperativo do lucro. Ganhar, adquirir, acumular - significantes que, juntamente com dinheiro, tornaram-se representantes mestres do erotismo contemporâneo.  Se todo neurótico é um escravo submisso em busca de um mestre, e se a sociedade atual oferece o ideal de ostentação material como significante mestre, quem não se insere nesta pletora de valores, acaba se sentindo excluído, esquisito. O mal-estar dos desajustados é reforçado pela descrença nos rumos da humanidade.
            Os dois filmes, ao elegerem a solidariedade e a sensibilidade como protagonistas, reafirmam que a vida que exala sentimento e emoção - a que brota de dentro e emana intimismo, cumplicidade, é a que satisfaz. Ambos reverenciam sentimentos que estão escapando da fantástica aventura humana, quando viver é experimentar, junto ao outro, as surpresas que a vida nos reserva. Quando o dinheiro torna-se mais sexy que o sexo, quando assistimos o mercado atuar com força suficiente para nos cooptar em projetos de cunho apenas financeiro, quando viver é ser acionista, empreendedor ou proprietário, descobrir filmes que reverenciam o amor ao próximo é como descobrir cachoeiras no deserto.
            O objetivo de evocar a importância de diretores como Aki Kaurismaki (O porto) e Robert Guédiguian (As neves de Kilimanjaro) é registrar o apelo, um pedido de joelhos para que não desanimem, não desistem em continuar esticando o fio da esperança aos desamparados - os desesperados diante da pouca perspectiva de mudança cultural. Para a massa faminta de lazer, que foi induzida a confundir entretenimento com cultura, ir ao cinema significa se estarrecer com violência e barulho, regados a Coca-Cola e pipoca. As salas tornaram-se lugar de comida e banho de adrenalina. Muito diferente da profundidade dos filmes que nos conduzem, sutilmente, aos mistérios que cercam a existência humana. Sabemos que, quanto mais circulamos fora de nossa subjetividade, mais convocamos o vazio. E não é por acaso que o mercado explora a incompletude - falta ôntica que clama por objetos e move a roda do consumo. E assim claudicamos, consumindo os lançamentos dos lixos culturais - cinematográficos ou televisivos.  
            A felicidade está na moda. E foi tema da Conferência de Bem-Estar e Felicidade das Nações Unidas. Agora os países querem disputar quem ganha o ranking no Relatório de Felicidade Global. O Japão ocupa o 44º lugar, perdendo para o Brasil, que figura em 25º. O interessante disso tudo é que os resultados colocam em xeque os índices de desenvolvimento das nações - são insuficientes para garantir o grau de satisfação da população. Ou seja, felicidade, satisfação, alegria de viver não dependem apenas de desenvolvimento e progresso material ou tecnológico. Tudo que não falta no Japão é avanço técnico. Então, afinal, onde se esconde essa tal de Felicidade? É possível satisfazer o desejo humano? Lógico que não tenho a pretensão de me meter num debate desta dimensão, mas gostaria de arriscar um palpite.
            Todos os dois filmes se passam em lugares simples, com pessoas pouco sofisticadas, sem grandes padrões de consumo. No entanto, destacamos a forma como os personagens se interessam pela alteridade – o imigrante africano ou o desempregado que resolve assaltar como recompensa às perdas. Ao permearem um cotidiano rico em experiências, ao adentrarem a intimidade dos que sofrem, conferem sentido às suas vidas. A partir do momento em que os protagonistas se colocam no lugar de precariedade do outro, eles encorajam e assumem o desejo de fazer o bem. E convictos de que, tentando ajudar esse outro - excluído e injustiçado, eles poderão se sentir melhor – aliviados e felizes. Vários filósofos proclamaram que, isoladamente, prosperidade econômica e sucesso financeiro são insuficientes para fazer alguém feliz. No começo, pode até seduzir, mas logo o sujeito acostuma com o lugar de conforto e privilégios. Tanto é verdade que cansamos de ver pessoas ricas, com alto padrão de consumo, lastimando a vida - sempre buscando motivo para reclamar.
            Contudo, somos treinados para respondermos àquilo que esperam de nós. Se somos estimulados à cobiça, à gula dos insatisfeitos, se desejamos o poder, é porque crescemos dentro deste ideal de mundo. O meu desejo é o desejo do Outro. O outro do mercado – o empresário que hoje controla a alma humana. E como ele tem pressa, acabamos por tentar atender o desejo de gratificação de forma rápida. É o mundo de olho nos efeitos dos Big Brothers. E deparar com a perspectiva de não ganhar, é cair na ansiedade, insatisfação e frustração. O que fazer com a crença de felicidade como realização pelo próprio esforço? Como saborear a conquista, se o alvo é a chegada e não a travessia? Como nos desvencilhar da idéia de que não há satisfação maior que se compare com o ganho merecido?
            O debate visa questionar a proposta de felicidade apregoada pelo capitalismo. É assustador como a idéia de sucesso financeiro vem ocupando os espaços da existência humana. Enquanto sabemos que a questão está em resistir aos ímpetos de realização imediata - a ânsia por satisfação é uma sanha infindável. Felicidade é sentimento subjetivo e deve ser cunhado lentamente, passo a passo, em consonância com as marcas - insígnias que habitam cada um de nós. Cada qual, ao longo de sua trajetória, colecionou lembranças, atavismos – somos um pouco de tudo que vimos, ouvimos e sentimos. Não é possível querer nivelar a humanidade em índices, colocar todos dentro de uma só tabela, sufocando singularidades, interesses e idiossincrasias. Isso sim é quimera. Felicidade acontece quando é sonho a ser conquistado - quando a ele empenhamos sentido, tempo e esforço. E com perseverança, submetemos às pelejas - suor na nuca e coragem na alma.
            Se a dificuldade faz parte do show da vida, se tudo que é bom tem que ser merecido, como entender o mundo que apregoa o sucesso instantâneo, tanto profissional como afetivo? Como aceitar a tendência em apagar a subjetividade de cada um, e no lugar imprimir uma marca, como se gente fosse mercadoria? Muitos invejam o deprimido sorridente, jovial e endieirado. Muitos vivem pressionados em ganhar a vida por meio da visibilidade. Os que não conseguem seus minutos de fama, do alto de suas fragilidades narcísicas, acabam por lançar mão de qualquer loucura como recompensa ao ostracismo existencial. Seja entrando numa seita de canibalismo – tornar-se alguém devorando um outro e se purificando. Principalmente quando esse outro é tão desprazível quanto ele. É o vazio ocupando o lugar do nada, da desesperança e da falta de utopia.  
            Importa questionar a tendência de iludir as pessoas com a promessa de felicidade fácil – querem nos vender a fantasia de que existe uma completude, um êxtase ao qual todos tem acesso, bastando ser bonito, rico e cheiroso. A beleza perfeita, o corpo irretocável. Eis o modelo excludente que acaba disseminando angústia e ansiedade. Ao contrário disso tudo, de forma corajosa e honesta, os filmes citados apontam a felicidade possível, a que moldamos no sofrimento - nos intervalos, nos hiatos da luta diária. Na peleja de se saber humano. Se o mal é prometer e não cumprir, vivemos num mundo cruel, que mais faz mal que bem. Não podemos confundir gozo com prazer. Acreditar que a nossa felicidade pode ser construída por um outro, que ela pertence ao além – que há uma magia que resolverá os problemas e nos conduzirá ao paraíso, isso sim é loucura, insanidade. É permanecer no gozo.
            Quando abrimos mão de viver a vida autêntica, quando acomodamos e deixamos de lutar pelo próprio, acolhendo escolhas alheias à nossa vontade, a vida perde o viço, a exuberância. Vida desbotada, sem combustível. A depressão, ao se tornar um sintoma contemporâneo, defraga o fracasso de apostar apenas no progresso e no avanço tecnológico como responsáveis pela felicidade. O facebook está em pleno vigor, os tablets perambulam de mão em mão. O que não faltam são meios de aproximar pessoas. Contudo, o que vemos é, cada vez mais, internautas solitários, deprimidos e descrentes de uma vida pujante - a que entranha e revela a face sublime de compartilhar com o outro fragmentos intimistas. Vale lembrar de pesquisas que certificam: os que se ocupam com projetos coletivos tendem a ser mais felizes.            
                         



[1] Psicanalista. Email: mils@gold.com.br