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e entusiasma a alma.
segunda-feira, 4 de março de 2013
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
A DOR DA INTERDIÇÃO
Inez Lemos
No filme A separação, Nader e Simim possuem posições diferentes sobre o Irã. Simim quer sair do país em busca de melhores oportunidades para a filha, Termeh. Nader prefere ficar e cuidar do pai que sofre de Alzheimer. Chama-nos atenção a forma determinada e absoluta como Nader lida com o conflito familiar. Sempre frio e certeiro em suas posições. Simim reclama da incapacidade do marido em demonstrar afeto e carinho - em nenhum momento este pediu a ela que ficasse, que desejava tê-la ao seu lado. Sem a esposa para cuidar da casa, Nader contrata uma empregada grávida. Num momento de fúria, Nader a empurra e esta alega que perdeu o bebê devido ao tombo provocado pela agressividade do patrão. Assim, somos jogados num festival de neurose envolvendo maridos, esposas e filhas. A situação de conflito em que os envolvidos não assumem responsabilidades transforma-se em palco de insanidades. E se intensifica quando ocorre em países regidos por religiões que permitem a radicalização fundamentalista.
A humanidade foi marcada por homens totalitários como Hitler, Komeini, Kadhafi - exemplos de força e violência contra os mais fracos. Contudo, mesmo que o consentimento social de que alguém deva exercer o poder de forma absoluta e autoritária seja posta em cheque – vide as últimas revoltas nos países árabes -, muitas crianças ainda crescem acreditando numa verdade absoluta e odiando todos que tentam contrapô-las ou questioná-las. Tanto no Irã como no Brasil, muitos são os exemplos de violência contra a mulher. Diante de tantas tragédias, é fundamental investigarmos como está se constituindo, em nossos filhos, o imaginário masculino.
Freud desenvolve o conceito de Weltanschauung (visão de mundo), na tentativa de explicar que toda sociedade é regida por uma construção intelectual que se impõe como referência. Ela atua como um Messias que irá solucionar os problemas existenciais de forma universal, se esquecendo que cada sujeito possui uma singularidade que o diferencia de outro, principalmente em se tratando de sentimentos e emoções. O recurso ideológico que apregoa a supremacia masculina como forma de dominação é simplista e covarde. Seguir uma “visão de mundo universal” pode, a princípio, parecer confortável - nos desincumbe de responsabilizarmos pela condução de nossas vidas.
Muitas famílias ainda educam os filhos acreditando na superioridade do gênero masculino, o que é reforçado, no dia a dia, pela dinâmica social. Poucas são as mães que cobram dos filhos
homens a mesma carga de tarefas com que cobram das filhas mulheres. Além do aspecto operacional, estas são inseridas no mundo dos sentimentos de forma diferente. A elas é permitido expressar angústias e fracassos. Chorar sempre foi prerrogativa do feminino. Aos homens é cobrado valentia e virilidade. Amparados no tripé: poder, sexo e dinheiro, crescem cultivando a idéia de que é preferível a morte à vergonha da derrota. Significantes como perda, conflito e dúvida, geralmente são banidos do discurso masculino.
Não deve ser fácil romper com o modelo de homem imposto por uma sociedade sexista, que cobra desempenho sexual e confunde virilidade com agressividade. Os garotos crescem presos num ideal de sucesso impregnado por uma concepção normativa, moralizante e vigiada. Aspectos tão mutiladores para o homem como para a mulher – culto exacerbado ao corpo e à beleza. Enquanto não questionarmos as opressões que o mundo atual lança sobre nós - homens, mulheres ou homoafetivos - não galgaremos um lugar ao sol. Cada época cria seus símbolos de opressão. Nem todos os homens desejam ser identificados à falocracia. Como romper com a cultura que valoriza o impulso agressivo como traço de masculinidade? Onde encontrar alternativas de vida que não apontem a paixão pelo poder e pela competitividade como prioritárias?
Muitas mães e pais acariciam mais as filhas mulheres por temerem que os filhos homens cresçam homossexuais. Esses logo são convocados ao mundo dos machos – abraços violentos, tapas nas costas, recalcando a necessidade de falar sobre temores, angústias e fracassos. Geralmente, a vida afetiva dos homens é sufocada sob máscara silenciosa e dissimuladora da dor de existir. Como lidar com o vazio, a falta de sentido e a tragédia do desamparo? A intimidade, muitas vezes, nos prende em cavernas abissais. O fogo incendiário que arde e desassossega é inerente à condição humana. Saber suportar os abismos subterrâneos é coisa para gente grande, exige sabedoria, seja do gênero masculino ou feminino.
Há um apelo subliminar para que os homens, quando se sentirem ameaçados ou interditados em seus planos, ajam com violência. Muitos pais reforçam a importância do filho não levar desaforo para casa. A lição é devolver a agressão recebida. Talvez isso nos ajude a avançar no debate sobre a violência contra a mulher, tema que domina, nos últimos tempos, as páginas dos jornais. Cenas de estupidez são recorrentes entre casais, levando a mulher a pedir separação. Geralmente, quando o namorado ou marido depara com um não, ou situações que os coloquem em desvantagem, eles reagem de forma violenta. A violência, assim, insere-se no campo da linguagem. Significa que, quando somos incapazes de simbolizar os incômodos pela linguagem,
escolhemos mecanismos que nos livrem do embate. A palavra é a espada dos sábios - o sujeito se enuncia pela fala.
Interessa investigar por que os homens são suscetíveis às contrariedades e derrotas. A violência se apresenta quando eles são destituídos do poder, da suposta superioridade que, por portarem o representante fálico, crescem na ilusão de a possuírem. É como se eles estivessem, pela primeira vez, se deparando com as interdições da vida. Homens vaidosos, ricos, mulherengos e ciumentos, geralmente não suportam que coloque em risco a trajetória de sucesso. Perder este lugar é da
ordem do insuportável. A maioria não foi educada para enfrentar opiniões divergentes, ser questionada e suportar a vergonha do fracasso. Qualquer avaliação soa como insulto.
Muitos preferem preservar o casamento, mesmo quando ele já acabou - preservam a si e à boa imagem: separação ainda é sinônimo de naufrágio e declínio. Resquício de uma sociedade patriarcal e patrimonialista, que sacraliza o casamento e marginaliza os direitos da mulher.
Atributos que potencializam violência. Aos pais que desejam outro futuro aos filhos, o melhor é, desde cedo, educá-los no conflito e interditá-los nos excessos. Não os poupar das adversidades. Situações constrangedoras fazem parte da vida. Como superá-las, assumindo responsabilidades e fragilidades?
Conflitos são inerentes à existência humana, como dúvida e contradição. Situações que estão relacionadas tanto a fatores externos como internos. Tentar escapar deles é estratégia recorrente ao gênero masculino. Poucos homens enfrentam questões polêmicas pela palavra - fogem se justificando diante das dificuldades em assumir posições. O que reforça a incapacidade de se envolverem na incompletude da vida: ciúme, ressentimento, raiva e dor. Vida íntima, vida interior. O que nos bole por dentro? Como testemunhou Henry Miller: “A vida é conflito, e o homem, sendo parte da vida, é ele próprio uma expressão do conflito”.
A linguagem dos sentimentos é universal - emoção, alegria ou tristeza. Aprender, desde cedo, que não mentir sobre eles, é não trair a si mesmo. A questão não é moral, mas corporal, pulsional. O corpo que registra tristeza, não consegue se vestir de alegria. Dissimular sentimentos é pecado, deveria ser proibido, pois gera sofrimento a quem deles escapole. Quanto menos nos permitimos sentir e desejar, mais atentos ficamos em restringir o desejo e os sentimentos dos outros.
Violência é sintoma e revela como inserimos os filhos na cultura e na lei. Efeito de sociedades que conservam o androcentrismo como paradigma - apregoa o machismo como valor, sustentando posições de umBrasil patriarcal e patrimonialista. Algumas garotas crescem tendo o casamento como ideal de vida, e valorizam em demasia a companhia masculina. Sacralizamos a mulher casada e supervalorizamos a maternidade. Incentivamos a manter relacionamentos conturbados. O lugar da vítima sempre foi sustentado pelo feminino.Melhor não seria, desde cedo, ensiná-las a amar mais a vida, do que contaminá-lascom o imperativo do casamento? Felicidade é construção, é retomada de si edesejo de saber mais do mundo.
[1] Artigo
publicado no caderno Pensar em 25/02/2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
QUEM FAZ O AZAR?
Inez Lemos
Quem está meio desanimado da vida, achando-a monótona, deveria ir ao cinema e assistir a Um conto chinês. Aparentemente despretensioso, devagarzinho esse filme nos cutuca. De pronto, somos arrastados para a tela e, inesperadamente, a vida vai ganhando sentido. A trama se passa
entre Roberto (Ricardo Darín), solitário e mal humorado comerciante argentino, e Juan (Ignacio Huang), chinês que não fala espanhol e está em Buenos Aires em busca de um tio, mas nunca o encontra. Roberto é surpreendido com Juan sendo expulso de um táxi e se solidariza com o rapaz perdido. Os dois habitantes do acaso tentam se entender sob o mesmo teto. Os gestos traduzem a aflição e o desassossego de ambos - vida que chega e impõe seu lado extraordinário, pouco ordinário.
Há um charme nas produções argentinas. Histórias consistentes, saborosas - garantia de boa escolha. Filmes que partem de fragmentos da vida cotidiana, lentes que exploram detalhes
obscuros, sintomas velados – obsessões, fantasias não investigadas. Roberto tem seu lado obsessivo, cáustico, amargo. Não suporta ser passado para trás, ludibriado. Trauma de uma guerra maldita, absurda. Gostamos de ver nossos dramas retratados pela dramaturgia. O miúdo da vida, o sofrimento corriqueiro –solidão, pessimismo, desalento, azar. Somos o que sentimos. Para falar disso, os argentinos estão afinados, acertaram a sintonia ao transformar tragédia humana em arte. A emoção, quando estruturada em ficção, não tem erro.
O encontro entre Roberto e Juan aponta para o casuísmo, os acasos que, por apego excessivo ao arrazoado, geralmente dispensamos. Roberto, como todo bom individualista, resiste em abandonar o conforto da mesmice e acolher a visita indesejada. Rotina empobrecida do comerciante que vive o desalento de um cotidiano vazio: trabalho, casa e visita à mãe ao cemitério. Lastimando o desastroso destino, julga-se azarado, pois não consegue se desvencilhar do rapaz. A aparente tranquilidade, que mais era uma sucessão de dias mortíferos, aos poucos toma forma e ganha cores, vida. Quantas vezes, em nome de um conforto ilusório, sacralizamos o tédio do dia a dia? Aventura humana é desatar nós que nos emperram e que dificilmente conseguimos sem ajuda.
O novo é desafio - mexe, mistura, movimenta e desestabiliza. Intervir no estabelecido pode ser um ganho. O diferente chega trazendo cultura e sensações inusitadas. É oportunidade de
descobrir outros cantos da vida, de questionar as prisões que nos habitam. Roberto fingia que estava confortável com seu passado. Numa cristaleira, entre retratos e bibelôs, reverenciava a imagem petrificada da mãe. No santuário, conservava, cristalizados, os sentimentos de família - lembranças que cochilavam no coração. Juan, num ato desastrado, derruba tudo. Espatifando, de
uma só vez, a permanência imutável da mãe. Quebrar, interromper um sentimento e permitir que um novo se instale. Roberto recolhe os cacos e, num gesto de sabedoria, entende a metáfora – liberta-se da memória paralisante. Geralmente, nos momentos difíceis, quando somos surpreendidos por um fato trágico, nos julgamos azarados. Com o tempo, o que era azar vira sorte. Refazemos e libertamos dos entulhos, lixos interiores. A faxina exige coragem, despoja-mento e humildade. Ao abandonar o lugar da vítima - o desafortunado que teve que abrigar um oriental que sequer fala a sua língua, Roberto inicia trajetória de descobertas. Cultura chinesa, surpresas, emoção. O mundo e sua vitalidade e diferenças, há dias, dividiam com ele o mesmo teto. Diante de Juan, começa a desconfiar do sentido de viver. Entre eles, travando amizade e afeto, a vaca redentora –que mata e que une. Tudo começa e termina com ela, metá-fora do azar e da sorte. A mesma vaca que lança Juan na solidão propicia os encontros – tanto com Juan, como com a mulher que o assediava com promessas de dias felizes. Vida, o que fazer senão com ela deslizar?
Muitas vezes, lamentamos a solidão sem nos responsabilizar por ela. Não compartilhamos pedaços da vida, e não é porque não há ninguém que queira nos acompanhar. Pelo contrário, estamos sós por não abrirmos espaço para que o outro entre e se expanda. Culpamos a falta de sorte, o mau destino. Responsabilizar o acaso é mais fácil. Sem nos implicar, não nos damos trabalho e, ainda, ganhamos o lugar da vítima. Viver é bem mais que rezar para que “tudo de bom nos aconteça”.
Roberto acaba, a duras penas, se implicando no encontro com Juan. Quando isso acontece, tudo ameniza - angústias, impaciência e falta de sentido pela vida. Se anima e resolve procurar a moça que lhe declarava amor. Assim somos todos, só temos olhos quando despertamos por dentro. Sem esse apito, fingimos que vemos as pessoas à nossa volta. Mentira. Apenas enxergamos quando somos cutucados com os olhos do coração. Olho de dentro é que comanda. Enquanto isso não acontece, o outro é apenas enfeite, um guia para não virarmos o pé – pois, quase sempre, pisamos em falso.
O filme se inicia com uma notícia esdrúxula, descabida. Como a vida real: desatinada, injusta e desleal. Ansiamos por lealdade, companheirismo, amparo. Somos obsessivos por um Deus, alguma divindade que nos garanta a felicidade que julgamos merecer. Esquecemos que
viver é topar a parada, lançar-se no jogo. Um jogo obscuro, que não estabelece regras. É pegar ou largar. Ou Roberto topava a parada, ou desistia. Mas algo o impediu de desistir. Assim é conosco, muitas vezes seguimos em frente com o jogo, sem saber por quê. Mesmo desejando interrompê-lo, algo nos impele. É exatamente nessa força que reside o charme da vida. Encarar o inusitado, o acaso, ser salvo por experiências diferentes. Se acovardamos, cristalizamos emoções desgastadas.
O apaziguamento chega para Roberto no momento em que abandona o registro do lamento e se envolve - decide ouvir Juan e vencer a barreira da língua. Dialoga com as circunstâncias que a vida coloca. Ao se despir do apego individualista, Roberto abre uma avenida. Antes vivia no beco, sem saída. Quem se implica não reclama e se coloca dentro.
Explicar, justificar, tentar nos convencer de que agimos certo, fizemos o melhor. Assim operamos, quando não queremos nos haver com as questões que nos afligem. O filme nos aponta para os pequenos detalhes da vida. É quando cada qual, aproveitando os ingredientes que ela nos oferece, cria seu conto, escreve o próprio enredo.
O mundo moderno, tecnológico, não gosta de se ocupar com o outro. Circulamos alheios, não nos implicamos no cotidiano que desaba à nossa volta. O filho vai mal na escola? Culpamos os professores ou a criança – dificilmente questionamos como conduzimos a sua educação. Se somos vítima de alguma violência, raramente nos interessamos em investigar o que motivou o indivíduo a agir assim. Preferimos julgar, condenar e impingir a sentença de morte. Contudo, se vivemos em sociedade, devemos interrogar qual é a parte que nos cabe neste “latifúndio”. Somos todos severinos da mesma seca, do mesmo sertão - habitamos o mesmo deserto. Estamos
condenados às mazelas da condição humana. Somos incompletos, precários. O dente dói na boca, tanto do rico ou do pobre. A chuva derruba barracos e mansões.
Quem faz o azar? Geralmente, sempre que algo ruim ocorre, saímos em busca de um culpado. Gostamos de transferir responsabilidades. Isso consola e alivia, mas dificulta, retarda o curso da questão, pois nunca somos protagonistas de nosso próprio azar. Como iniciar o
processo de superação? Se estamos estressados, deprimidos, é o trabalho que está massacrante, ou o marido que deixou de ser carinhoso. Certamente, sem mudarmos de posição, sem abandonarmos o lugar da vítima, o azar prosseguirá.
A vida é sutil - reserva de mata virgem que merece ser explorada com a alma plena de entusi-asmo. É para ser amada em demasia, a ponto de desejar mais que ter sorte e sermos felizes. Como acolher uma existência, uma trajetória que não nos poupa esforços? A arquitetura da vida como obra de arte bate nas entranhas, aninha-se, mexe e remexe. Exige, briga e reivindica. Vida que se reinventa não se acovarda, encara as paradas. Deparar com situações difíceis e problemá-ticas faz parte da caminhada. Julgarmo-nos azarados. Lamentar e se sentir derrotados já é uma questão de escolha. Sorte ou azar, quem os faz?
[1] Artigo
publicado no caderno Pensar do E.M. em 3/12/2011.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
CIVILIDADE E FELICIDADE
Inez Lemos
O dever de felicidade marca a nossa era e pauta o sentido de viver. Freud, em O mal-estar na civilização, nos lembra que a felicidade é sempre uma aspiração, um desejo negociado entre os limites impostos pela cultura. Significa que, para viver bem, devemos aprender a renunciar às pulsões - domar os impulsos que insistem em nos comandar. Talvez aqui resida uma das questões chave para se atingir, senão a felicidade, pelo menos uma vida sintonizada com sonhos e convicções. Contudo, o que presenciamos, muitas vezes, é a desarmonia, desencontro entre o que gostaríamos de viver e o que vivemos. Lembramos que o compromisso do projeto civilizatório é com o progresso, não com a felicidade dos homens. Não faz parte do plano se ocupar com os aspectos subjetivos da humanidade.
Com a passagem do sistema capitalista de produção centrado no trabalho para o sistema de produção centrado no consumo, é estratégico vender o ideal de felicidade como dever e obrigação. Logo, os mentores deste modelo de civilização perceberam que o caminho para o Éden deveria tornar-se livre. Permitir e não coibir, eis a receita da promoção do gozo eterno. Assim, caso fraquejemos em nosso propósito de felicidade, toda a responsabilidade recai sobre nós. O furo está justamente na crença de que o caminho a percorrer é o estabelecido e propagado. Não é de bom tom expor infortúnios, assumir os fracassos. Demonstrar alegria se tornou sinônimo de polidez. A herança do maio de 1968 culmina com a liberação para viver o desejo sem restrições. Na esteira do “proibido é proibir”, acabamos sob a tutela dos exploradores da libido - trocamos qualquer possibilidade de sofrimento pela tirania da felicidade. Esquecemos que o sofrimento salva a existência, como disse Simone Weil.
Aos insatisfeitos à determinação maldita de felicidade, à sobrevida vegetativa a que estamos condenados, cabe desafiar a crença de que só há felicidade possível se seguirmos a humanidade consumista e moribunda. Como sair do que Henry Miller, num rompante agressivo contra a América, chamou de “o pesadelo refrigerado”? Ao nos submetermos à razão mercantil e corrosiva que destrói o sentido da vida, quando as coisas importantes não mais nos interessam e o que nos interessa são as coisas desimportantes, nos tornamos servos embriagados de falsa sedução. Escravos dos mestres que nos querem assujeitados e fragilizados. Como testemunhou Raoul Vaneigem, um dos críticos de 1968: “Não queremos saber de um mundo onde a garantia de não morrer de fome deve ser trocada pela certeza de morrer de tédio”.
E agora, moçada, como resistir ao triunfo do consumismo se sabemos que ostentar objetos de consumo não é sinônimo de civilidade? Dirigimos carros importados e jogamos lixo na rua. Estacionamos em fila dupla - convictos de que esse é um direito, lançamos o olhar cínico da arrogância. Estimulamos a esperteza, adoramos nos sentir privilegiados e tratados com deferência - detestamos a igualdade. Como conciliar grana com elegância, ética com poder?
O antropólogo Roberto DaMatta, em Fé em Deus e pé na tábua, ao analisar o comportamento competitivo do cidadão brasileiro, relaciona-o com as estruturas hierárquicas e concepções imobilistas - viés racista e aristocrático: “O cão do senador tem mais direitos do que o do cidadão anônimo. Saber de quem é o relógio Rolex faz com que os policiais trabalhem com mais afinco e eventualmente o devolvam ao seu dono”, escreve ele. Não gostamos de obedecer às leis - a obediência nos coloca na posição de igualdade, enquanto a transgressão traz o gosto da superioridade, lugar diferenciado. Obediência à lei exprime subordinação social e revela confusão entre obedecer às pessoas e à lei. Geralmente, o cidadão de classe social elevada se sente humilhado quando coagido a se portar igual aos demais. Muitos se revoltam e agem com brutalidade. O uso da violência é visto como direito de muitos bacanões que dirigem alcoolizados e armados. O exercício da brutalidade nos remete ao passado escravista, que associava as posições de poder com o direito à agressão ao inferior. Para quem dirige um Porsche, pedestre não passa de zé ninguém.
Arrogância cínica é necessidade de se sentir superior e deflaga a superficial igualdade republicana - forte matriz aristocrática e hierárquica. “O carro é uma prova de que as pessoas existem concretamente no mundo como proprietários de personalidades que, além de terem emoções e sentimentos abstratos, se afirmam material e indiscutivelmente nos objetos e por meio das coisas que possuem” (Da Matta). A democratização do consumo tem despertado ira entre as classes historicamente abastadas. Muitos se indignam com a ascensão social da classe C, que hoje circula motorizada, frequenta aeroportos, bons supermercados e universidades. Invade espaços anteriormente reservados aos bens nascidos. Se desigualdade social é incompatível com desenvolvimento, não deveríamos aplaudir tal acontecimento? Uma família com maior poder aquisitivo tem mais chances de educar melhor os filhos, desde que esta seja a prioridade: inserir a criança na civilização e nos bens culturais.
O Brasil nunca foi um país de leitores, o mercado editorial jamais configurou entre os mais rentáveis. Atualmente, seu crescimento realiza-se principalmente no gênero autoajuda. Cada vez mais, os letrados escasseiam. Lamentamos o crescimento econômico desvinculado do avanço cultural e educacional. Bombamos no bolso, mas não na cabeça. Contudo, o afã pelo consumo se tornou característica nacional e mundial. Os jornais noticiam: seja
Será que, quanto mais sofisticamos por fora, mais regredimos por dentro? É claro que essa não é uma equação direta e determinante. Mas, ao se tratar de cultura de massa, quando o jovem (de periferia ou de Zona Sul) direciona a maior parte do salário para o consumo de bens supérfluos – gastos com telefonia celular, roupas, produtos de beleza -, ele registra nas escolhas sua posição. Muitos julgam absurdo gastar com livros e cursos, mas não se indignam em torrar dinheiro com grifes.
Ao vincularmos violência, empobrecimento intelectual e aumento de consumo, atribuímos à educação valor existencial e transcendental. Educar é estimular o interesse por maior densidade interior. A convivência excessiva com a matéria atravanca o mergulho nas entranhas - viagem pelos caminhos da interioridade. Outrora, a aquisição de um objeto era orientada mais pela necessidade. Os objetos apresentavam valor de uso. Hoje, são símbolos de poder e ostentação - ir às compras tornou-se sinônimo de inteligência e entretenimento.
Sonhar com um objeto de consumo era tarefa árdua - que estratégia se deveria usar no convencimento dos pais? Mas se tornou comum os pais se renderem na primeira manifestação de desejo do filho por quinquilharias. Ao realizar o sonho rápidamente, a criança encerra o desejo e interrompe a viagem articulada à fantasia. O raciocínio perde o fio condutor, o elo entre desejo, pensamento e emoção. Quanto mais facilitarmos a vida das crianças, fazendo por elas e impedindo-as do contato com o experimentar, menos elas entram em contato com a emoção, a inteligência e a criatividade. A erotização no saber se realiza quando o conhecimento nos chega vinculado a passagens subjetivas. Quando diz do sujeito e sua relação com o mundo. Sem eros não há grandes pensadores.
Em Escritores criativos e devaneio, Freud aprofunda a discussão sobre a sublimação. Que destino daremos à renúncia pulsional? Como manter a posição desejante, uma vez que a civilização nos obriga a abrir mão de algumas satisfações? A arte é uma boa escolha na sustentação da pulsão, o que nos mantém vivos e estimulados. Contudo, podemos dar outros destinos à pulsão, traçar outros vínculos para os filhos, uma vez que a fonte do impulso criativo reside em alguma fantasia inconsciente. Buscamos, ao longo da vida, formas simbólicas que representem o objeto perdido – as experiências de satisfação que nos marcaram. Para que a criança entre em contato com a fantasia, ela requer um ambiente que propicie visitar alamedas subterrâneas.
“A relação entre a fantasia e o tempo é, em geral, muito importante. (...) O trabalho mental vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos desejos principais do sujeito”. Aqui, Freud nos ensina: na fantasia, o sonhador tenta reconquistar o que possuiu em sua infância feliz. A sublimação ajuda a suportar a dor e o vazio existencial. No devaneio, abandonamos a vida cáustica e ganhamos gratificação na superação da incompletude. Tratar o caos interno com coisas belas é enlaçar, de forma erótica, o objeto de desejo - conferir alegria no fazer e no saber.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
NÁUFRAGOS DO AFETO
Inez Lemos
Amor? No documentário de João Jardim, mulheres e homens revelam passagens de relacionamentos afetivos que envolvem violência. O título aparece em interrogação. Devemos investigar por que, cada dia mais, o amor tornou-se personagem de histórias de violência, crimes e tragédias. Muitas são as formas de expressar sentimentos. Somos uma multidão que briga pela felicidade dentro de nós. Ninguém está exigindo uniformidade no amor. Contudo, o que questionamos é a hegemonia da violência que nos atinge. Por que estamos nos tornando uma sociedade que cultua a violência, a competição e não o afeto e a lealdade? Que leitura devemos fazer da parceria entre amor e violência?
Amor sex shopping, amor fast-food, amor científico, amor químico. Muitas são as estratégias sociais utilizadas para manter o indivíduo sobre controle, quando ele, longe dos verdadeiros sentimentos, fantasias e emoções, se transforma em um pote vazio, disponível para o mercado. Hoje, para ser um bom amante, ele deve se empanturrar de viagra, bebidas e filmes pornôs. A garota deve carregar na bolsa os suportes adquiridos no sex shop. Nada pode faltar quando os parceiros decidem a transa como se decide uma entrevista de emprego, pressionados pela obrigação de gozar. O tesão não é energia sexual que brota de cronogramas, é libido que gosta de liberdade e surpresas. É sangue que jorra do coração aos órgãos sexuais - alegria que flui e garante a aventura do encontro. Talvez o que esteja brochando a moçada, a ponto de recorrerem aos aditivos narcísicos como drogas, álcool e medicamentos, é justamente a cobrança por performance - todos de olho no desempenho, na potência sexual. Esquecemos que gente é diferente de máquina. Somos movidos a pulsões, energia ligada e comandada pelo inconsciente - marcas e imagens que se fixaram desde que nascemos.
A sexualidade sofre com o excesso de planejamento. Tudo deve ser passivo de avaliação, codificação, padronização. Todo sentimento, todo tesão é enquadrado, explicado. Não há mais espaço para o espontâneo, como era o amor nos versos do poeta. O amor de agora não bate na aorta, não constipa, tampouco vira o mundo de cabeça para baixo. Há uma determinação rígida sobre a vida sexual, sobre o uso do corpo. Muitos homens reclamam do excesso que brocha: “Estou cansado, exaurido, tenho que beber todas, comer todas as mulheres que estiverem dando moleza, todos os corpos que se oferecem”, desabafa F, ao se ver no tédio contemporâneo.
Como explicar a falta de emoção, o desinteresse de muitos jovens em construir uma relação afetiva duradoura? Diante das promessas de felicidade apregoadas pela mídia, qualquer ser normal se sente brocha e incompetente na condução do desejo sexual. O que fazer com o desejo de amar, de afetar e ser afetado pelo outro? O amor precisa de tempo para se enroscar em afagos, bem diferente do amor performático, quando o que conta é “saber se mandou bem”. O que fazer quando somos pífios na cama e fora dela, não conquistamos salários para carrões e noitadas regadas a vinhos? Não temos o flat que as mulheres sonham, não garantimos orgasmos múltiplos e desconfiamos que não construiremos a casa de campo no condomínio da moda.
Diante de tanta insatisfação e frustração, o jovem que antes vivia tranqüilo e feliz começa a se inquietar e agir de forma agressiva, arrogante e intolerante. Muitos confessam que viver tornou-se um peso - o rol de obrigações e exigências aumenta a cada dia. Temos que portar iPad e outras quinquilharias tecnológicas de última geração, a despeito de sermos tachados de arcaicos ou fora de catálogo. O jovem que não se inclui nos rigores da tecnocultura, acaba, muitas vezes, apresentando sintomas que revelam vergonha e humilhação. Discriminação e desigualdade incentiva revolta. Quando não acompanham as determinações de consumo, geralmente agem movidos pelo mal-estar. Frustrados e incomodados por ser verem limitados e sem acesso aos últimos lançamentos, usam de violência. De forma bruta e insana, muitos tentam adquirir de forma descabida ou criminosa. Será que a sociedade que apregoa que “só há vida possível afinada e conectada aos ditames do mercado”, não propicia revolta e, consequentemente, criminalidade?
Como desvendar a sutil conexão entre consumo e criminalidade? O jovem, ao crescer cultuando mais máquinas que gente, mais aparelhos que corpos, ouvindo mais a mídia que os pais, acaba por se distanciar da capacidade de amar, trocar e se envolver? Será que estamos educando-os para o amor? Muitos estão aprendendo a amar na virtualidade. Não vejo os pais preocupados com a felicidade amorosa dos filhos, como os vejo preocupados com o futuro financeiro destes. Geralmente, eles ficam com aparelhos ligados emitindo pontos de vista e informações - saber pautado por interesses externos. Grande parte das famílias delega a educação dos filhos a terceiros - elas próprias são seguidoras fiéis dos modismos defendidos pelo mercado. Sabemos que os meios de comunicação de massa transmitem informação. Informar é diferente que formar - estimular a busca pelo saber. O compromisso deles é com a notícia que vende, não com a verdade.
Quanto mais estimulamos a aquisição por objetos de consumo, mais corremos o risco de educar os filhos alheios aos conceitos de civilidade e respeito ao espaço público. Cresce, a cada minuto, a intolerância por qualquer situação que restringe ou se oponha à trajetória do prazer. Tornou-se comum, ao mínimo olhar de reprovação, agredirmos o outro. Poucos suportam serem contestados, criticados. Se, desde pequenos, não somos interditados nos excessos, frustrados nos caprichos, como conviver com os não que a vida nos impõe? Como descobrir que o mundo não gira em nossa volta, e que felicidade é construir laços sociais e afetivos sólidos? Se a violência surge como resposta à contrariedade, a algo que não se sucedeu tal como gostaríamos, concluímos que, ao em vez de educarmos para o amor, educamos para a agressão. Somos seres pulsionais e obedecemos aos seus comandos. Contudo, se desde criança não formos coibidos e limitados nos impulsos, crescemos agindo como animais. Fera solta e livre para sanar as feridas como melhor julgar. Na medida em que cresce a frustração, cresce a criminalidade.
Há algo que fracassa, algo que não se cumpre. O ato da compra opera no indivíduo satisfação transitória - quanto mais consumimos, mais escancaramos a cratera interna. Fenda difícil de enganar. Como repensar o modelo de felicidade e questionar a crença maldita de que, quanto maior a riqueza material, maior as chances de uma vida feliz? Em A arte da vida, Zygmunt Bauman nos alerta: “Na pista que leva à felicidade, não existe linha de chegada. Os pretensos meios se transformam em fins: o único consolo disponível em relação ao caráter esquivo do sonhado e ambicionado “estado de felicidade” é permanecer no curso; enquanto se está na corrida, sem cair exausto nem receber cartão vermelho, a esperança de uma vitória futura se mantém viva”.
Estamos nos especializando em oferecer às crianças o que elas não querem e tampouco, precisam. Assim, as viciamos em esperar a recompensa nos objetos e não nas relações afetivas e vivências amorosas. Às mercadorias, cabe garantir satisfação aos filhos. E aos pais, diminuir a culpa por não lhes oferecer bens “que não se pode comprar”. Aos arautos da vida moderna, arquitetada no consumismo, interessa incrementar, cada vez mais, a indústria da infelicidade. Ela, ao gerar insatisfação, gera rentabilidade - faz a roda do comércio girar. Vende-se de tudo para aplacar a tristeza de se saber frágil diante de exigências e determinações. Frustrados e humilhados diante dos que desfilam fantasiados de bem sucedidos, muitos jovens se consolam nas drogas - estratégia ao amenizar e anestesiar a dor do fracasso. Poucos percebem que o fracasso é, muitas vezes, social e não individual.
Amor ou descaso? Não estaríamos presenciando uma política de descaso aos bons sentimentos? A quem interessa disseminar a descrença no amor - a crença no dinheiro como responsável pela alegria de viver? Não estaríamos traindo os filhos ao induzi-los a acreditar em mais esse engodo? É comum ouvirmos crianças reivindicando a presença dos pais e, quando estes se justificam dizendo que não podem atendê-las e que precisam trabalhar o dia todo para supri-las de objetos, elas respondem: “eu não quero nada, eu só quero você”. De onde se conclui que somos todos náufragos do mesmo barco. Compensamos e redimimos a culpa nos substitutos compráveis. Quanto mais caros, mais nos garantem alívio. Conseguimos empenhar o nosso dinheiro numa ilusão, como se fosse possível oferecer objetos no lugar de bens que só podem ser realizados pessoalmente, só vingam mediante trocas humanas, regadas a emoções e intimidade.
Artigo publicado em 7/05/2011
segunda-feira, 18 de abril de 2011
CRÔNICA DO DESESPERO ANUNCIADO
Inez Lemos
Bullying, fanatismo, misoginia, psicose. Como debater a tragédia de Realengo em meio aos significantes usados para explicar o que motivou Wellington de Oliveira a invadir uma escola, matar 12 crianças e se suicidar? Um psicótico desarmado não representa tanto perigo. O perigo se dá quando um indivíduo revoltado e angustiado sai pela rua armado tentando sanar a dor – ferida narcísica que sangra e faz sofrer. Ao tecer nosso fel moralista e de horror diante de barbáries, devemos questionar se essa não é outra tragédia anunciada. A sociedade brasileira votou em plebiscito contra o desarmamento. A maioria escolheu o direito de comprar armas para se defender. Infelizmente, Wellington usou a mesma estratégia para vingar dos que representavam, em seu delírio, o mau – escola, colegas. O psicótico delira com o imaginário social em que está inserido, ele não fabrica devaneios do nada. Episódios assim expõem os valores em que os jovens são educados. Onde estão se espelhando? Quem são seus mestres? A maioria segue, madrugada adentro, os gurus cibernéticos. A internet vetoriza, instrui e comanda obsessões e delírios. O psicótico opera em busca de algo que supre a referência paterna – religião, seitas, mestres. Wellington, ao demonstrar preferência pelos animais, reprova o ser humano. O que o levou a se identificar com os bichos? Ao sofrer bullying, sentiu-se um vira-lata? Ex-alunos da escola, colegas de Wellington, lembraram que a turma, principalmente as meninas, “zoavam” dele por ser feio e esquisito. E reforçaram: ninguém gostava do rapaz. Bullying, do inglês, ameaçar, oprimir, arreliar. A prática de agredir o outro, desrespeitando-o e fazendo chacota de seus pontos fracos, revela arrogância e violência. Traços da sociedade desigual que não suporta a convivência com o diferente. O indivíduo feio, velho, negro, pobre e homossexual será sempre merecedor de desdém do branco, loiro, rico e bonito. Contudo, não caberia perguntar como nós, adultos, estamos agindo diante das crianças? Como surge a idéia de “zoar” o outro? Sem perceber, acabamos alimentando tais comportamentos. A tragédia de Realengo também deve ser vista como exemplo da violência escolar, uma vez que o ódio foi gestado dentro da escola, quando colegas o flechavam no coração, com descaso e preconceito: “Sai daí seu feio, quando um queria sentar no lugar em que estivesse ocupando”, lembra um ex-colega. Wellington escolheu o alvo, buscou em cada rosto bonito a vingança adiada. Em cada tiro depositou a esperança da redenção, alívio do ressentimento guardado há anos. O psicótico armado representa perigo, assim como um coração magoado, ferido em sua mínima dignidade, pode se transformar em arsenal de revolta. Sabe-se que uma das garotas que mais molestava Wellington se sentia excluída entre as bonitas por ser gordinha. Agredir Wellington era uma forma de adesão ao grupo dos bem nascidos. Na verdade, “Narciso acha feio o que lhe é espelho”. A escola e a família espelham a sociedade e dividem o mesmo tecido social. Portanto, são agenciadoras de violência. Bullying é instrumento de desforra, demonstração de poder utilizado, muitas vezes, para destilar o fel acumulado em ambientes competitivos, sórdidos e desrespeitosos. A instituição escolar, com suas mazelas humanas, provocou em Wellington o desejo de acabar com seu inferno - fogo que dilacera almas desamparadas e solitárias. Do lugar de dejeto, Wellington delirou o momento de notoriedade - por bem ou por mal, vão me reconhecer e admitir minha existência. Há muito os jovens estão anestesiando a solidão na internet, instrumento de sobrevivência das sociedades de massa. A imprensa se mobiliza em busca de saídas - todos anseiam por receitas na tentativa de se evitar outras tragédias. Vítimas de abandono e bullying, alunos feridos em sua dignidade e molestados na alma merecem escuta cuidadosa. Como dar ouvidos às diferentes formas de clamor por carinho e atenção? Como evitar que o colega escancare ainda mais a dor do diferente? Não é hora de a instituição escolar abrir espaço em sua agenda e debater com a comunidade escolar em que sociedade gostariam viver? Ao incluir em seus conteúdos os sintomas que rondam a vida de seus alunos, a escola dá provas de que educa para a vida, de que seu compromisso é com a ética do bem viver. E não apenas com os resultados apregoados pelo mercado – garantia de futuro financeiro promissor. Podemos confundir prioridades ao dar relevância a ações que fogem ao papel de uma escola. Sabemos que, hoje, estudar é festa. A garotada, geralmente, vai munida de gadgets para exibir aos colegas, enquanto os pais desfilam carrões na porta e disputam, de forma arrogante, a fila dupla. Melhor não seria a escola debater o consumo e suas vicissitudes, investigando as implicações para um adolescente de valorizarmos tanto os objetos? Estaríamos gostando mais de coisas que de gente? Podemos ajudar a minimizar a violência entre os jovens, basta sermos mais atenciosos e delicados com o diferente, o outro, que, sutilmente, excluímos de nosso convívio. Poucos perdem tempo com rebotalhos, os olhos da maioria se voltam para os jovens, bonitos e saudáveis. Chega de hipocrisia. A violência diminuirá quando gentileza, respeito e tolerância ocuparem o lugar da arrogância e da maledicência. Quando tivermos olhos dignos para os gordos, velhos, feios e pobres. Basta priorizarmos mais as pessoas, promovendo-as a gente. A beleza da vida está na forma espontânea e natural com que crianças são educadas. Bartolomeu Campos Queirós, em Por parte de pai, lembra-nos da infância e da vida escolar no interior de Minas. Uma ode aos bons sentimentos, reverenciando a emoção que brotava da terra bruta, nos quintais e fogões a lenha. Do convívio com os avós, das relações de amizades e confiança. Bem diferente do convívio com disputas, competições e estratégias de poder. “Filhos de muitos ofícios – pedreiros, lavadeiras, professores, médicos, motoristas, órfãos – e sem inquietações pelas diferenças, nós nos gostávamos em silêncio, vencendo o destino sonhado, um a um. E o recreio era o lugar das trocas: bolo por araticum, maça por manga, goiabada por chocolate, banana por doce cristalizado. E assim experimentávamos o gosto da vida do outro, sem reservas. A nossa diferença era a nossa alegria”. Acredito que Bartolomeu, em seu belo livro, toca na ferida que, provavelmente, motivou o ex-aluno a voltar ao local do crime, uma vez que ele saiu da escola com a alma machucada, violentada, destroçada. Vivemos numa sociedade que ensina às crianças, desde cedo, não trocar, não perder. Nosso filho deve ser o melhor da classe, o mais bem vestido e preparado para ganhar o futuro. A infância, no espírito da colaboração (e não da competição) estimula o bem e o belo, como foi a de Bartolomeu. Desde menino, era provocado pelo avô, que cultuava palavras. E as conservava nas paredes de casa, tal como conservamos jóias. Conservar, guardar o que nos toca, emociona e diz ao coração. “Todo acontecimento da cidade, da casa, da casa do vizinho, meu avô escrevia nas paredes...As paredes eram o caderno do meu avô. Cada quarto, cada sala, cada cômodo, uma página”. Do reino das palavras nasce o escritor - alguém que rompe a solidão com pensamentos, transforma a vida simples em personagem de várias histórias. Somos movidos por aquilo que nos toca fundo. Bartolomeu foi cutucado pelo amor do avô, e com ele fez ouro. Na cultura do “bateu-levou” todos querem ganhar a parada, ninguém aceita perder. Se um indivíduo esbarra no carro ou olha para a namorada do outro, corre o risco de levar bala na testa. O clima de faroeste já se instalou. Não é de hoje que julgamos normal a violência – homofobia, eugenia, misoginia. Enquanto procurarmos fora de nós os responsáveis pelas tragédias que nos envolvem, dificilmente iniciaremos o processo de mudança. Wellington é fruto da cultura da beleza. Narcísica e consumista, celebra a boa aparência e desmoraliza a fealdade e a velhice. Enquanto ensinarmos os filhos a passar a perna no outro, furar fila, não assumir compromissos, a não respeitar serviçais e esquisitos, corremos o risco de, cinicamente e estarrecidos em poltronas, assistir a massacres e chacinas. A banalidade da vida é conseqüência do desprezo pela alteridade. Não seria melhor repensar escolhas, revendo opções, conceitos e posturas? Confinamos os jovens diante de máquinas, oferecendo-lhes uma vida fria, empobrecida de gente, de trocas e amizades. A pior solidão é não ter densidade interior para se envolver – ser incapaz de povoar a vida com a própria mente. A carta do assassino, o monstro solitário, revela o desespero de quem vive isolado e sonha em ser lembrado, reconhecido.
Inez Lemos é psicanalista e autora de: Pedagogia do consumo: família, mídia e educação (Autêntica). Vive em BH e é colaboradora do caderno Pensar do jornal EM. [1] Artigo publicado em 18/04/20011 no Caderno Pensar do EM.
quarta-feira, 16 de março de 2011
FELICIDADE E TRANSCENDÊNCIA
Inez Lemos
O filme Lixo extraordinário narra a trajetória do artista plástico Vik Muniz entre os catadores do aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Muniz resolveu pintar a vida dos trabalhadores do lixão - personagens de um cotidiano entre urubus e a sujeira que os urbanos industrializados produzem e descartam, sem sequer se dar ao trabalho de separá-la. O documentário nos fala de uma outra vertente de felicidade, pois saímos do cinema com uma inveja danada de Vik Muniz e de Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, ex-catador e presidente da Associação dos Catadores de Gramacho. Não digo isso apenas pelo sucesso do filme, prêmios e indicação ao Oscar, mas pela emoção de algumas cenas, como o abraço sincero, comovido e pleno de gratidão que Tião dá em Vik depois do leilão de uma das obras. Esse abraço metaforiza o momento de suprema felicidade, a aliança com o outro que possibilitou o instante em que, emocionados, ambos expressem alegria pela parceria que ultrapassa a marginalidade e se consolida no reconhecimento. A alegria dos catadores chega sob luzes e holofotes, tal como sonham as garotas candidatas a modelo e artista. Alegria gestada entre mosquitos e pobreza, frustrações e humilhações. O laço social foi moldado no sofrimento. Emergiu de um trabalho de parceria, cooperação e amizade – o elo com o feio que se fez bonito.
Não é nada agradável trabalhar na fedentina do lixo. Entretanto, a tristeza se transforma quando analisada na plenitude, sem descartar sentimentos e angústias de seus atores sociais - quando incluímos no olhar a dimensão humana que cerca a vida dos trabalhadores. Vik Muniz reverteu lixo em arte, sujeira em brilho, dor em alegria, desesperança em felicidade. Captou a história que cochilava entre vísceras, restos e dejetos que jogamos fora - resíduos que dispensamos sem ciência e consciência. Como cuidar da podridão que descartamos se recusamos saber sobre o lixo nosso de cada dia?
Sonhamos apenas com o brilho do sucesso, mesmo que esse se sustente na infelicidade do outro, no fracasso e na vergonha. A tristeza não é fashion. Contudo, a sociedade produz gente que se sente fracassada e infeliz. Muniz e Tião são personagens do enredo de uma felicidade engendrada na lama que cerca todos nós. Juntos, desviaram os trabalhadores da escuridão do ostracismo. Mergulharam na esperança de conquistar o mundo exibindo a porcariada que a humanidade produz. Da lama fez-se o ouro. A felicidade deixa de ser ilusão quando orquestrada na interioridade e nos acordes da transcendência. Vik Muniz transcendeu o feio, atravessou o fedor e atingiu a beleza das entranhas, almas que padeciam entre urubus.
O projeto de felicidade delineado na modernidade se tornou um bem subjetivo, capital psicológico. O novo sujeito circula livre das tradições - a trajetória existencial é marcada mais por escolhas individuais do que por um repertório de cunho social e filiações. Onde se encontra a chave desse estado que muitos perseguem com avidez? Há o caminho seguro que garantirá ao indivíduo a suprema felicidade como apregoam as biotecnologias? É possível conquistar o apaziguamento seguindo a biociência - apostar apenas na felicidade sintética? Como desvencilhar da ordem de felicidade como dever e não como aspiração, projeto que associa vida pessoal e social - indivíduo e comunidade? Qual a origem do individualismo como gestor da felicidade contemporânea?
A transição do mundo medieval, teocêntrico, para o mundo moderno, coloca em cena o hedonismo e desloca o conceito de felicidade para o registro do corpo. O cristianismo, que apregoa a felicidade por meio da purificação da carne e da salvação da alma – verdadeira comunhão com Deus, entra em declínio. O corpo vai ocupar o lugar primordial, agora não basta apenas confiar a Deus nossas aspirações e desejos, temos que buscá-los no real do corpo. Em decorrência dessas transformações, Niezsche teceu sua crítica ao cristianismo: “Deus está morto”. Significa que, para se atingir o prazer, vale tudo. A hipótese de que a felicidade é um bem subjetivo, capital passível de ser investido e acumulado materialmente, torna-se aterrorizante e perturbadora. A profecia niezschiana metaforiza a dissociação do mundo com a transcendência. A morte da ordem simbólica marca o advento do individualismo desgarrado das narrativas que orientavam a existência social - significantes que vetorizavam respeito, dignidade, honestidade, dever e ética. O sujeito da atualidade, livres das interdições, é instado a agir segundo suas convicções. Jogado à própria sorte, autônomo, busca o máximo das fruições e dos prazeres da vida. O que antes era reivindicação e meta a ser conquistada se tornou imperativo. Todos perseguem, sob os mesmos parâmetros, o mesmo estilo de vida - ideal de felicidade iniciado com o racionalismo científico e aprofundado pela biotecnologia.
Que felicidade, se o homem, desamparado da providência divina, agora é o único responsável pela condução da vida? A experiência de felicidade não é mais financiada por Deus. Com a racionalização burocrática das instituições e com o discurso da ciência orientando as práticas sociais, dá-se o controle da vida cotidiana, sobretudo quando a imprevisibilidade e o acaso são banidos. Agora tudo é passível de ser avaliado, controlado e previsível. Viver se tornou um grande plano de metas.
A vida humana se torna questão de cálculo e estratégia, incrementa-se o poder dos indivíduos sobre a natureza. Surge a idéia de perfectibilidade e a felicidade, sintética, é forjada em laboratórios e mediada por estratégias de discurso, numa articulação entre ciência, poder e ploítica. A construção de um projeto de felicidade se caracteriza, desde então, pelo culto ao individualismo. É quando assistimos à desconstrução das práticas sociais nos espaços públicos. Com a emergência do “homem privatizado”, o cidadão narcísico da sociedade neoliberal dissemina o ethos que vai fundar o discurso sobre a felicidade. Atualmente, ser feliz é viver seguindo padrões estabelecidos pelo mercado, com total autonomia para ocupar e privatizar os espaços geográficos e humanos. Salve-se quem puder! É a ética a reboque da tecnociência.
O indivíduo moderno, desprovido da proteção divina e do poder público, muitas vezes se desespera. Vulnerável e disponível aos mercadores da felicidade, acata os ditames da biotecnologia. Desamparado, trava a batalha diária pela sobrevivência. Deprime-se, distante da concepção de solidariedade e amizade. Como suportar as tragédias num mundo sem transcendência, sem sentido e desmagificado? A cultura narcísica se assegura ao disseminar o eu ideal. Cria-se, primeiro, um padrão de eu que vai garantir o modelo de felicidade centrado no individualismo e no consumismo, enquanto o outro é excluído, assim como qualquer imperativo de ética e alteridade. O sujeito é forjado sem se interrogar sobre suas convicções e fantasias – atavismos que transcendem a razão moderna. O homem racional, ao profanar o sagrado e desnudar o simbólico, se vê como único responsável pela sua salvação. A trajetória solitária de expansão do eu não inclui o outro no horizonte psíquico. Desvinculado de qualquer referência de alteridade, interioridade e espiritualidade, nos jogamos na arena com os leões.
Se não há felicidade possível senão sob luzes e holofotes, como sobreviver ao medo, ao pânico pela não conquista do sucesso? Como controlar a ansiedade e nos desviarmos do tédio e do desencantamento pelo mundo frívolo, desprovido de transcendência e simbologia? Como escapar do deserto - opressão por uma vida sem sentido, forjada no repertório do eu sozinho? A felicidade é uma idéia, uma narrativa, o sonho que projetaram para nós e acabamos aceitando. Embora, muitas vezes, o modificamos e o ampliamos. Importa que o desejo esteja realmente ajustado à crença de que é ali que reside a salvação. Qual felicidade, a que nos deixa pressionados e estressados na competição pela busca da boa imagem, e desacreditados do amor?
A música que nos encanta é composta em conjunto, cantada em parceria e harmonizada no coletivo. Diferente da minimalista, refúgio dos solitários. O samba do eu mínimo é um samba sem paixão, sem sangue e emoção. Diferente do abraço que Tião deu em Muniz por ter transformado feiúra em beleza! Aterro sanitário é feio, depósito de sucatas e dejetos. Mas feio também são a arrogância, a covardia e a alienação. É acreditar que seremos felizes sozinhos. No mundo dos sentimentos, há os nobres e os vulgares. Dizem que a inveja pertence aos vulgares. Mas, quando somos tocados em nossa vaidade, no orgulho de sermos reconhecidos e elogiados, geralmente produzimos algo de bom.
Lixo extraordinário, além de ser uma aula de sociologia, questiona o narcisismo. Provoca o desejo de abandonar o individualismo e de experimentar a felicidade engendrada com o outro. Felicidade que transcende o aterro sanitário que expele podridão humana.
Artigo publicado na caderno Pensar do jornal EM em 26/02/2011
FAMÍLIA E FUNÇÃO SOCIAL
Inez Lemos
Pais separados, lares monoparentais, recasamentos, filhos criados entre não irmãos. O estatuto da família mudou. O mundo moderno tornou-se o lugar em que narciso deita e rola. E dificulta a tarefa do pai e da mãe, que, diante de ofertas sedutoras e exigências de consumo, beleza e visibilidade, se desesperam. A luta hoje é por reconhecimento e prestígio social. As demandas dos pais por resultados imediatos geralmente os impedem de olhar para os filhos como seres de sentimentos - muitos se esquecem de que, quando envolvem filhos, os direitos individuais tornam-se suspensos e reduzidos.
A vida moderna também não é fácil para os homens. Muitos pais se sentem desqualificados diante dos filhos por não conseguirem atender suas exigências de consumo. Inicia-se o processo de culpabilização, atribuindo somente a eles a responsabilidade de fracasso, quando ela é também social - desemprego, crise econômica. Pressionados, os filhos são vistos mais como fardo que como fonte de prazer. Família é lugar de alegria e sofrimento. Não deve ser administrada na lógica empresarial - custo/benefício.
Vários fatores contribuem para a separação dos casais. A insegurança nas relações se ampliou tanto no contexto afetivo como social. Que amanhã nos espera? O desafio está em descobrirmos saídas que não nos oprimam. No fundo da questão, há a idéia de felicidade, que, contaminada pela lógica economicista, vicia o olhar da família. A anatomia das relações afetivas, quando envolve pais e filhos, revela distorção nos valores e na forma de conceber o mundo. Outrora, filho representava orgulho, era visto como o herdeiro de um nome, alguém que daria continuidade ao legado familiar.
A questão financeira era tratada de forma discreta e se restringia ao âmbito da família. Não era comum contabilizar os custos da educação da prole - hábito que hoje se tornou corriqueiro. Como podemos desejar jovens menos interesseiros se os educamos mais voltados para a conta bancária que para a conta da satisfação? Se o sentimento que cultuamos é o da competição, do levar vantagem a qualquer custo, como podemos esperar posturas generosas e amigáveis na hora em que eles, já casados, resolvem se separar?
A educação para o sucesso é um dilema ético para algumas famílias e instituições educacionais. Muitos pais exigem a educação patrimonialista calcada na desigualdade social e na prevalência do privado sobre o público. Algumas escolas justificam que aboliram do currículo o debate sobre cidadania por julgar relevante focar apenas nos conteúdos cobrados no vestibular. Espelhados no imaginário que circula na arena política, quando domina improbidade, e atentos aos rumos que a sociedade vem tomando, há pais confusos e questionando a educação embasada nos nobres princípios de honra e honestidade. Quando família e escola, imersos no dilema ético-pedagógico, colocam em cheque questões dessa ordem, algo na concepção de Nação fracassou. O ideal republicano, simbolizado na Declaração dos Direitos Humanos, ao operar no inconsciente do cidadão, requer sustentação nas práticas sociais.
Na verdade, o dilema ético é falso, pois o sujeito que cresceu cultuando valores, como honestidade e respeito à coisa alheia, sabe que postura e caminho abraçar. Até que ponto as mudanças no contrato social e as condutas ético-políticas indicam transformações na subjetividade? Como repensar a família e a escola num contexto social e político esgarçado? Todo discurso necessita de um sujeito que o sustente. Não existe subjetividade avulsa, autônoma. A subjetividade, aquilo que expõe a conduta humana, constitui-se como efeito de discurso e de significantes. E, ao se promover no laço social, coloca o sujeito articulado aos pais e aos significantes. Família, escola e política - como desarticulá-las dos significantes de desonestidade e enriquecimento ilícito?
A lógica centrada na usura, no ideal de progresso material, no ganhar e vencer a qualquer custo respinga nas famílias. Assim posto, é de se esperar que alguns casais, ao se separar, tenham condutas de revanchismo e vingança, cada qual marcando território e poder. O Estado, por meio da justiça, só é convocado quando fracassa a ética na família – casais em que impera o espírito de competição e não de cumplicidade e colaboração. Resistente e ressentido com a separação, o parceiro inicia o processo de chantagem e manipulação. Sem escrúpulo, usa o filho em sua jornada de vingança, colocando-o contra aquele que pediu a separação. Nesse momento, os adultos, seja o pai ou a mãe, agem de forma infantil e inconseqüente. Pais magoados e rancorosos destilam ressentimentos sobre os filhos. Quando envolvem vinganças e condutas perversas, separações provocam sofrimento psíquico nos filhos, comprometendo seu futuro.
A questão não está na separação, mas no despreparo do indivíduo para enfrentar perdas e frustrações. Ninguém gosta de perder. A sensação de desvantagem, embora avassaladora, é da condição humana. O sentimento de preterido pelo outro é cruel. Essa dor nos derruba, deixando-nos com gosto de morte na boca. Com a alma seca, mendigamos afeto e amparo. Perder é se ver cara a cara com os limites da vida.
É importante lembrar que, para a criança, não existe pai ou mãe ruim, ambos são queridos e devem continuar sendo merecedores de um lugar no coração do filho. Cabe à mãe instituir o pai ao filho, é ela que o apresenta a ele, portanto, a imagem que o filho tem do pai é constituída enquanto tal pela palavra da mãe. Contudo, muitos pais não poupam os filhos e os envolvem na pletora de brigas e revanchismos. A separação de casais, por envolver crianças no conflito, é questão que o direito de família trabalha na interface com a psicanálise.
Ao reforçar a importância do direito na defesa dos interesses das famílias e na proteção dos direitos dos filhos, aplaudimos a Lei da Alienação Parental, que pune os responsáveis pelas crianças – mãe, pai, avós – que agirem desqualificando e dificultando o contato do menor com um dos responsáveis. Lembramos que o direito do filho ao carinho dos pais é inalienável.
A partir do século 18, com o iluminismo, o direito passa a ser identificado com a lei. A proposta, embora retome aspectos do direito natural e defenda a liberdade individual, acaba por privilegiar a razão, reduzindo o viver em sociedade num governo de leis, e não num governo de homens. Portanto, se a lei é injusta, se ela favorece os interesses dos pais e não da criança - se o que ela reza compromete o desenvolvimento cognitivo e psíquico, pouco importa. Essa é a vontade da lei, da razão científica. O racionalismo científico, em sua vertente positivista e não dialética, revela a face cínica - manipula e defende interesses escusos. E deve ser enfrentado numa perspectiva multidisciplinar. A questão é interrogar o sujeito que, imerso num rancor perverso, julga natural prejudicar o filho comprometendo sua saúde psíquica. Muitos, enlaçados num narcisismo patológico e mergulhados num gozo eterno, julgam-se donos da verdade.
O princípio de liberdade individual preserva a família e os filhos numa ordem ética e jurídica, independente dos caprichos de esposas e maridos. Talvez o deslocamento do familismo para o individualismo explique os conflitos nos processos de separação – momento em que modernidade pode representar mais perigo que salvação. A família é muito mais que organização biológica, transcende o grupo doméstico e penetra no campo simbólico.
Grande parte do que somos é efeito da convivência familiar. Nos lares monoparentais, geralmente, há excesso ou falta de mãe. Mães que não são barradas em seu desejo em relação ao filho ou que o abandona nas mãos de babás e escolinhas. Como diferenciar o impulso de se ter um filho do desejo de cuidar e se dedicar à criança? Maternidade e paternidade são escolhas. A sociedade, muitas vezes, por ainda conservar um viés antropocêntrico, incentiva e desobriga o pai de exercer o papel de educador. Toda criança exige cuidados - alguém tem que assumir a responsabilidade de educá-la e cumprir com o dever paterno e materno. Quando algo falha, quando um dos dois deixa de cumprir tal função, entra em cena o direito, cobrando dos pais o direito que o filho tem em ser acolhido, acariciado e educado. São funções irrevogáveis que o direito se encarrega de impor quando a obrigação ética fracassa.
O Código Civil alemão, de 1900, diz: “O direito matrimonial não deve dominar o princípio de liberdade individual, mas se deve considerar o casamento como uma ordem ética e jurídica independente da vontade dos esposos”. Com o ingresso da mulher no mercado de trabalho, é comum casais se separarem e os filhos ficarem meses sem se encontrar com o pai ou com a mãe. Prevalece a idéia subjetiva e individualista dos direitos. O individualismo e o consumismo comprometem a função social dos pais.
InezLemos – Graduada em história/UFMG, mestre em educação pela FAE/UFMG e psicanalista. Autora de Pedagogia do consumo: família, mídia e educação (Autêntica).
Artigo publicado no caderno Pensar em 19/02/2011
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Tempo e desejo
Inez Lemos
Maconha, crack, Rivotril, anfetamina, ecstasy, tabaco, cerveja e cachaça. A mercadoria existe por que há demanda. A demanda aumenta porque produtores e comerciantes querem vender cada vez mais. Os interesses se entrelaçam. Ninguém está sozinho nesta rede de vícios e obsessões. Se ninguém nasce traficante, viciado, corrupto, obeso ou criminoso, quem os produz? A demanda por mercadoria existe por que tentamos tamponar nossa incompletude com objetos de consumo - os obscuros objetos de desejo. Deslocamos a insatisfação e nos posicionamos como reféns dessa senhora midiática que gosta de conduzir nossas vidas. Ela é a mentora existencial - autora do enredo que seguimos sem questionar. Somos guiados por mensagens, significantes que zumbem nos nossos ouvidos.
Há uma diferença enorme entre demanda e desejo, interesse e ideal, alegria e sucesso. Hoje, ser bem sucedido significa atender a demandas impostas pelo mercado de forma rápida, objetiva e prática. Sem titubear. A dúvida é coisa de frouxo. Esquecem que o mecanismo de funcionamento do ser humano é diferente do computador. Não basta clicar: somos intermitentes, confusos - a subjetividade embaça o olhar dos sentimentos. O ideal de vida focado na operacionalidade embaralha, confunde desejo com busca incessante por benefícios. A mania de querer transformar gente em mercadoria - produto perecível, efêmero e descartável, provoca no sujeito sentimento de impotência. Frustrado, ele se revolta por não dominar as emoções, os incômodos que bolem por dentro. Geralmente, caímos em depressão e recorremos aos psicofármacos.
“Naquele tempo, se uma mulher de destino burguês se entediasse, ela não jogava cartas, não corria para o cinema, mas escolhia um livro e lia. Também assim passava as noites meu pai, com um livro nas mãos. Posso afirmar, sem exagero, que na nossa região, para o burguês do fim do século, o livro era necessidade real, como o pão diário”. O húngaro Sándor Márai, em Confissões de um burguês, abre o coração ao narrar a angústia do homem que cresce junto às duas guerras mundiais, ao mundo que se orquestrava nas batutas do capital. Márai nasce com o século 20. É testemunha ocular das transformações – transição da produção artesanal para o mundo em que as relações de trabalho assalariado obedeciam às orientações capitalistas. A atenção voltava-se para a produção em série, industrial. O trabalhador despia-se de sua vontade e seguia o operariado. O trabalho individual acabou. Poucos produzem o que deseja. A lógica não é mais a dos homens, mas a dos donos dos meios de produção – tecnociência. É quando o livro, o pão da alma, é substituído pelo circo virtual.
O principal efeito deste modelo de sociedade é o menosprezo pelo ser humano. A linha de montagem é o monstro que suprime o sujeito e sua via desejante. Ao repetir movimentos, ele perde sua substância, deixa a alma junto à mercadoria. Na fábrica, é comum o operário entrar gente e sair cadáver. O capital, ao roubar seu saber, apropria-se de sua vida – corpo e alma, mente e coração. O mundo industrial alterou os conceitos de felicidade, amor, desejo, tempo, sofrimento, tristeza, alegria, saúde, doença, família, ética e bem-estar. Felicidade é uma televisão de 50 polegadas.
Para nós, antigos, felicidade era cultivar a esperança no grande encontro, momento em que colocaríamos os pés nos trilhos do trem que nos conduziria a nós mesmos. Como reverter o olhar contaminado e embrutecido? Ao transpor a neblina, descobrimos que podemos recusar modismos, pois precisamos de muito pouco para viver. O pouco é muito. Muito em consistência e transcendência - suficiente para domar as inquietações, o tormento abrasador que não cessa em demandar.
Vivemos ungidos pela falsa crença na felicidade industrializada. O homem moderno não gosta de perder tempo, quer a poesia e a alegria sem amargura. Felicidade não é percurso, suor e peleja na arquitetura da existência? O suor metaforiza a condição humana, somos muitos mais que matéria. Somos um corpo erótico que berra, por transcendência, na multidão dos shoppings. Como superar a posição do herói trágico – sabedor da tragédia que é viver o desamparo que a modernidade o condenou? Como enfrentar o isolamento fundado em ilusões identitárias - ilusão imaginária de filiação, amizade e amor? “O homem “feliz” não cria; o homem feliz é, simplesmente, feliz. A “felicidade” numa me atraiu como um objetivo de vida de que pudesse me aproximar de alguma forma”. Assim Márai testemunha sua desconfiança em relação ao pacote de felicidade que o mundo das mercadorias nos oferece – apaziguamento calcado em aquisições desnecessárias e irrelevantes.
O ato de comprar se tornou sinônimo de felicidade – nós nos identificamos com as imagens das mercadorias, em detrimento das identificações com nossas raízes e atavismos. O indivíduo, ao cunhar sua felicidade distante da porção que lhe cabe na trama subjetiva, ao se curvar diante dos imperativos de consumo e se aliar aos ordenadores do laço social, é invadido por um sentimento de fracasso. Impotente e se culpando pela condução equivocada de sua vida, ele ou se entrega ao trabalho ou sucumbe - desmorona e se deprime. Desgarrado das referências paternas que o sustentariam, é convocado a negociar o desejo em troca de ofertas sedutoras de consumo. Fetiche, feitiço, fantasia - ninguém vive sem. Vamos às compras com a mesma fé com que íamos à Igreja. Contudo, se a sedução fugaz se desfaz, nós nos sentimos desamparados, dessubstancializados. Temos perda de satisfação. Abrir mão do desejo é uma forma eficaz de autopunição e autodesprezo – masoquismo mortífero.
“O capitalismo é o senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Isso é uma monstruosidade. O tempo é o tecido da nossa vida”. Aqui, Antonio Candido coloca o dedo na ferida. A forma como lidamos com o tempo é a mesma que lidamos com o desejo: equivocada. Mais um sintoma do homem industrializado. O principal efeito dessa estratégia de controle existencial é o menosprezo pelo sujeito e sua via desejante. Estamos administrando o ser humano como administramos tabelas e cronogramas, com o olho no resultado - custo e benefício. O tempo é mais um pré-texto, é efeito, e não causa. Devemos investigar o que nos deixa “tão sem tempo” para reivindicações da alma. Se seguirmos essa lógica, descobriremos que falta de tempo é um falso problema. Outra justificativa para as neuroses. Uma recusa em assumir posição diferente diante da concepção atual de temporalidade, que suprime o tempo duração - tempo comandado pelo coração.
Quem é o sujeito da relação que estabelecemos com os objetos de consumo? O consumidor ou o produtor? O mercado existe em função da produção, ele precisa esvaziar prateleiras. Com isso, nós nos tornamos alvo dos mercadores. Se não há mais vontade própria, só interesse controlado por estratégias de marketing, como fica o desejo da criança meio a tanta manipulação? Muitos pais julgam que a melhor forma de educar um filho é construindo fortuna para ele. “O dinheiro do meu pai não me satisfaz, eu não sou ele, ele não é parte de mim. Ele pouco resolve, só me angustia e me paralisa, aí busco refúgio na droga para esquecer minha insignificância” - desabafa um jovem em análise. Como repensar a condução dos jovens no mundo da tecnocultura? Muito tempo para manipular mouse e pouco tempo para investigar o desejo. Normopatas? O normopata congela os sentimentos e, num automatismo, só transita com desenvoltura em normas estabelecidas. Robotizado, circula no mundo de forma operacional e instrumental. O tempo é ferramenta que opera com os interesses do momento. Que momento? Do tempo reduzido das relações afetivas, do olho no olho? Tempo escasso do pai com o filho? Tempo insuficiente para desvendar tramas e fantasias que nos emperram?
Uma luz no fundo do túnel se anuncia. “Minha profissão hoje é ser pai. Quero me dedicar totalmente a isso. Nada paga o prazer de acompanhar o crescimento de minha filha, ver a menina aprender uma palavra. É fascinante”. Eis o depoimento de um pai em reportagem sobre o desejo dos pais em cuidar dos filhos. Alguns deles estão descobrindo o prazer em desempenhar tarefas valiosas e deliciosas que antes eram do domínio feminino. Estão desafiando o imaginário perverso de que filho é obrigação. E assumindo a opção.
O desejo é intervalo sempre em aberto que pulsa entre o tempo do sujeito e o tempo urgente do outro, esse terceiro irredutível que se interpõe entre o homem de negócios e a criança. Para que essa distorção se rompa, temos que ser mais forte que o usurpador de tempo. Devemos assumir a autoria do nosso tempo e do nosso desejo. Pais, nos próximos Natais, que tal darem aos filhos este presente precioso: uma cesta recheada de tempo?
Artigo publicado em 18/12/2010 no C. Pensar do EM.
domingo, 21 de novembro de 2010
FUNDAMENTALISMO EXISTENCIAL
Inez Lemos
O totalitarismo suprime a liberdade de pensamento. E a política não pode ser permeada de preconceitos. O cenário predominante das eleições deste ano violentou o pensamento. O que subjaz nas concepções conservadoras que obscurecem o debate com a sociedade, como o que se estabeleceu em torno da descriminalização do aborto e do casamento gay? Convocar o evangelho em questões seculares, questões de saúde pública e insistir na vertente fundamentalista é negar emancipação e voltar ao tempo da inquisição, que se arrogava ao direito de legislar sobre o corpo do outro. E tratar, de forma moralista, questões políticas. É assistir a um festival de manipulações criadas por religiosos que se utilizam de prerrogativas do cargo para convencer incautos fiéis. Fazer uso da Bíblia em debates políticos soa como blasfêmia, apelação. Nessa dança de aproveitadores, quem toca a música é o interesse político - a bancada religiosa, longe de querer salvar almas pecadoras, se ocupa em garantir espaço no congresso.
Debater questões sociais com moralidade é esperteza. Quem acusa o outro de pecador se atribui o direito de julgar e controlar. A Igreja medieval usou e abusou de dispositivos de poder. Em nome de Deus, condenou, prendeu, torturou, abusou sexualmente, queimou muita gente e enriqueceu. A forma mais eficaz de controlar um povo é tirar dele a capacidade de escolher com lucidez. Fundar uma concepção em cima de dogmas e tabus é obscurantismo, é retorno às trevas.
A internet tornou-se a tribuna dos jovens. Nela, por meio de sites de relacionamento como o Twitter e o facebook, muitos registram opiniões, protestos. A tecnologia, por meio da internet, atua como valioso meio de comunicação. E os jovens que nasceram pilotando os botões da modernidade virtual, se esbaldam. É o mundo acessado em minutos. Acredito que, se soubermos usá-la, as vantagens superam os perigos. Como tudo na vida, a qualidade da internet dependerá da capacidade do usuário de escolher e discernir o que é lixo e produção descartável, do que é sério e merece conferir.
A estudante de Direito Mayara Petruso, de São Paulo, puxou a fila de jovens preconceituosos e que, pelo que demonstraram, desconheciam o rigor da lei 7.716, de 1989, que reza punir os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião e procedência nacional. Impulsionados pela onda de preconceito instaurado na campanha do segundo turno para presidente da República, Mayara postou vários comentários expressando sua ira contra a vitória da candidata do PT, Dilma Rousseff, e foi respaldada por uma enxurrada de textos de outros jovens, cidadãos do eixo Sul-Sudeste. O alvo era os nordestinos. Avaliaram os votos do Nordeste decisivos no resultado da eleição. Entre as pérolas registradas, temos: “Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado”. “Só Hitler acaba com a raça dos petistas construindo câmara de gás no nordeste matando geral”. “O #nordeste é um lugar onde nós, pessoas brancas de classe média alta, vamos fazer turismo sexual comendo umas baianinhas vagabundas”.
A Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE) processa a estudante por discriminação contra os nordestinos. Mayara não está sozinha na empreitada em destilar o ódio xenófobo contra os irmãos de cima. O site Diga não à Xenofobia! denunciou 110 mensagens de ódio aos nordestinos e apoio à estudante. Resta aguardar os desdobramentos, contudo, se depender de Janice Ascari, procuradora regional da República em São Paulo, os intolerantes que compactuaram com a discriminação podem receber a mesma punição: “É um absurdo e incompatível com os preceitos da Constituição”.
Contudo, esse é mais um crime anunciado. Todo profissional que atua no campo da formação humana, e que acompanha a forma como os jovens estão sendo inseridos na cultura, recebe notícias como estas sem surpresa. Intolerância e posturas fundamentalistas intensificaram com a globalização e o fim dos movimentos sociais. A sociedade foi substituída pelo mercado. Interesse e desejo tornaram-se a mesma coisa. As escolas, ao julgarem mais relevante se ater aos conteúdos do vestibular, priorizando uma educação enxuta e focada, descartam a reflexão e o debate. A morte de Deus, proclamada por Nietzsche, aponta a morte da transcendência, o fim da capacidade de recusar o pensamento positivo e único. Enterra, junto à metáfora divina, a dialética, a lucidez e o discernimento. Assistimos ao funeral da tradição do pensamento iluminista - a razão moderna cai por terra. É o declínio do ato de refletir sobre conceitos preestabelecidos, quando a possibilidade de conferir significado à ação é anulada e desprezada.
Família e escola são fortes aliados na formação do cidadão. Embora de lugares diferentes e com atribuições e graus distintos, ambas são responsáveis em apontar os limites fundantes da vida na sociedade. Os códigos de ética e boa conduta operam como vetores. Contudo, quando a violência prevalece entre jovens de classes abastadas, acreditamos que algo está fora do lugar. Ninguém nasce racista, preconceituoso. Onde que eles estão aprendendo a desrespeitar o diferente – o feio, homossexual, negro, pobre e cabeça chata? O discurso predominante enaltece o papel da biologia, atribuindo à hereditariedade, genética, DNA, o destino da criança. É confortável vivermos numa sociedade que desresponsabiliza os pais pela conduta dos filhos, atribuindo tudo aos genes. Todo comportamento é avaliado sob critérios objetivos, desconsiderando o viés subjetivo. Esquece que é a linguagem, que permeia as relações sociais, quem estrutura o sujeito. Uma questão política e cultural torna-se genética. A criança que presencia os adultos desqualificarem um subalterno, cresce convicta que ela é um ser superior a esse outro e desrespeitá-lo é um direito e não uma violência ou crime. Em São Paulo, geralmente os serviços de porteiros e domésticos são realizados por nordestinos.
O preconceito é a crença em um conceito falado, o significante que chega como dispositivo de verdade. O preconceito contra uma determinada raça, ou população, é uma estratégia de poder. A crença de que os paulistas são superiores aos nordestinos produz uma ilusão identitária - tanto nos que se arrogam superiores, como aos que se veem como inferiores. O racismo surge como forma de justificar a exploração de um povo sobre outro, revelando sempre interesses econômicos. Assim foi com os africanos e judeus - sempre haverá um alvo para justificar ações de desrespeito e violência. Criam-se dispositivos que produzem ilusões identitárias, ofertas imaginárias de pertencimento. Os jovens, ao se aliarem aos significantes de classe e ordenadores sociais oferecidos pelos defensores da desigualdade racial e social, são contaminados por mensagens de intolerância. Enquanto a plebe, envergonhada e excluída do banquete, se adapta ao lugar de negativo social. É o fundamentalismo colonizando o inconsciente e a existência. Muitos recusam o debate e, de forma dogmática, seguem os messias da contemporaneidade – mercado, sociedade de consumo, religiões espetáculos.
O espírito iluminista emergiu com o Renascimento, Deus já não exercia tanto poder sobre os homens, e a humanidade, desamparada, via-se responsável por seu destino. Propagava-se o pensamento crítico ao obscurantismo religioso. De Espinosa a Voltaire, Kant a Marx, Freud a Foucault, o que temos é o alerta aos falsos profetas e falsos saberes, convocando o homem a usar o juízo e o pensamento livremente. A maior contribuição do iluminismo foi desmistificar falácias, libertando o indivíduo de qualquer forma de soberania, seja religiosa, geográfica, racial. A questão era subtrair o ser humano de todo particularismo identitário, religioso ou sexual. Contudo, sem o benefício da dúvida e da dialética, recusamos a diversidade, o avanço social, e investimos contra a lucidez.
Camus, em O mito de Sísifo, analisa a tragédia que é viver segundo as ordens de um outro e alheio aos nossos interesses. Camus chamou de homem absurdo o que sabe de sua tragédia. O mito trágico e seu herói, que tem consciência do absurdo que é o trabalho alienante e repetitivo. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, sabe de sua condição de miserável, que não pode fazer nada de eterno, como conferir sentido profundo às coisas e ao trabalho. Sísifo metaforiza a alienação a que muitos se submetem ao viver subjugados. Sempre haverá uma classe disposta a usar de estratégias discursivas para imprimir no outro o sentimento de inferioridade. Há os convictos da existência de uma super-raça - os eleitos por Deus. Oliver Cromwell, militar e político britânico, líder da Revolução Inglesa, no auge do delírio escreve o livro O eleito por Deus. Como os jovens do Twitter que, num momento de alucinação, se julgaram acima do bem e do mal. Espero que não falte gente séria em avisá-los que racismo é crime, no Brasil, desde 1989.
[1] Artigo publicado em 20/11/2010 no caderno Pensar do EM.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
A LOUCURA DE MACHADO
Inez Lemos
No mês das comemorações do Dia do Médico (18 de outubro), recorro ao escritor maior, Machado de Assis. Vale lembrar o que esse visionário da literatura já prenunciava: em O Alienista, ele metaforiza a sociedade que vê patologia em tudo, a crença cega na ciência e seus arautos. O médico Simão Bacamarte representa a obsessão pela reclusão ao atribuir aos métodos científicos a responsabilidade pela cura dos cidadãos que apresentavam sintomas psíquicos.
A ciência do século 19, com seu olhar frio e instrumentalizado sobre o sujeito, submete-o ao saber médico – saber/poder. Essa lógica está na contramão do que podemos chamar de tratamento psíquico ético. Tratamento diz da forma como médico e paciente interagem, implica participação no processo. O sujeito interroga o sintoma e, ao se envolver, toma para si a responsabilidade dele. A postura de se implicar no sintoma é diferente de delegar ao outro a responsabilidade pela condução do processo.
O Alienista representa a ciência que se coloca como absoluta, julgando-se capaz de tratar o sujeito apenas por meio da medicação. Uma ciência sem brechas para ouvir o sujeito e seu sofrimento, suas angústias e delírios. Machado, já naquela época, lança sua profecia contra o discurso da ciência encarnado em Simão Bacamarte. Crença que atua no sujeito como dogma: “A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, - com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução”.
A maioria da população de Itaguaí se submeteu ao poder de Bacamarte como alusão ao pensamento único, tão em voga no mundo contemporâneo. Vivemos o despotismo científico - hegemonia do discurso da ciência, que vê cada sujeito como objeto a ser manipulado, avaliado e diagnosticado. O viés biológico, que associa cada sintoma ao potencial de medicação, nos remete à idéia de cárcere e terror que domina Itaguaí: “A Casa Verde é um cárcere privado”. Que lugar a indústria farmacêutica ocupa nessa história? Trocamos as grades dos hospícios pelos efeitos deletérios das drogas lícitas, inibidoras e amortecedoras do sujeito desejante?
A questão não é denunciar a ganância das indústrias de medicamento, mas refletir sobre o conjunto de medidas no sentido de calar as vozes discordantes, apaziguando o sujeito de forma sutil, branda e limpa. A quem interessa o apagamento do sujeito? Uma vez diagnosticado, cria-se o estigma, o preconceito, a vergonha e a inibição. Ter um diagnóstico de bipolar é como ser premiado pela profecia de doença, sofrimento que poderia ser evitado. “Ao me separar de minha mulher, fiquei deprimido, me sentindo frágil, desvitalizado. Procurei um psiquiatra e ele me medicou, dizendo que eu era bipolar”, testemunha G, que chegou para a análise fazendo uso de lítio - medicação controlada. Hoje, G tenta superar as marcas do diagnóstico equivocado. Contando apenas com a coragem moral, ele busca investigar, ao deslizar sobre as dores guardadas, um novo sentido para a vida.
Ser alienado é se demitir da condução da vida, submeter-se à pragmática prescritiva e, sem interrogar, consumir tudo o que ela determina. Sem questionar os diagnósticos, sem querer saber mais de si, o sujeito se entrega à estratégia publicitária dos laboratórios, que insistem em ensinar a ele como se portar diante dos sentimentos. O que se modifica é a posição subjetiva do usuário, que se comporta como refém da psicofarmacologia. O principal desastre dessa estratégia discursiva e mercadológica é a patologização dos sentimentos e da existência, pois qualquer mal-estar se torna doença. Curar-se significa decifrar o sofrimento. Cura é mais que bem-estar, é mais que se sentir feliz. É se sentir livre, dono de seu corpo, sua vida.
Michel Foucault já havia nos alertado sobre abusos dos dispositivos de poder - saber que, mal empregado, mais oprime que liberta. É mais fácil intervir na doença que no sujeito e seu sintoma, excluindo-o e rotulando-o. A reclusão moderna é diferente, não se dá pela força, mas pelo convencimento, pela submissão e pelo autoengano. A única sanidade disponível é recusa ao afã da nova ciência. Quem é o louco da neociência? Os laboratórios, os médicos ou o paciente, que se submete, sem questionar, aos diagnósticos? Há algum tempo, seria impensável a criança ser diagnosticada, apressadamente e de forma pouco criteriosa, de psicótica ou hiperativa.
A sanidade que desejamos lembra refúgio, apaziguamento. Lugar a duras penas conquistado para viver os sonhos. A insanidade do homem moderno é não saber de seu desejo. O conceito atual de sanidade nos lembra obediência. São é aquele que cumpre as ordens médicas, que cobra do doutor fórmula mágica para o transtorno. Eis o paradoxo: ao nos submetermos aos investimentos do capital contra a subjetividade, disponibilizamo-nos a seus interesses e o elegemos dono de nosso corpo. A loucura machadiana fez literatura e pôs em xeque o poder da ciência. Denunciou a sordidez da sociedade, rejeitando crenças petrificadas, mitos perversos, valores e comportamentos elitistas e excludentes. Deflagrou a barbárie conduzida pelos barões.
Quando tememos a insanidade, revelamos ódio aos projetos com os quais nos envolvemos de forma contrariada. A busca de sucesso financeiro a qualquer custo revela ódio à felicidade - medo da satisfação primordial, o encontro com o primeiro objeto amado e perdido. Temer a insanidade significa temer a infelicidade. Como levar à frente o projeto de vida que escolhemos sem nos deixar invadir por uma força transbordante e arrebatadora, que nos joga do outro lado da vida, sem autodomínio?
A loucura é vista como perda de controle - o sujeito rompe com o proibido e assume escolhas descabidas, fora da ordem social. Se sanidade é assumir projeto próprio de vida, descobrir a autoexpressão, tal postura se aproxima do conceito de loucura. Se, por um lado, sanidade diz da coragem de ludibriar e escapar dos despropósitos oferecidos pelo mercado, por outro, isso inclui uniformidade - todos se encaixam no mesmo padrão, apagando diferenças e subjetividades.
É difícil debater sanidade numa cultura que não incentiva o pensar e a criatividade. Desejamos, na sanidade, exatamente o que ela exclui: paixão e excentricidade. Se a loucura está relacionada ao excesso, o são é uma pessoa limitada em sua “loucura”. Falsa sanidade é nos assujeitar à pressão social que nos dificulta assumir a responsabilidade por nossa vida, vivendo-a tal como nos agrada. A retórica da sanidade e da loucura esbarra na busca do sentido da vida. Ou de como se escapa da falta de sentido. A sanidade aparece como conquista: algo que adquirimos ao longo da vida, e não como algo com que nascemos. A luta pela lucidez inclui não se contentar com explicações simplistas, atribuindo tudo à genética. Muitos atos de insanidade não resultam da ausência de lucidez, mas do uso perverso dela. Para os superficialmente sãos, sanidade significa vida sem dor e tormento, totalmente integrada ao modus vivendi.
A sanidade passa pela capacidade de enfrentar a própria turbulência. O que sentimos e desejamos depende do lugar de onde partimos – vivências e raízes. Viver implica conflitos, e a realidade não coincide com o que idealizamos. É salutar saber lidar com as dificuldades que o querer envolve. Viver é diferente de vencer - significa fazer escolhas e se aventurar na dimensão humana. O percurso interessa mais que a chegada – quão chato seria trilhar caminhos já sabidos. A sanidade que interessa é construída no contínuo ganhar e perder, amar e sofrer - longe do fundamentalismo burguês de sucesso, poder e segurança.
Nietzsche, em Sobre a genealogia da moral, nos lembra Platão: “Foi graças à loucura que as coisas mais excelentes surgiram na Grécia”. Loucura necessária é ousar, esticar o fio da existência, transcender paixões. Como testemunha o velho pensamento: “Se o louco persistir em sua loucura, torna-se sábio”.
Machado é um escritor que faz jus a seu tempo e a seu país. Com elegância e nobreza, lançou ironia sobre burgueses que não economizavam desfaçatez - elite tacanha e pouco ilustrada. Com certo fel de classe, ilustrou e representou os que usavam o moralismo para se defender. Não poupou as mulheres e os casamentos por interesse: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos”. Eis a grande loucura de Machado: com coragem e lucidez, denunciou extravagâncias da sociedade conservadora, patrimonialista e reacionária do Rio de Janeiro no século 19.
Talvez por tudo isso o Brasil não produza mais loucos como Machado. Vivemos tempos de aberrações, perversões, crimes e violência. Os excessos se deslocaram - na ausência de lei, a arte é dispensada. A loucura rentável prejudica, agride e faz a roda do consumo girar. A libido foi cooptada pelo mal. O demônio da modernidade se alastrou junto à massa, banalizando o sentido da vida e nos encerrando na miséria existencial. Barbárie é vida sem utopia, sem coragem para transgredir palavras de ordem: goza, compra!
Artigo publicado no C. Pensar do EM em 30/10/2010.