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e entusiasma a alma.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A SOLIDÃO DOS INTERNAUTAS

Inez Lemos

“Minha vida era só tristeza, eu era rejeitada na escola, os colegas zoavam, e, por não ser bonita, me chamavam de canhão. Um dia resolvi me produzir, fiz umas fotos sensuais e coloquei na internet. Consegui amigos, muitos interessados em me conhecer. Depois meus pais descobriram, e eu tive que apagar tudo, minha alegria acabou”. A fala de M, de 15 anos, nos ajuda a interrogar o que leva os jovens a aderirem, de forma cabal, aos sites de relacionamento. O mundo virtual funciona como um cabaré para os jovens e adolescentes. É onde eles se refugiam em conversas, confissões, expõem desejos - encontram os pares, se sentem amados, reconhecidos, notados.

O desabafo de muitos jovens e adolescentes giram em torno do quanto a vida dos adultos é, para eles, desinteressante. Muitos reclamam da falta de empenho dos pais em tentar compreendê-los. Mesmo sabendo que essa é uma tarefa difícil, muitos julgam um absurdo os pais não se esforçarem em ajudá-los a enfrentar as ciladas do mundo atual. A maioria acredita que a internet funciona como um oásis no deserto, ajudando-os a suportar a solidão e o isolamento. “Meu pai senta-se à mesa e só fala de negócios com minha mãe. Os papos deles são só coisas que envolvem dinheiro, ele nem percebe que eu estou ao seu lado nem pergunta o que estou estudando, se estou gostando da escola, é por isso que eu não falo mais nada de mim em casa, converso só com meus amigos”, confessa R, 17.

A sensação que tive, ao investigar o fascínio que o mundo virtual exerce entre os jovens e adolescentes, é que a internet opera como um reduto. Espaço onde eles se sentem vivos e importantes. E expressam revolta por se sentirem rejeitados pelos mais velhos. Alguns consideram a vida atual imprópria para educar filhos, uma vez que muitos pais julgam qualquer coisa mais empolgante que se dedicar aos jovens. “Eu sei que o meu papai podia ficar comigo, sair, jogar bola, mas ele sempre preferia os amigos. E minha mãe não largava as novelas dela por nada”, desabafa L, 16. Será por isso que agora eles abominam a companhia dos pais? Significa que cumprir com a função paterna e materna, há muito tempo deixou de ocupar um lugar no desejo dos pais?

O jovem se move num mundo que não quer saber dele senão como consumidor. Não o quer enquanto sujeito de desejo e conflitos, frustrações e sofrimento. São alvos de atenção quando se submetem às seduções de consumo – cordeiros que seguem o cortejo triunfal dos bem-sucedidos. Quando não nos responsabilizamos pelo nosso desejo, nos transformamos num corpo morto, sem voz e vontade própria. Muitos têm consciência que habitam um mundo de vozes inaudíveis e olhares congelados numa só direção. A harmonia interior se expressa sobre um fundo de discordância, é conquista que implica superar confrontos. Discordar é visto como briga, desavença. Muitos pais cobram uma educação focada, operacional - não querem perder tempo com debates sobre ética, cidadania. Tudo deve ser acordado de forma rápida, sem elaborações.

Vivemos a sociedade da voracidade - que se pauta muito mais por valores privados que por valores públicos. Na escola, o filho tem que produzir e responder às expectativas de aprendizagem. Caso esteja destoando da turma, deve ser logo diagnosticado, medicado. Compactuamos com as regras da era cibernética. Aderimos aos modismos e julgamos mais fácil aceitar que contestar. “Crianças de 2 anos já usam computadores em escolas”. A mídia nos avisa que algumas escolas de São Paulo, no intuito de ganhar pontos em relação às outras, estão antecipando o ensino de informática. Alguns pais, por necessidade de participar da horda, sem interrogar, mergulham na obediência voluntária e aderem às insanidades da tecnocultura. Abrem mão da autonomia e do direito de defender convicções. Lembramos que a passividade circula no campo da pulsão de morte. Há uma moral fundamentada na razão humana que está se esvaindo.

Permissividade rima com preguiça - permitir é mais fácil que lutar e exigir. Submeter-se às necessidades criadas pelo mercado, aceitando que imponha hábitos e rituais. Concordar que os objetos adquiram dimensão bem maior que as relações inter-humanas - que o cachorro ocupe lugar de prevalência em relação ao filho. Defender que o período que gasto com vaidades legitime o tempo que falta à minha família. Estamos todos justificados diante das exigências do momento. Está tudo certo, apenas estamos roubando da criança o direito de ser inserida em mediações criativas, que estimulam o fazer por si e a autonomia. Brincar com os filhos implica envolvimento, interação e contribui no amadurecimento da relação, fortalecendo o laço afetivo. Enquanto a submissão às determinações de fora produz sentimento de inutilidade e abandono - base doentia para a vida. A modernidade põe em cena o desamparo. É desumano, mas é fashion.

A solidão dos jovens deve ser investigada dentro do rol de exigências que o mundo atual cobra deles. Mal a criança nasce, o empanturramos de expectativas, palavras de ordem. Tornou-se comum ouvir que os profissionais devem atender às expectativas do mercado. Será que os profissionais competentes deveriam se submeter ao mercado tal qual ele exige? Muitos, embora bem sucedidos profissionalmente, são imaturos e despreparados diante dos sofrimentos e desafios da vida. Vida íntima, vida afetiva. Muitas são as vidas que nos enlaçam. Viver é também se aventurar pelos chamados da alma e debruçar sobre os apelos do coração, imprimindo nossa marca no mundo - do trabalho e das relações afetivas. Senão é seguir plano de metas e cumprir agenda externa e estranha.

Ao preservar a singularidade, devemos colocar um ponto de basta na voracidade do mercado, que, sem pudor, invade os espaços privados, determina e define nossos passos. Não há mais lugar para o espontâneo - o cerimonial decide! Vida planejada, sentimentos controlados e desencontrados. Outrora éramos mais avacalhados, mas havia naturalidade nos gestos e espontaneidade nas relações. Viver era mais verdadeiro. Bebíamos mais da fonte bruta, autêntica. Na medida em que nos tornarmos prisioneiros de demandas alheias, nos alienamos da condição humana. É a mercadoria que se revela na figura do destino inexorável, é ter ou ter. Ambicionar, adquirir, acumular.

O indivíduo tributário do sentimento de despertencimento, autocentrado, cresce na valorização narcísica e na negação de símbolos e atavismos. A trajetória do individualista difere da trajetória do sujeito que cultua raízes e valoriza vínculos e sentimentos como fundamento do sentido da vida. Autonomia é diferente de independência. O sujeito autônomo constrói o seu percurso na interação com o outro e com o mundo que o cerca. O individualista segue um roteiro independente do outro, seu compromisso é apenas com ele. O outro é apenas um serviçal.

A maioria dos jovens não acredita que possa criar alternativas distantes do mal-estar reproduzido na lógica da linha montagem industrial, existência coisificada e marginalizada. Crueldade sempre existiu, mas há uma crueldade refinada no mundo ultraliberal que enfatiza a técnica pela técnica. Falo da servidão sutil e disfarçada às quais muitos jovens estão se submetendo. Confinados diante de uma máquina, passam horas entretidos numa inclusão virtual e imaginária. Será que as novas formas de sociabilidade geram novas sensibilidades? Será que os amigos virtuais vão se interessar pelos nossos problemas e nos fazer companhia nas horas difíceis? Podemos confiar nas amizades que nascem na tela, tal qual as que brotam numa mesa de bar, no olho a olho, tendo como parceira o desejo da companhia - testemunho da paixão que habita os homens ávidos por ligações viscerais? Amizade é algo que não se propõe, acontece. Percebemos uma paranóia, uma obsessão em vasculhar a vida do outro (amigo ou namorado), aproveitar do mecanismo tecnológico e por em cena a maledicência. Gozo em invadir privacidades. Avançamos em relação às fofoqueiras, que se debruçavam nas janelas para se deliciar com a vida alheia? Esse lamento não passa de um delírio saudosista ou o mundo que estamos construindo para os jovens está mesmo estranho?

Como acreditar mais nos sentimentos que nos signos de poder, fazendo-se merecedor da dedicação dos pais na difícil travessia para o mundo adulto? Crescer longe da mistificação criada pela publicidade, da fascinação pela ostentação que garante ao sujeito respeito? Fugir às determinações: “Escolha uma profissão que dá dinheiro, esse papo de fazer o que gosta é furado”. Lançados na fogueira narcísica dos pais, submetem-se aos mecanismos de compensação de insatisfações e ressentimentos. Pressionados, se demitem da família e buscam abrigo nas tribos virtuais - antídoto contra a solidão.

[1] Artigo publicado no C. Pensar em 26/06/2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

QUAL O VALOR DO CONHECIMENTO?

Eliane Dantas

“Fixe o pensamento apenas nos escritos, pois já vi pessoas serem salvas por seu trabalho. Entenda, não há nada mais genial que os escritos. São como um barco sobre a água. Deixe-me fazê-lo amar a escrita mais que a sua mãe. Permita-me introduzir sua beleza a seus olhos, pois ela é mais importante que qualquer outro trabalho. Não há o que se compare em todo o mundo”. Esta fala ocorreu 4 mil anos atrás, entre o burocrata egípcio Dua-Queti e seu filho quando navegavam pelo Nilo em direção a uma escola de escribas, segundo o livro A História da Leitura, de Steven Roger Fischer.

Antes que mães e pais fiquem bravos e desistam de continuar esta leitura, não quero entrar na discussão sobre amar a palavra mais do que a uma mãe. O que disse o burocrata pode ter sido uma força de expressão. De todo modo, é importante lembrar que, naquela época, a comunicação se dava principalmente pela oralidade, a escrita era privilégio de poucos, principalmente dos homens, e era um fator que definia poder e status.

O que me interessa na fala daquele burocrata é a oportunidade de pensarmos na relação das pessoas com o conhecimento. Até que ponto seriam as falas e ações de adultos também responsáveis pelo desinteresse de crianças e jovens pelo saber? De que forma pais definem escola para seus filhos? O que esperam dela?

É bom lembrarmos que escola existe para o indivíduo aprender a servir-se de seu próprio intelecto, colocar à prova seu pensamento, construir a liberdade que vem com o conhecimento. Quanto mais conhecemos, mais livres somos, mais agiremos por escolhas e não porque os “oráculos da verdade” – que podem ser um professor, um pastor, um governante, um militar – nos dizem o que fazer. A multidão que não pensa, alerta Kant, fica como animais domésticos confinados em seus currais com medo dos riscos do caminhar. “Mas ao preço de alguma queda, o indivíduo pode aprender a caminhar”, alerta o filósofo.

O fato é que, no Brasil, o conhecimento não está entre os artigos de primeira necessidade. A média de leitura dos brasileiros é de dois livros por ano, sintoma de quem não quer sair da menoridade (termo cunhado por Kant), ou seja, pensar por si próprio.

Na história do Brasil, o conhecimento jamais foi considerado prioridade. A primeira universidade do país só chegou com Dom João VI. Na Europa, séculos antes. Nos EUA, ainda no século XVII. É comum ouvir que tal sujeito pode ficar tranqüilo porque tem QI, ou seja, “quem indica”. Se preferirem rude clareza, tem pistolão! E onde fica o mérito? Aqui, muitas vezes, prevalece a lei de Gerson, que prega como desejável “levar vantagem em tudo, certo?”. Então para que estudar? Também se pode traçar um caminho mais curto, ir à Europa e tomar um banho de cultura! Não é assim que alguns pensam que irão conquistar conhecimento?

A socióloga Silvana Seabra, falando de sua experiência como professora nos EUA, diz nunca ter sido tão respeitada. Caso o aluno não fosse à aula, mandava email justificando a falta e pedindo desculpas. Em Belo Horizonte, um aluno agrediu uma professora e foi ela quem mudou de escola.
Então, o que podemos fazer para colocar o conhecimento no lugar de importância que ele merece e precisa? Os desafios são muitos, a resposta não é única, a trajetória é longa. Mas todos temos de buscar esse caminho ou a escola não encontrará o sentido que precisa. O discurso público e privado da “escola de qualidade” passa necessariamente pela reverência ao conhecimento.

domingo, 6 de junho de 2010

DESESPERANÇA E DOMINAÇÃO

Inez lemos

O novo estado do capitalismo ao qual nos submetemos desconstrói as possibilidades de simbolização. As relações sociais e mercadológicas se estabelecem fora do campo simbólico. Quais as conseqüências de se viver num mundo cujo valor simbólico é desmantelado em função do simples e neutro valor monetário? Quais os efeitos de dessimbolizar a vida e desvincular o dinheiro da dimensão subjetiva, simbólica e afetiva? Quando nada mais interessa, quando desconsideramos questões que ordenam a moral e a tradição e conferem às relações e aos objetos transcendência, abrimos espaço para a livre circulação da mercadoria. As trocas mercadológicas provocam a dessimbolização do mundo. Com isso, nos parafusamos numa rede de dominação, circunscrita não mais ao simbólico, mas ao real. É quando a vida passa a ser regida pela lógica do custo/benefício.

O novo sujeito, o homem que está se estruturando dentro da nova economia psíquica, sem recalque e desprezando o passado, mergulha na cultura da perversão. É a partir desse novo estatuto do objeto, da supervalorização da mercadoria, que devemos analisar episódios de violência envolvendo jovens e adolescentes. O novo sujeito se distancia cada vez mais do sujeito engendrado no sentido filosófico e psíquico do termo. A morte do simbólico enterra o sujeito kantiano junto ao sujeito freudiano. Distanciar da dimensão transcendental, desconsiderar as multiplicidades de sensações e sentimentos, negar as experiências, é acreditar num projeto existencial estruturado apenas no real da mercadoria, no real da vida. A filosofia que se estabeleceu na síntese da experiência e do entendimento refundava uma nova metafísica crítica. Vencido o sono dogmático, caímos na ilusão do racionalismo puro e simplista. Hoje, padecemos de excesso de técnica, de espírito funcional, operacional. O mundo que se apresenta às crianças é desprovido de sentido transcendental - repertório objetivo e científico arquitetado na razão mercadológica.

A lógica que orienta o novo sujeito é a do homem biológico. Vivemos a supervalorização do diagnóstico. Ao tratarmos o sofrimento humano, melhor ainda é provocar no sujeito o desejo de investigar o que o faz sofrer – jogar luz nos incômodos. Deixar falar o corpo erótico, vivente e vivido, que hoje emudeceu, desapareceu! Quando experiência e desejo seguem dissociados e a técnica reina absoluta, destruímos as possibilidades de explorar fracassos e conflitos. Ilusão acreditar que, castrando a palavra, conquistamos o apaziguamento. Assistimos à morte do sujeito forjado nos pressupostos da filosofia moderna e nas teorias orientadas nas manifestações do inconsciente – sonhos, atos falhos, chistes. É no espaço deixado pela morte do simbólico – dos totens e dos ideais do eu - que se embrenhou o mercado. A ausência de interdição favorece e expande as passagens ao ato. O que freia as pulsões é o recalque. Sem Pai e sem recalque, o que temos é um sujeito sem culpa, livre pra agir acima do bem e do mal. É quando vale tudo - de pedofilia a estrupos em série.

A sociedade que opera no real recusa o sujeito crítico e funda o sujeito do ato, que manifesta a insatisfação atuando - batendo, matando, chutando, zoando. Cyberbullying, prostituição virtual, esses e outros sintomas revelam um vazio de referência, um futuro morto. O Pai, lugar simbólico, funciona como vetor, é princípio de anterioridade. É ele que funda, no sujeito, a lei e o prepara para viver em sociedade. O que chamamos de Pai é um lugar que simboliza, para a criança, interdição. É quem educa ou cumpre a função paterna – mãe, tios, avós. À escola cabe reforçar os princípios educativos. Quando a criança chega à escola sem os princípios de anterioridade, estabelece-se o caos – violência, agressões, bullying. É um engodo acreditar que podemos prescindir da repressão ao educar filhos. Hoje, multiplicam-se os espaços em que a criança reina livre de modelos (ideal de eu). Mundo sem referencia e sem lei engendra sujeito sem supereu, auto-referencial. É quando o filho não escuta os pais e o aluno não dá a mínima para a escola e professores.

Como analisar os crimes cometidos por alunos, nas escolas, contra professores e colegas? As crianças, quando chegam à escola, chegam atravessadas de cultura midiática, empanturradas de mensagens televisivas. O tempo que era da família é despendido diante de uma tela em que a criança é contaminada por imagens de violência e inserida no mundo do consumo. A violência na TV é diferente da violência das histórias infantis, que chegavam aos ouvidos dos bebês pela voz das mães ou das avós. Há uma diferença significativa do imaginário de maldade enunciado pelo lobo mau e o universo realista dos seriados infantis, ou dos jornais e novelas – lixo televisivo ao qual muitas crianças são expostas. O resultado é uma geração forjada mais na cultura do consumo que na família, lugar por excelência de transmissão de valores.
A autoridade é transmitida no processo geracional. Instituir o jovem responsável, consciente de deus deveres e direitos, eis o desafio de uma sociedade que se institui na negação geracional, na auto-referencia. Os pós-identitários, sem antecedentes, desamparados e erigidos como “donos da verdade”, inudam as escolas de problemas, dificultando o processo educativo e comprometendo o bom funcionamento das instituições públicas e privadas. Como uma geração vai garantir a educação da outra? Várias identidades num mesmo corpo, pluralidade de opções, campo aberto para desejar tudo - é o mundo do excesso no qual estamos confinando os jovens. Muita mensagem e pouca metáfora paterna. Quando a metáfora de autoridade fracassa, emerge a selvageria - pulsões destrutivas e de morte. A ausência de interdição é pior que a ausência de escolaridade - esta ainda pode ser adquirida posteriormente, enquanto a delinqüência dificilmente é corrigida quando a lei não é internalizada desde cedo.

Os jovens estão sendo produzidos para resistir à relação de sentido, para escapar à elaboração discursiva e crítica. Sem Outro, eles se estruturam numa liberdade falsa, inconsistente - escravos que aceitam a servidão a que o mundo da homogeneidade vazia os condenou. A dominação atual revela o desprezo dos dominadores pela massa obediente. Só é possível dominar o outro quando desprezamos aquele que deverá se submeter a nós. A ausência de resistência, de pensamento crítico, compromete o laço social, o mundo das relações afetivas e a qualidade de vida – amigos, profissão, relações amorosas. Quando não somos nós que orientamos nossas ações, agimos dessubstancializados e dessimbolizados - distantes do lugar que confere pertencimento e filiação. A violência pode ser vista como efeito do descaso - emancipação do Outro, auto-gestão do eu. É da ordem do insuportável, para um adolescente, se sentir solto, desvinculado de uma rede de referencias e significantes que lhe conferem direção. O desespero de muitos jovens exprime impotência diante dos desafios da vida, dificuldade de tomar decisões, desejo de reconhecimento.

Como resistir à paixão triste, ao sentimento de impotência ao enfrentar os inimigos que nos afastam de nosso eixo identitário? Toda intervenção que nos chega de fora e que não exige de nós posicionamento, que dispensa nossa participação no processo, representa perigo! Cautela diante dos tratamentos que prescindem da palavra e oferecem resultados imediatos. Mediar, não adiar, elaborar. Enfrentar, desvelar - tirar o véu da dissimulação, do escape. Não querer ouvir o sofrimento do outro, não se interessar por seu grito interno é um dos maiores pecados que a modernidade já engendrou. Ao tratarmos depressão, bipolaridade ou outros transtornos somente com medicamentos, compactuamos com o apagamento do corpo erótico - que chora, berra e protesta contra o deserto ao qual está submetido. É mais rentável apostar na manutenção da doença do que na saúde dos portadores de sofrimento psíquico. Quando a química provoca no sujeito a ilusão de onipotência, ela o enreda na impotência. O jovem deprimido não enfrenta o Outro. Nada mais desesperador, para quem deveria ser encorajado a acreditar em seus sonhos, que se render enfraquecido e desacreditado de si. Desalento é se sentir vivo num corpo morto, desprezado, isolado e dominado pelo discurso absoluto da ciência.

Como se nomear e se subjetivar - agir segundo as próprias convicções? Elaborar perguntas como quem eu sou, o que desejo da vida, tornou-se despropósito! A singularidade é tramada entre amores, desamores e fracassos. Como enfrentar a peleja da vida? Sem antecedência, sem que os adultos assumam a responsabilidade do mundo no qual colocaram os filhos, dificilmente avançaremos no combate à violência. Primeiro, devemos saber que filhos queremos deixar no mundo, para, então, repensar que mundo queremos deixar aos filhos. Desesperança queima o tecido da vida - esperança de cumplicidade. Parceira mortífera.

Artigo publicado no Caderno Pensar em 29/05/2010.

DESESPERANÇA E DOMINAÇÃO

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A POÉTICA DO SAMBA

Inez Lemos

Tornou-se lugar comum nos estarrecermos diante de notícias como: “estudo inédito da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) revela que a família brasileira oferece alimentos ricos em gordura, açúcar, sal, corantes e outros aditivos alimentares para bebês com quatro meses de idade”. “Magreza excessiva domina passarelas”. “Para as muito vaidosas que ainda não completaram 12 anos, a ida semanal ao salão é só o básico. Elas também mudam o formato dos dentes, fazem drenagem linfática e até se internam em spa para perder peso”. “No limite do consumo: adolescentes das classes C, D, e E têm obsessão por roupas de marca e celulares. Pais se endividam e de desdobram para atender os filhos, que fazem de tudo pelo objeto de desejo”. “Anabolizantes põem vida dos jovens em risco”.

O movimento histórico que radicaliza na tendência de transformar o ser humano em objeto, nos assusta. O declínio da perspectiva subjetiva e filosófica da condição humana nos conduz a buscar abrigo nos objetos fetiches – modismos, consumo, medicação, estética. O “homem novo” evita paixões. Desencantado, comemora o triunfo da vida artificial. Alienado no espírito científico que orienta sua vida, esquece de questionar seu tempo e suas narrativas. O triunfo do banal e do pensamento único engendra novas alienações e novas formas de opressão, atrofiando iniciativas revolucionárias. O retrocesso das matrizes teóricas, como filosofia e psicanálise, reforça a crença de que toda revolta, toda voz discordante seria impossível. Contudo, como não aderir aos fetiches que triunfam – grande senhor que nos cega e emburrece?

Como explicar posturas insanas como as de mães que alimentam seus bebês com lasanha congelada, miojo, refrigerante, batata chips e chocolate? Outras que se submetem aos rompantes de vaidade das filhas, vestindo-as como mulheres e concordando que freqüentem salões de beleza? É comum ouvir mães, diante de filhos sem limites e indisciplinados: “eu não sei mais o que fazer com ele, me esforço e dou tudo que ele pede e nem assim ele me obedece”.
Como repensar essa pletora consumista que nos encurrala e nos afasta da essência da vida? Onde estão os corações puros habitados pelo gosto das coisas simples e espontâneas? Almas poéticas que brotam das conversas despretensiosas? Há um enredo da vida que surge do trivial - puro prazer de cantar a emoção do mundo. Aonde se esconderam os filósofos das madrugadas, sem diploma e cheios de sabedoria? Esse ano, Adoniran Barbosa e Noel Rosa completariam 100 anos. Adoniram foi um sambista fundamental na formação da identidade musical de São Paulo e do Brasil. Fez poesia com a pobreza - interpretava a miséria com o coração. Suas músicas revelam, numa melancolia disfarçada, a realidade e os sintomas da vida humana - o amor materno pelo filho único “que não pode perder o trem das onze, pois a mãe não dorme enquanto ele não chegar”. Comicidade e tragédia, juntas, enfrentavam ressentimentos e decepções. Éramos conduzidos, junto aos poetas das madrugadas, pela filosofia do samba - verdade que se escondia na alma de gente comum interpretando o sentimento do mundo. Hoje, a juventude é comandada por falsos profetas, fetiches e feitiços devastadores, os Big Brothers que cantam o silicone, a barriga tanquinho e a bundinha rígida. Adoniran musicou a vida do Brás e do Bexiga e que não seduz mais ninguém. Quem se interessa pela saudade da maloca, pelo torresmo à milanesa ou pelo viaduto Santa Ifigênia?

Ao desprezarmos a simplicidade e sua riqueza simbólica, esquecemos que não se aprende samba na escola. Noel Rosa cantou o feitiço da vida - rivalidades, ciúmes, solidão e saudade. Mergulhou nas entrelinhas do dia a dia de Vila Izabel. Lamento ou saudosismo? O que nos faz escrever sobre eles, poetas do acaso? Pesar por ver a vida se escorrendo como enxurrada, banalizada e mercadorizada? O mundo que desconsidera a magia dos poetas da noite se perde na ausência de emoção. Noel, ao ver o sucesso de Festa no Céu, atesta: “Havia emoção – havia originalidade. Fiquei alegre, sentindo um feliz alvoroço dentro de mim”. Noel reverenciou a poética das ruas, o lirismo e a alma da cidade. Queria que seus ritmos eletrizassem os músculos e influíssem decisivamente no movimento das multidões.

Adoniran e Noel morreram pobres, não construíram fortuna, mas deixaram um legado cultural digno de ser comemorado 100 anos depois. Quais as conseqüências de afastarmos os filhos dos sentimentos que regem a vida? Qual a implicação em desprezar a lógica do coração em função da lógica da mídia e do mercado - tratar sofrimento e tristeza apenas com remédios, desprezando o desejo de seguir um roteiro próprio? Adoniran, um andarilho que percorria a cidade com seu violão. Sua espada era a música e com ela venceria a batalha da sobrevivência. Não se envergonhava da infância pobre, das dificuldades enfrentadas para impor sua música e estilo e conquistar autonomia sobre seu percurso. Viver era bem mais que pagar contas e ter o que comer. Era se lambuzar de versos e metáforas - significantes que contornavam emoções e frustrações. Nada se compara ao prazer de poder forjar a vida com a própria mente.

Como investigar a depressão e o tédio dos que se atolam nas drogas ou buscam na ilusão do corpo perfeito saídas para suas vidas? Atribuir a compreensão do mundo à lógica racional, recusar o trabalho de desvendar misterios e desatar nós, acreditar apenas na lógica químico-biológica, é mergulho no desespero e na insatisfação. Reduzir as tragédias da vida numa simples molécula, desconsiderar os trabalhos dos sociólogos, antropólogos e historiadores, é perpetuar no obscurantismo. Consideramos retrógrados os que mergulham nos incômodos e investiga o fracasso, aquilo que não vai bem. A gênese do comportamento humano é analisada numa perspectiva positivista e neurocientífica. Reduzimos tudo à genética e à biologia: depressão, bipolaridade, homossexualidade. O legado de Freud, junto à filosofia kantiana, é descartado – ambos oriundos do pensamento crítico e libertário.

Qual a importância de visitarmos teorias que inauguraram o primado do sujeito habitado pelo saber de seu inconsciente, pela consciência dos sintomas – medos, fracassos, inibições e angústias? Os sucessos da farmacologia enterram o homem freudiano em sua dimensão intersubjetiva e histórica. O boêmio transformou-se no drogadito. O repertório do sujeito social, o inconsciente do poeta, sambista que cantava os sintomas circundantes reduziu-se à “genéticabiofisiológica”. Sabemos que não se aprende samba nas drogarias e nos shoppings - tampouco assistindo Big Brother e se extasiando com o gozo dos medíocres.

Qual o sentido de evocar Noel e Adoniram 100 anos depois? Talvez busquemos na densidade emocional da poética do samba um sinal de esperança, algo que nos entusiasme e restitua a crença no amanhã. E nos aponte luz, possibilidades de saídas do túnel - noite de trevas que nos espreita e amedronta. O terror é filho do desconhecido – descrença e desesperança. Vivemos aterrorizados quando, sem perspectivas, desacreditamos de nossa capacidade de resistir, de contrapor. Tragédia é se submeter por falta de opção e proposta. Opressão é aceitar as ordens impostas por um estranho poderoso que chega e nos sufoca - ilude e cega. Cegueira é quando vemos o que não existe e acreditamos na inconsistência. A vida forjada na razão moderna prefere robô à gente - qualquer máscara lhe cai bem. Quem somos nessa noite de mascarados? Qual face nos representa? Qual roupa nos veste?

“Fiz de mim o que não soube/E o que podia fazer de mim não o fiz/ O dominó que vesti era errado/ Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me./Quando quis tirar a máscara/Estava pegada à cara/Quando a tirei e me vi no espelho/Já tinha envelhecido”. Fernando Pessoa escancara a hipocrisia dos tempos modernos, que, ao fazer das tripas seduções, nos enoda de ilusão. A máscara da moda são os escapes pelo corpo. Subterfúgios que nos aprisionam em castelos virtuais. Importa o gozo da imagem eternizada no vídeo, longe do espírito que perfumava os instantes de poesia, que para Noel, constituía numa verdadeira fonte de beleza.

Com que corpo eu vou, se tudo em mim me desagrada? Nada irá nos agradar quando circulamos no discurso da perfeição. Nunca vislumbraremos saídas se não enfrentarmos o próprio corpo. Sem os poetas, nos resta vasculharmos entranhas e descobrir verdades que religião nenhuma nos ensina. Tampouco as encontraremos nas drogarias. E olha que boemia revela mais que academias. Samba é epifania, fantasia que acolhe e cumplicidade que consola. Revisitar os velhos sambistas é resistir ao feitiço banal. Perversão é usar a competência para desiludir almas famintas - existência desprovida de sentido. Ilusão vazia.

Artigo publicado em 3/04/2010 no caderno Pensar do jornal Estado de Minas

domingo, 28 de março de 2010

O AMOR NO FEMININO

Inez Lemos

A artista plástica e escritora francesa Sophie Calle, revoltada com o escritor e namorado G. Bouiller por ter encerrado a relação por e-mail, resolve revidar a indelicadeza do rapaz. Num gesto de cumplicidade feminina, envia a carta a 107 mulheres. Com o pretexto de pedir sugestão sobre como proceder à deselegância do rapaz, arquiteta uma fogueira pós-moderna ao ex-namorado. Não é de agora que Sophie transforma fragmentos de sua vida em arte. A artista conceitual chega ao Rio em primeira pessoa com a exposição Cuide de Você - exibindo a imagem da carta projetada sobre uma foto de seu corpo. A inquisição feminina condena o rapaz de infantil e despreparado para o amor. Todas foram unânimes em reprová-lo, julgando seu comportamento covarde e insensível.

Não nos interessa julgar o caso e a conduta do rapaz, mas tentar desvendar os fatores que ocultam os mistérios reservados às mulheres. Vale investigar a facilidade com que as mulheres aderiram ao coro das descontentes, condenando tal postura de egoísmo e macheza. Como questionar o tribunal feminino que, de forma fervorosa, aponta a guilhotina para a falta de habilidade de um namorado? Talvez seu maior pecado tenha sido não levar a sério as singularidades da sexualidade feminina. Bouiller esqueceu que navegava num continente negro, obscuro e sujeito a tempestades e fúrias. O feminino não gosta de resoluções burocráticas. É campo imprevisível, abissal e cavernoso, onde nada é transparente, matemático. É sentimento que não cabe no computador - a linguagem do Word é insuficiente para interpretar as lacunas entranhadas no corpo de uma mulher.

O feminino é um corpo que traz as marcas da incompletude e que luta para descobrir sua instância fálica. A singularidade do feminino está no fato da mulher não ter um significante que a nomeie e defina. O registro do corpo imaginário completo é uma inscrição original e nele está contida a inscrição psíquica do pênis (representante universal do falo). Para Freud, a falta do pênis denuncia a castração - quando a menina se defronta com a tarefa de se haver com um corpo que registra uma ausência. O que explica porque as mulheres precisam mais de palavras - requer dos homens ouvir algo que recobre o vazio. O sentimento de “não-toda”, longe de ser um problema, é salvação. É ele que mobiliza nas mulheres o desejo e o interesse diante da vida.

Mulher é plural, são muitas e não cabem numa gaiola cibernética. Impossível querer classificar a multidão que habita um corpo feminino. Uma legião, em vigília, cuida do desejo, controla reinos, funda países. Lacan chamou de mascarada ao arsenal de recursos utilizados pela mulher em busca de solução. Adélia Prado, com sua licença poética, atesta: “Mulher é desdobrável. Eu sou”. Na busca de compensação para repor a falta, a mulher saí pelo mundo arquitetando subjetivações, reinventando acordos. Diante de tanta insatisfação, tanta procura, Freud concluiu que o feminino não é destino, mas reinvenção: “não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Ao contextualizar o caso Sophie, torna-se impossível imaginá-lo num outro século - o que o define como emblemático desse tempo. O que leva um rapaz escolher o cyberespaço para terminar um relacionamento afetivo? A internet é bem vista e cultuada entre as mulheres para iniciar relacionamentos. Muitas se utilizam de sites para encetar encontros amorosos. O culto à internet como agenciadora de namorados tornou-se comum. Se aprovam a informática como mediadora e facilitadora na realização de desejos - uma história de devaneios e fantasias -, era de se esperar que a mesma lógica se estendesse quando essa se encerrasse. O que subjaz a tanta ira, ironia, espírito raivoso? Há muito as mulheres abandonaram o lugar de arautos da moralidade, tornando-se cúmplices dos homens nos prazeres sexuais. Por eles lutaram, queimaram soutiens. Juntos, se jogam nas águas tirânicas do gozo - mar devorador da discrição e da privacidade. Bouiller não se pautou por uma conduta ética, agiu contaminado pela ética do cyberespaço em que tudo se tornou normal, natural, permitido.

Bouiller pecou ao privar Sophie de ouvir os motivos que o levaram a encerrar o namoro, ao não torná-la testemunha de sua decisão - parceira no sentimento de recusa e rejeição. Tudo que uma mulher quer é ouvir, arrancar de seu amado confissões. O sintoma feminino diz da necessidade das mulheres em ouvir do parceiro afetivo juras de amor. A mulher, para obter gozo, demanda que seu amado fale. O erotismo feminino inicia nos sussurros ao pé do ouvido, quando ela espera que ele revele a importância que ela tem para ele. Nessa relação, o homem entra como o sujeito de desejo e ela o objeto que vai completar esse desejo. Uma mulher quer ser o objeto de desejo no desejo de um homem. Que sua existência seja metáfora de desejo de um outro.

Se a feminilidade se funda na confissão de um homem, significa que a investidura de sua condição de desejada não reside em nenhum símbolo visível, objetivo (beleza, inteligência), mas na chancela do ‘eu te amo’. Ela quer ouvir o que é da ordem do indizível - algo que lhe confere reconhecimento e definição. Quando a mulher não se certifica do amor de um homem, um abismo se abre. Quando o namorado não a convoca para participar da decisão de interromper o namoro, ele a destitui do lugar sacralizado. Quando ela e sua palavra são excluídas, dispensadas, uma cratera se abre sobre seus pés. Sophie, ferida no narcisismo feminino, se sentindo rebotalho, declara guerra àquele que a destituiu de seu lugar de objeto fálico: ‘ele não me pertence, não tenho mais nenhum poder sobre ele’. Ressentida e magoada, prepara uma vingança para aquele que dispensou seu amor via on-line. Ironia pós-moderna - amor sólido também se encerra na tecnologia e se desmancha na internet.

Em Madame Freud a psicanalista Nicolle Rosen metaforiza, em forma de romance, o desabafo de Marta Bernays (esposa de Freud). O livro retrata de forma ficcional a vida íntima do casal, denunciando a falta de sensibilidade de Freud com a insatisfação de Marta. Em tom confessional, temos o retrato de uma mulher solitária que soterrou sua inteligência, sonhos e desejos para se dedicar ao marido e sua obra. Marta, ao fazer um balanço de sua vida conjugal, reconhece sua submissão - lugar secundário que a anulou como sujeito desejante: “Eu era suficientemente sensata para saber que a paixão é um sentimento efêmero. O que mais me fazia falta era a comunicação incessante que havíamos tido durante os quatro anos que precederam nosso casamento, aquelas cartas nas quais, dia após dia, nos contávamos tudo”. Marta prossegue em sua queixa, se recriminando por ter fingido ser uma dona de casa encantada com a função de velar pela felicidade do marido e dos filhos. Contudo, guardado as devidas proporções e os séculos que separam Madame Freud de Sophie Calle, temos um cenário de insatisfação feminina em relação ao comportamento de seus homens. Estariam as duas tentando se libertar do lugar de desejadas – dependentes do desejo de um homem para se sentirem realizadas?

A harmonia, a paz interior sonhada, a mulher vai encontrar quando fizer um acordo com o lugar de faltosa. Para tanto, ela precisa construir outras instâncias fálicas, outros nichos de interesse e se libertar do amor como única paixão. O amor deve operar como mais uma das instâncias que dão sustentação ao feminino. Como amar mais coisas além do amor? Muitas mulheres vivem bem tanto sozinhas ou quando estão amando. Outras ainda se atormentam com a falta do amor. Torturam-se com a idéia de não conseguirem uma forma de aplacar a tragédia do desamparo, se sentindo desamparadas, abandonadas, rejeitadas. O tormento feminino é a dificuldade de fazer as pazes com o falo – o representante da falta no ser humano. A parceria com um homem oferece à mulher a possibilidade de suplência à sua falta de definição. A definição de feminino depende da mediação de um homem. É sempre para um outro que a mulher quer ser o falo – conquistar um lugar de poder, ser admirada. A mulher procura suscitar olhares de reconhecimento. Querer ser desejada por um homem é querer que ele, sem ela, se sinta incompleto, na falta. Assim a mulher se oferece para obturar a falta daquele que ela lançou na posição de dividido, frágil.

Entre o homem e a mulher há o falo - um mundo a ser desvendado, um muro a ser implodido. Ridículo não é desejar o amor, mas fingir que ele não nos faz falta. Objeto ultrapassado ou sentimento resistente que tampouco a internet conseguiu destruir? Amor serviçal, amor que sacrifica o outro e sua essência, amor vegetal, que não brilha. Amor informatizado, virtualizado e mercenário vira peça de museu, obra de exposição e merece ser deletado. Sophie e Marta nos ensinam que amar é experiência generosa que possibilita nos tornar melhores. Tanto a mulher como o homem precisam enfrentar a falta. Melhor seria que fosse de forma menos enganosa, dissimulada - o que exige humildade para reconhecer limitações, despreparos. Sem isso iremos sempre demonizar o outro que nos abandonou - atribuindo apenas a ele a responsabilidade pelas frustrações, insatisfações.

Artigo publicado em 26/12/09 no caderno Pensar do E.M.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A solidariedade é branca

Eliane Dantas
O médico argentino Emiliano trabalha para os Médicos sem Fronteiras, a maior organização internacional e não governamental de ajuda humanitária do mundo. Ela atua em conflitos armados, catástrofes naturais, epidemias, fome e exclusão social. Recentemente, ele esteve de passagem por Belo Horizonte. Sua presença e suas experiências me fizeram querer entender melhor o significado de solidariedade.

Mas, afinal, o que é a solidariedade que o mundo convoca e evoca e tem sido tão usada mercadologicamente? As palavras são elásticas. Os sinônimos são aproximações, portanto é bom investigar os significados para não ficar restrito ao senso comum.

A origem da palavra solidariedade encontra-se no latim, com as palavras solidum (totalidade, soma total, segurança) e solidus (sólido, maciço, inteiro). Na definição do dicionário Aurélio, é “sentimento que leva os homens a se auxiliarem mutuamente”. Uma definição que julgo mais completa é de uma encíclica de João II : “Determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”. A solidariedade, portanto, é alternativa ao egoísmo, é responsabilizar-se coletivamente pelo presente e pelo futuro.

Então, voltemos a Emiliano, que está nas missões “não para salvar a vida de alguém, apenas para dar outra oportunidade”. Na sua fala, percebe-se que não há vaidade, ele não se coloca como herói, não cria um mito em cima de si mesmo nem tão pouco da ONG. Pelo contrário, desmitifica o imaginário coletivo. Não nega que ele e os colegas arriscam suas vidas, mas afirma que o risco é menor do que imaginamos porque vários cuidados são tomados para protegê-los.
A atuação de Emiliano é altruísta, mesmo que seja remunerada, e pode se dar na Etiópia, no Peru, na Colômbia, no Paraguai, em Angola. É mais do que caridade e compaixão. É solidariedade larga, não restrita à sua familia, ao seu bairro, ao seu país. É uma demonstração da consciência de sentir-se também responsável pelo mundo e pelo bem-estar das pessoas que o habitam.

Quando melhor entendermos que a ausência da solidariedade é geradora de violência, além de nos vestirmos de branco e soltarmos pombas para pedir paz, nos envolveremos em ações que realmente são transformadoras. Além de participar de protestos para marcar um dia, um crime, um sonho, atuaremos com mais ética, delicadeza, sensibilidade, humanidade todos os dias. Seremos agentes e não expectadores de mudanças.

No mundo há pessoas que são ícones da solidariedade: Ghandi, Mandela, Paulo Freire, Mohamed Yunus. Este fundou o banco Grameen, em Bangladesh, para concessão de microcrédito a pessoas de baixa renda, principalmente mulheres, para financiar atividades produtivas, livrando essas pessoas da dependência de agiotas. Libertou milhões da miséria extrema e resgatou autoestimas. Categórico, afirma que não há paz duradoura com pobreza. Não por acaso, ganhou o prêmio Nobel da Paz em 2006.

Muitos outras pessoas não ganharam fama por seus feitos, mas conquistaram a admiração de pessoas próximas. Podemos nos inspirar em qualquer uma delas e indagar: Sou suficentemente solidário? O que posso fazer para humanizar o mundo? E a mim mesmo? Quem aprende, pode ensinar.

quinta-feira, 11 de março de 2010

MODERNIDADE E ESTRANHAMENTO

Inez Lemos

O filme Hanami - Cerejeiras em flor nos fala de saudade, modernidade, estranhamento, tempo e morte. Um casal vive sozinho numa pequena cidade na Alemanha. Trudi, a esposa, descobre que Rudi, o marido, está com uma doença terminal e lhe propõe viajar. Visitar os filhos em Berlim e no Japão. Seu sonho era conhecer o Monte Fuji e apreciar as cerejeiras em flor. É o momento de aproveitar o tempo que ainda lhes restava para realizar os desejos adiados. O Japão despertava curiosidade em Trudi. Agressivo no progresso tecnológico e delicado em seus rituais e tradições. Da comida às danças, músicas e vestuário, tudo é cercado de detalhes e pequenos gestos. O ato de comer, o momento do alimento, para eles, é sagrado. Não combina com a pressa das metrópoles. Contudo, a modernidade os atravessa e rompe a cultura da leveza e da sutileza. Hábitos ocidentais convivem com orientais - ambos se adaptaram ao tempo que urge. O filme surpreende pela sabedoria de Trudi, que não se deixava contaminar pelo discurso da pressa - frieza e secura da vida in chips. Sempre encontrava uma forma de tocar a essência. Conquistar o carinho da neta que a olhava distante e interessada em seus bichinhos eletrônicos, suportar o mal-estar dos filhos causado pela visita inesperada dos pais.

Visitante inoportuno é o que chega e desequilibra o cotidiano de trabalho e obrigações. Sempre carregamos a agenda com afazeres prementes. Geralmente, essencializamos o banal e relegamos o essencial. No filme, o desconforto causado pela presença dos pais, nos filhos, nora e netos, é visível. Tudo incomoda - a cama cedida, as reivindicações aos passeios. Estranhamento e distanciamento se instalam. Pais que não conhecem os filhos e filhos que desconhecem os pais. Quem somos nesse mar de tarefas e cobranças? O mundo que nos cobra excelência e resultado é o mesmo que nos desconserta e atordoa. Já não sabemos mais como nos comportar diante de sentimentos e desejos íntimos. Como conciliar demandas tão desencontradas? Na tela vemos as contradições que cercam a existência humana. A impotência do homem pós - moderno, industrial, iluminista, capitalista. Que momento é esse que temos que ser bons em tudo - informática, dinheiro, cultura, corpo, sexo?

Trudi e Rudi representam a última geração de pais que souberam priorizar o tempo do amor, da ternura e da comida. Trudi preparava, todo dia, o sanduíche que Rudi levava ao trabalho – pão e maça, alimentos bíblicos. O amor entre eles era profundo, havia conexão entre sentimentos e gestos. Os conflitos eram vivenciados com sabedoria e paciência. Companheiros no amor, nas alegrias e decepções. É quando sentimos que a união faz a força - um realmente se apoiava no outro. Lembrando-nos que a existência, quando compartilhada, se torna leve e gostosa.

Ao ver os filhos distantes e inseridos no frenesi de um outro mundo, um tempo que eles desconheciam, com demandas que lhes eram estranhas, o casal se desconcerta. Uma frustração escapa da tela e nos bate fundo. Momento duro da interação: cinematografia e espectador, arte e realidade, sentimento e progresso. O mal-estar dos pais atravessa a dimensão artística e toca o real, o inominável. A morte nos espreita todo o tempo e nem assim desistimos de correr, fugir ou desprezar o essencial. Será que valorizamos o que, no fundo, não concordamos ou desejamos? Estamos todos no mesmo barco que se afunda. Somos todos passageiros de um só Titanic. Calados e resignados, assujeitamo-nos à tragédia que preparam para nós. Cúmplices aceitamos os minutos, as migalhas de tempo que nos é permitido no lazer e na vida em família.

Trudi, diante de um marido irredutível, desiste de conhecer o Japão, mas o convence de ir à praia e matar a saudade do mar. E lá o jogo da vida se inverte. Trudi morre repentinamente. O destino e suas ironias sempre nos surpreendendo, sempre furando a fila e levando as pessoas trocadas. O filho que morre antes dos pais, o saudável que vai primeiro que o enfermo. Ainda assim não abandonamos a arrogância e a ilusão de que somos senhores do futuro. Desprezamos a superioridade do acaso, do indeterminado. Definitivamente, não somos donos do nosso tempo de vida, ele sempre nos escapará – faltará ou excederá!

A questão central do filme é nos chamar a atenção para a sutileza da vida, um alerta aos que definem a agenda priorizando apenas negócios – não “negam o ócio”. Sempre sacrificando a convivência entre pais ou filhos, crianças ou idosos. Um alerta aos casais que, com o aval da modernidade, julgam comum desconsiderar o desejo do outro. Rudi, devastado com a morte de Trudi, descobre saídas honrosas para o seu luto. Sabedoria ao enfrentar a morte da pessoa amada. Viúvo, uma nova trajetória se inicia. Estratégias ao confrontar o real da morte, a dor de uma ausência imprescindível. Reinventar saídas para a solidão, para o tempo que ainda lhe restava. Conviver com a impermanência - lembranças ternas e eternas. O que fazer com a saudade, os resíduos do outro? De onde extrair forças para realizar, sem a pessoa amada, o que, com ela, se recusou a viver? Rudi se mune de coragem e não se acovarda. Peregrino do desejo do outro. Parte em busca de Trudi, do pouco que dela restava nos jardins, nas cerejeiras, na dança japonesa e no Monte Fuji. Articula uma companhia, alguém que, com ele, encarnaria os sonhos da esposa. Ao se cercar de Trudi, suas roupas e preferências, Rudi encontra paz e alívio. É a vida nos apontando infinitude e grandeza diante do abismo. Sempre nos reservando surpresas, saídas dignas quando não nos apequenamos. Rudi abriu a alma e aceitou os desígnios de vida - visitas inoportunas e indesejadas. Sempre desprezamos os indícios da morte. Sempre nos julgamos eternos - nossa permanência na terra sempre foi dada como certa e garantida.

A vida que nos escapa das agendas e dos compromissos de trabalho nos cobra sabedoria. Como conciliar morte e eternidade, impermanência e memória, saudade e ternura, ausência e presença? Rudi, ao transformar fragmentos, ao debruçar sobre os vestígios de uma vida a dois, teceu uma parceria entre vida e morte. Parceiras fiéis, silenciosas e traiçoeiras. A esposa precisou morrer para que ele descobrisse uma outra vida. A que se escondia nas floradas das cerejeiras e no Monte Fuji. A montanha que, com sua cadência, nos ensina a conter a pressa, a aguardar os sinais visíveis - a luz só surge depois da neve e da neblina.

Há algo escondido na morte que clama por nós, que requer de nosso olhar atenção e cuidado. A vida, por meio da morte, nos cobra grandeza de alma e serenidade no existir. Quão de sutileza nos espreita? Quão de beleza há submerso na natureza e nas pessoas? Sempre olhamos a vida com olhos contaminados por uma falsa pressa. Geralmente, fazemos ouvidos moucos aos desejos alheios. Arrogantes, aderimos às escolhas convencionais, aos modismos infundados e esvaziados de sentido. Qual o sentido de conhecer Veneza sem antes conhecer os filhos, sem antes saber mais da pessoa amada? Desejo é manifestação interna, anseio inconsciente. É desordem, bicho que escapa furioso, sem rumo. Não há desejo comedido – visitar o Japão é descomunal, é loucura sábia.

O rumo é a civilização, é ela quem norteia nossos passos, nossas pulsões. Nosso inconsciente é ganancioso, consumista e midiático. Contudo, como enfrentar os excessos, a forma descabida e insana com que os homens de negócios se apropriam do nosso desejo? Determinar o tempo do amor, das cerejeiras e das montanhas. Pouco sobra para apreciar a vida que brota das árvores e das pessoas. Até que ponto somos contaminados pela verdade do Outro - empresário que nos influencia com suas ofertas inúteis, suas quinquilharias desnecessárias e efêmeras. Muitos são os pecados cometidos em nome de um grande outro que nos comanda com seu discurso científico e tecnológico. Reverenciamos os senhores da mídia, dos laboratórios, os homens de ternos e pastas pretas - donos do dinheiro e da infelicidade. A vida submetida aos ditames do mercado é vida murcha, pobre e desvitalizada.

Rudi se rejuvenesce quando abre os olhos para a natureza, essa senhora que aprendemos a desprezar e emporcalhar. E que acolhe Rudi sem cobranças e ressentimentos. A vida que ele desprezava e que, por fim, o salvou e lhe devolveu a alegria que Trudi levou. Beleza permanente é a que se esconde na natureza, eterniza a existência e recobre de dignidade a frágil experiência humana. Passagem faltosa que realizamos na terra. O filme nos ensina a respeitar a condição de finitos, a enfrentar estranhamentos. Desvelar a beleza dessa senhora grisalha, companheira crepuscular, visita indesejada.

Artigo publicado no caderno Pensar em 6/3/2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

FRACASSO DA LEI-DO-PAI

Inez Lemos

Há muito que a droga entrou na sociedade como mercadoria fashion, consumo “obrigatório” entre os jovens, perdendo a dimensão onírica, utópica e sublimatória. A mania phármakon, atualizada no crack, é apenas a manifestação de questão que merece ser abordada no campo da prevenção. Freud chamou a atenção para algo que pulsa “além do princípio do prazer”. Poucos vão à festa sem de lá saírem entorpecidos por drogas lícitas ou ilícitas. Tornou-se chique embebedar-se. Há uma conotação de virilidade entre os cultuadores do álcool.

Muitos pais se esquecem de que tudo pode começar com a cervejinha - excessos nos churrascos familiares. A moda é pais permissivos que levam a vida sem querer saber o que se passa com o filho, como ele chega em casa, de madrugada. Muitos começam a beber ainda na adolescência – em festas e baladas. Os hábitos mudaram, tornou-se normal os jovens freqüentarem, ainda pela manhã, bares que rodeiam as universidades. Café da manhã à base de cerveja e coxinha.

Toxicomania é prova cabal do efeito das propagandas que vinculam bebida ao sexo. Ao se intoxicar, o jovem apenas consome um produto de dois mercados: de bens e do gozo. No contexto da sociedade de consumo - não há saber que resista ao efeito corrosivo da atuação do mercado -, o toxicômano ocupa um lugar de fragilidade. O jovem é tido como presa fácil dos traficantes. Vulnerável, suas defesas são frágeis, pois, justamente nessa época, ele está elaborando escolhas. Ninguém nasce forte em suas convicções. A implicação dos pais na formação dos filhos requer vigilância constante. Sempre haverá um resto passível de ser orientado. Freud incluiu o ato de educar entre os ofícios impossíveis de serem concluídos - é tarefa interminável.

A ação espetacular da mídia sufoca qualquer produção de subjetividade que esteja fora de seu alvo. O discurso que permeia a juventude - de que bebida é sinônimo de potencia sexual, por exemplo - opera uma fratura no sentido da vida, um deslocamento de significação. Se antes os seduzíamos pelo esporte, pela música, pelas amizades ou pela profissão, agora os enlaçamos pelo gozo mortífero das drogas. Gozar com a droga é diferente que gozar com o sexo. Estamos vendendo aos jovens um gozo falso, traiçoeiro e falido.
Criado fora da lei, sem conviver com a falta e a frustração, o jovem não suporta as restrições pulsionais que a vida impõe. Provavelmente, vai sair atropelando, agredindo e atirando nos obstáculos ao gozo. As interdições devem ocorrer quando se é bebê. Geralmente, quem não é limitado desde pequeno em seus impulsos acabará, mais tarde, limitado pela pulsão de morte. O sujeito não acaba com a vida por que usa droga, mas, inconscientemente, procura a droga como mecanismo de autodestruição. Há dimensão erótica no encontro com a morte - resíduo de gozo masoquista. É quando devemos suspeitar de nós mesmos. Como afirmou Freud: “não somos senhores nem em nossa própria casa”.

Quando o pai entrega o filho à polícia por ele, sob o efeito do crack, ter estrangulado a namorada, temos o total fracasso da lei paterna - o pai assume a impotência em sua função. O fracasso das instituições (família, escola, polícia) nos aponta a anomia. O momento é de repensar os papéis das instituições na restauração da autoridade perdida. O que leva um jovem a subverter as leis que regem a vida em sociedade, a nada temer? Quando os pais não inserem o filho na cultura, quando ele não é barrado em seus excessos, quem o faz é o Estado - no caso, a polícia.

O toxicômano rompe com a lei paterna ao se posicionar fora da cadeia significante, da ordem simbólica. Vive o gozo que “curto-circuita” a fantasia, inviabiliza o laço social e impede a emergência de sentimentos como vergonha e culpa, por exemplo. Constrangimento, responsabilidade e respeito fazem parte da concepção de alteridade, são estruturantes do sujeito. Não é normal sairmos pelo mundo agredindo os outros, desrespeitando leis sem sentirmos desconforto.

O sujeito identificado com o objeto droga internalizou a imagem de dejeto, de pouco valor. Dentro de que significantes os jovens estão sendo estruturados? Muito do que somos resulta do que vimos e ouvimos em nossa infância. Se um pai se dirige ao filho de forma despreziva, ele vai atuar a partir desse registro. Se o filho sente que o pai não prioriza seu tempo para com ele, registra que o pai não gosta dele, ou lhe atribui pouca importância. Atitudes como essas são devastadoras para o sujeito, que, com o intuito de provocar a indiferença do pai, reage com atitudes antissociais.

A violência entre os jovens cresce proporcionalmente à forma despreziva com que são tratados pela família ou pelo governo, por exemplo. A crise de autoridade que permeia as instituições reflete o fracasso do pacto edípico, quando o indivíduo recusa a ordem que sustenta a civilização – desejo de produzir e lutar por um futuro. O toxicômano é um demissionário do falo.
A única autoridade a que o toxicômano obedece é a morte. Somente ela é capaz de detê-lo em sua ensandecida via-crúcis de sofrimento. A vida sem fantasia e sem perspectivas é parceria com a morte – amiga fiel que sempre surge para salvá-lo do inferno.

A problemática das drogas se insere na mudança de lugar do pai na atualidade, quando este ocupa um espaço esvaziado de autoridade. Todo sujeito requer condições psíquicas para suportar as restrições que a cultura lhe impõe. É a lei do pai que garante ao sujeito acesso à linguagem e à cultura - quando a família refreia o gozo, os excessos. A droga entra, muitas vezes, como suplência ao fracasso da função paterna, como arremedo à ausência da lei. De forma trágica, o toxicômano acaba se defrontando com alguma forma de limite – hospital, prisão ou cemitério. O toxicômano é um ressentido da ausência de falta, um frouxo de desejo. A falta, ao mesmo tempo em que incita o desejo, o limita.

A agressividade ressituada não se inscreve apenas no campo pulsional. No deslocamento do campo pulsional para o campo do gozo, a agressividade se torna egóica na tentativa de fundar um espaço próprio. Não é o único caminho. Mas, tanto quanto menos simbolicamente um sujeito se sinta garantido, tanto mais vai apelar para outras formas de gozo. A droga é efeito do desamparo infantil frente à substituição da autoridade paterna. A questão é a relação do jovem com a ausência de lei. Por isso, muitos recorrem à religião. Como nos lembra Freud: “a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado”.

Interessa investigar a raiz neurótica da “angústia do pai”. Muito da delinqüência remete ao desamparo original. Expressada na toxicomania, a delinqüência não reflete apenas questões subjetivas. Tornou-se um fenômeno social, uma forma de reação ao sofrimento, ao futuro morto – educação precária, desemprego, solidão. Estamos diante de verdadeira mutação cultural, de novo estatuto de ordenação do gozo.

O gozo do toxicômano se dá inseparável do próprio corpo. Não passa pelo corpo do outro, o que o torna cínico. O cínico goza à revelia do outro. Lacan vai estabelecer distinção essencial entre prazer e gozo, residindo este na tentativa permanente de ultrapassar os limites do princípio de prazer. Tal movimento, ligado à busca da coisa perdida que sempre vai faltar, é causa de sofrimento. E tal sofrimento nunca erradica por completo a busca do gozo. O gozo se sustenta pela obediência do sujeito a uma ordem, que o leva a abandonar o desejo e a se destruir na submissão ao outro. O conceito de gozo está relacionado com a lei. Essa pode ser uma relação de desafio, submissão ou de desdém.

Vários são os Nomes-do-Pai - religião, arte, esportes, trabalho. Sempre haverá um lugar simbólico que sustente o sujeito em sua relação com o objeto de satisfação. A cultura hedonista quer suprimir qualquer dimensão de sacrifício. Os toxicômanos de hoje são filhos de uma geração que, preocupada em romper com os interditos morais, acabou criando as condições para uma apologia do monopólio do gozo. Um ideal de sociedade em que os jovens podem tudo realizar. Com isso criamos uma sociedade doente.

A realização harmoniosa do gozo é aposta de apaziguamento. Contudo, a toxicomania deve migrar da delinqüência para o campo da terapêutica. O toxicômano é um ser não castrado. Castração é perda, é limite à onipotência do desejo – enfrentar o gozo em seu pacto de morte. À psicanálise, diante do gozo do toxicômano, resta operar com fantasias. Apostar na identificação com outro lugar que não seja droga, dejeto. Restaurar o encanto, o desejo por belezuras e a esperança no amor – troca afetiva e construção de futuro.

Artigo publicado em 16/01/2010 no caderno Pensar do E M.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ÉTICA DA FAMÍLIA
Inez Lemos

Que relação que podemos estabelecer entre família, ética, tempo e modernidade? Em que ética as crianças são educadas quando a lógica é do tempo-benefício? A pressa que aflige a vida moderna contribui para a solidão e depressão, nos esvaziando de sonhos, esperança e beleza.

Tempo! Quem é esse poderoso que comanda nossas vidas? A relação com ele se modificou ao longo da história. Antes, o relógio ordenador da vida social era o da torre da Igreja, depois migrou para a torre da fábrica, agora se disseminou entre valores e prioridades que comandam nossos passos. Quem é esse que tem a chave dos minutos e que, embora não o conhecemos, o obedecemos? Um “Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos...Por seres tão inventivo e pareceres contínuo...Que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho” - e que mereceu de Caetano uma oração.

A família contemporânea vive imersa na temporalidade urgente dos compromissos inadiáveis, uma prioridade regulamentada por um terceiro invisível, um grande outro que sutilmente decide qual o tempo que ela deve despender com os filhos. Convencionou-se que gastar parte do dia com os filhos é “perder tempo”. Tempo que foge à esfera econômica é tempo inútil. A tecnologia criou o tempo do computador, do celular, da TV. Parafernálias com representação social de valor, seriedade - gente ocupada que pensa e age com responsabilidade.

A sociedade pós-industrial expropria o sujeito de tudo que lhe é próprio – experiência, desejo, escolha. Na condição de consumidores de imagens e modelos, acabamos confundindo o sentido da vida com os interesses do mercado, pois é o fetiche da mercadoria que atribui aos objetos poder e erotismo. Hoje, vamos ao shopping com a mesma ânsia que íamos ao cabaré. Em busca de ilusão nós nos submetemos ao poder de sedução das mercadorias. Preocupante não é quando desejamos objetos de consumo, mas quando o laço social é organizado pelo consumo.
Walter Benjamin, filósofo e crítico da modernidade, confessa: “para viver a modernidade, é preciso uma constituição heróica”. Se a modernidade exige coragem na recusa às seduções e no enfrentamento dos desafios, como nos preparar para resistir ao lixo moderno - televisivo, midiático, cibernético?

A razão moderna vincula tempo à obrigação, dinheiro. Contudo, há um tempo que nos acompanha - ora nos angustiando, ora nos alegrando. Qual existência queremos tecer ao longo da vida? Um tapete que bordamos exige tempo e entrega. Em cada ponto fincamos sonhos e esperança e tecemos a metáfora da vida - quando viver é desfazer pontos, desatar nós. Esse tempo nós podemos e devemos comandar, pois se foge ao nosso controle e é dirigido por um terceiro alheio ao nosso desejo, é devastação na alma.

A família moderna vive oprimida entre o desejo e os comandos do mundo do trabalho, da aparência e da ostentação. Se ceder em seu desejo, sente-se culpada por estar em desacordo com o que a sociedade estabeleceu como bem. Como apossar do tempo como algo próprio, decidindo quanto devemos despender com filhos, amores, livros e amigos? Como enfrentar esse déspota que nos tortura exigindo que façamos algo que detestamos ou em que não acreditamos? É preciso coragem moral para discordar das convicções estabilizadoras dos laços sociais. A tragédia do homem moderno é conciliar desejo, autonomia e liberdade. Conquistar uma temporalidade própria sem ser derrotado pela culpa - transcender padrões e instituir outra lógica temporal.
Vivemos premidos por uma culpa neurótica que nos impede de usar o tempo como desejamos. Orientar-nos pelo que definimos como bem exige longa caminhada. Seguir pegadas alheias é mais fácil que inaugurar trajeto próprio. Muitas vezes criamos meios de fugir dos fantasmas que nos atormentam. Sem tempo justificamos tudo. Fugimos para não nos envolver com os demônios que urram, para não decifrar enigmas que nos cutucam. Corremos das oportunidades de nos questionar, nos investigar. Fugimos dos objetos perdidos, das marcas mnêmicas que nos afetaram. É confortante não ter que construir um sentido próprio para a existência. Se fomos programados para desejar o que não desejamos, pra comprar o que não necessitamos e para viver como não escolhemos, como garantir que gastaremos o tempo executando realmente o que acreditamos?

A dor de se saber só, de apalpar a precariedade e os limites da condição humana. Ao enfrentarmos os desafios que o mundo nos impõe, é natural ansiarmos por rotas de fuga. O tempo ocupado não pensa no futuro incerto, na velhice solitária. O tempo alienado não nos atormenta com questões íntimas. Indigentes de sentimentos, mendigos de nós mesmos, como ter tudo não nos tendo? Eis o paradoxo do mundo moderno: ao mesmo tempo em que ele controla tudo, não nos quer decifrando nossos incômodos, angústias. Quando o encontro entre as pulsões eróticas e o objeto que orienta as buscas afetivas fracassa, o sujeito vaga desvitalizado, deserotizado. Dos amores que orienta o filho, amores edípicos, restam apenas traços desbotados e imagens esmaecidas.

O indivíduo moderno vive a individualidade como metáfora de progresso e avanço. Mergulha numa pletora de tarefas e prescinde do outro. Com agenda carregada não se deixa afetar pelos apelos do coração - filhos, família, amor. O indivíduo bem sucedido que a atualidade cultua não tem tempo para coisas miúdas, desconcertos internos. Sentimentos oscilam e contradizem a lógica de perfeição. Sem tempo para os chamados íntimos, a vida fica chata. Como superar o amor perdido? O tempo de luto implica a reconstrução de um novo ritmo - agora sem o objeto amado. Necessitamos, diante de uma perda afetiva, de tempo para nos reorganizar psiquicamente. Há o tempo do choro, da tristeza. Virou moda querer sanar as perdas somente com remédios, cobrando pressa no trato da dor. Hoje, é proibido curtir o que antes chamávamos de fossa - temos logo que partir para outra.

Choro adiado, tristeza tamponada. Sentimento sufocado produz ressentimento. Adiar raiva e agressividade faz mal. A paz sonhada não chega meio à fuga aos incômodos e desconfortos. Não podemos passar a vida apenas fotografando a felicidade, os momentos de alegria. O prazer de viver deve atravessar as entranhas e se instalar no cotidiano. Ao captarmos a alegria apenas por flashes, nos posicionamos como demissionários de nossa própria causa. O afã em registrar fragmentos que testemunham o bem viver deflagra nossa miséria existencial, nossa mendicância afetiva. A vida que queremos agarrar se esconde nas frestas da intimidade.

Renascer, rever, vivenciar, saborear. Sabor e sabedoria andam juntos, diz do desejo de querer saber mais de si. Segurança interna advém de saber fazer, saber sofrer, saber esperar. O renascimento de sentimentos novos exige apaziguamento na alma. Felicidade combina com morosidade.

O belo tem o estatuto de algo perdido e que escapa à lógica do tempo mercadoria. Em O tempo e o cão, Maria Rita Kehl busca em Baudelaire elementos que confirmam a conexão entre modernidade e depressão: “A modernidade se apresenta a Baudelaire como um tempo disforme, em função da velocidade com que supera a si mesma e a tudo que a antecedeu a fim de se perpetuar”. Obsolescência das mercadorias, desvalorização da experiência e memória, cultura do efêmero. Tudo provoca antecipação do futuro e banalização do passado e do presente.
O tempo homogêneo que todos usam de forma igual se apresenta num eterno presente, confundindo passado com futuro, como ilustrou R, jovem em análise: “Até há pouco tempo viver para mim era tudo igual, não tinha passado nem futuro, era só presente”. O que marca a duração é o tempo afetivo - as intermitências do coração que nos surpreendem e embelezam. O que executamos sem sentir é outra coisa.

Baudelaire faz uma relação entre melancolia e estética. E Maria Rita Kehl completa: “a beleza das velhas mulheres, das velhas coisas, das coisas perdidas, associa-se nessa passagem não apenas aos valores morais que elas preservam, mas à dor que elas evocam”.
Na ditadura militar era proibido contrapor o autoritarismo. Muitos viviam na clandestinidade. Hoje, proibido é não seguir tendências, modismos. Muitos se envergonham por não aderir à permissividade ou não exibir uma bela plástica. São os clandestinos do desejo. Aos pais cabe decidir uma ética e estética para os filhos, ensinar o que é belo e relevante. A humanidade sem rosto e sem vigilância ética convida à desordem, à anomia.

domingo, 13 de dezembro de 2009

RECATO NECESSÁRIO

Inez Lemos

Simone e Sartre, dois monumentos do pensamento moderno, duas vidas que se cruzaram, dois sobreviventes de tempos de guerra. Qual o sentido de escrever sobre eles, filósofos existencialistas, numa época em que a filosofia é tão pouco cultuada, reverenciada? O que têm eles a nos dizer? Como buscar experiências que nos orientam - um estilo de vida que apontam outras atmosferas, outras formas de sentir e expandir a vida? Diante de tantas notícias catastróficas, de uma juventude desesperançada, que, de forma descabida, desafia a vida no trânsito e nas drogas, onde vislumbrar saídas? Modelos de vida que nos descortinem esperança e desejo de lutar, transformar? A vida de Simone de Beauvoir está arrastando multidão ao teatro com a peça Viver sem tempos mortos. Fernanda Montenegro, ao encarnar Simone, metaforiza a época em que o pensamento encantava o mundo com sua pujança e júbilo. Época em que os jovens eram seduzidos pela emoção dos debates. Talvez nos filósofos encontremos passagens significativas que nos ensinem que “viver é melhor que morrer”. Como desafiar a pulsão de morte que contamina os jovens, quando muitos não respeitam leis e se entorpecem diante de uma tela? A transgressão vazia e o consumo catastrófico servem a interesses escusos que oferecem o supérfluo e afasta o transcendente. Na imanência, peregrinamos no escuro.
“Mamãe levava-me por vezes a uma pequena livraria próxima do curso para comprar romances ingleses; duravam porque eu os decifrava lentamente”. Em Memórias de uma moça bem-comportada, Simone descreve belos momentos de sua vida e revela seu estranhamento com o mundo adulto, que insiste em apresentar à criança um mundo já pronto, como se todos o sentisse igual, ou o desejava da mesma forma, quando a condescendência dos adultos transforma a infância numa espécie cujos indivíduos se equivalem: “as crianças adoram avelãs”. Ao que Simone responde “Meus gostos não me eram ditados pela idade; eu não era “uma criança”: era eu”. Desde pequena Simone se distinguia do senso comum, sentia o olhar de desprezo das outras crianças que se regozijavam triunfantes. A disputa na infância é cruel, aniquilante, mas Simone soube enfrentar os olhares de discórdia, de reprovação por suas escolhas singulares. É importante que os pais encorajem os filhos quando esses fazem escolhas que ressaltam aos olhos da maioria.
Simone reivindicava um quarto só para ela, pois assim poderia estudar e ler em paz. Hoje, muitos jovens desfrutam de espaço e tranqüilidade, mas poucos identificam na leitura um bem, meio precioso de sabedoria e formação: “Aprendi a fazer minhas lições e a estudar em meio ao ruído das conversações. Mas era-me penoso não poder isolar-me. Minha irmã e eu invejávamos ardentemente as meninas que tinham um quarto para si; o nosso não passava de um dormitório”. Uma forma interessante de inserir as crianças no mundo encantado dos livros é, quando ainda bebês, ler para eles ou lhes contar histórias. Criar o hábito da leitura, o amor por livros é um dos melhores presentes que os pais podem oferecer ao filho. Assim ele terá boa companhia para o resto de sua vida. Simone reconhecia, agradecida, o privilegio dessa descoberta, acontecimento grandioso - o contato que estabelecia com o mundo por meio da literatura. Encantava-se com as histórias, belo objeto que se bastava a si mesmo, como um espetáculo de fantoches. Era sensível às construções - roteiros em que as palavras adquiriam brilho próprio. Os livros a faziam refletir sobre o mundo que a cercava, como a sonhar, fantasiar e questionar convicções. “Andersen ensinou-me a melancolia; nos contos dele os objetos sofriam, quebravam-se, consumiam-se sem que merecessem a desgraça”. Somos um pouco de cada livro que lemos - uma trama de diversos autores, diferentes imagens que internalizamos e ricos devaneios nos quais mergulhamos.
O mundo universitário explode meio à permissividade e à pobreza simbólica. Jovens ansiosos perambulam em busca de sentido. É visível a descrença dos jovens no estudo e no conhecimento como perspectiva de vida. Desesperançados, vagam pelo campus - espaço esvaziado de idéias que perdeu o papel de fomentador do pensamento. O debate, a contradição e o confronto operavam como formadores de opinião. Como explicar o fato da estudante que foi “quase estrupada” na universidade por portar um minivestido? Quando a universidade não propõe nada mais interessante, cabe aos alunos provocar um lugar para existirem, um acontecimento - apelar às pernas, à violência. Tudo vale para ocupar o vazio de utopia e esperança. Um jovem precisa encontrar algo a que se apegar - sem utopia, viver é pesadelo. Quando tiramos da juventude a esperança por um mundo melhor e resumimos a existência num shopping center 24 horas, não podemos cobrar dela elegância e sabedoria. Os crimes envolvendo os jovens denunciam empobrecimento simbólico. Ao cultuarmos aparência, espetáculo e sucesso instantâneo, denunciamos nossa opção ao narcisismo e ao hedonismo.
Sartre reafirmou o valor da esperança na formação humana: “Acho que a esperança faz parte do homem; a ação humana é transcendente, visa sempre um objeto futuro a partir do presente onde a conhecemos e onde tentamos realizá-la”. Sartre não encarava a esperança como uma ilusão lírica, mas algo que norteava o pensamento e a ação, uma imagem lúcida da condição humana. A jovem que vai à faculdade vestida como se fosse a uma festa, denuncia desespero, confusão de papéis provocada por uma sociedade que não mais cultua o estudo como valor humanitário, condição de transcendência e consistência interior. A universidade perdeu a sedução pela produção de conhecimento - estudar, pensar, debater tornou-se supérfluo. O que vale é o espetáculo - seja por meio da agressão àquele que o provoca -, como fizeram os 700 alunos da Uniban. É a violência metaforizando a vida. Vândalos esfomeados de sentido. Quem não se alimenta do belo (arte, filosofia), se alimenta da carne.
Deliciamos-nos com uma mídia obscena e extravagante, que gosta de exibir mulheres nuas. Cultuamos o exagero, o sórdido e o estupor, divertimo-nos com a maledicência. Alardeamos o erotismo masoquista, a libidinagem em vídeo e a devassidão nas imagens. Somos a república da perversão, cujo entretenimento dos jovens é sair de madrugada espancando mendigos, índios, prostitutas e homossexuais. É a festa da impunidade que grassa no país do carnaval e da cerveja. Aqui vale tudo, desde que seja rentável. Os jovens apenas expressam o inconsciente brasileiro e obedecem ao discurso do mestre, quando agem convictos que o crime compensa - falta de respeito e constrangimento também. Somos uma fábrica de produzir heróis às avessas. Qualquer corpo de fora, fofoca e traição viram notícia, produz celebridades e revertem bons cachês na Playboy. Do cabaré de Brasília ao Big Brother, a ordem é arriscar alguns minutos de glória. Estamos sempre sendo convocados à falta de decoro e honradez. O Brasil é um convite à libertinagem?
“Que venha a mídia, eu quero mais é ser desejada, virar artista, ganhar muito dinheiro, trabalhar pouco e ser respeitada, pois pobre nesse país não vale nada”. Eis o desabafo de uma aluna de escola pública, ao justificar por que não quer estudar - cujo sonho é ser modelo ou artista, como muitas que ela vê na TV. A cultura do espetáculo começa a ruir e as conseqüências alarmam as autoridades. Os crimes envolvendo jovens crescem dia a dia, quando assistimos tanto ao fracasso da lei paterna, como da que regulamenta a vida na sociedade. Focamos a aparência em detrimento à essência, o sucesso à felicidade, o gozo ao prazer, o automatismo à reflexão. Muitos pais se orgulham de ver o filho, ainda de menor, transitando de madrugada em alta velocidade. Sinônimo de virilidade, gente que sabe viver intensamente - os amantes da adrenalina que vivem matando inocentes. Ninguém nasce desrespeitoso, violento. Se algum jovem assim se comporta, é por que os pais não conseguiram impor restrições aos filhos, limitá-los em suas pulsões ensandecidas. Nossa cultura só se dirige ao jovem enquanto cliente, só se interessa pelo seu potencial de consumidor - são alvos das propagandas de cervejas, moda, celulares e carros. Vender o corpo ou se entregar ao gozo mortífero do crack? Deseducamo-los o tempo todo. Se o desejamos sem limites no consumo, não podemos cobrar recato, dignidade, comedimento. Somos a própria falta de comedimento. Interrompemos os outros com celulares, desrespeitamo-los no transito, não assumimos responsabilidades. Dissimulamos. Valorizamos a elegância apenas no vestir. Se tivermos dinheiro, compramos tudo - de justiça a amor verdadeiro. No deserto - sem metáfora paterna e sem os filósofos, apodrecemos na lama da permissividade e da falta de recato.

sábado, 14 de novembro de 2009

Entrevista com Inez Lemos











Balaio da Vivi: uma prosa com Inez Lemos (ENTREVISTA)
Inez Lemos Foto: Beatriz Dantas Editada por Bia Menezes

Para conhecer mais sobre o "Balaio da Vivi", visite o blog: http://videbloguinho.spaces.live.com






"Amar é revisitar, com o outro,
sentimentos, fantasias..."


Inez Lemos é psicanalista, colaboradora do caderno Pensar do jornal Estado de Minas e autora do livro Pedagogia do Consumo. Coordena grupos de estudos em seu consultório em Belo Horizonte, e participa de encontros, palestras, seminários e congressos. No blog Amores Urgentes (http://amoresurgentes.blogspot.com) Inez posta artigos sobre relacionamentos, afeto e educação.


Email: mils@gold.com.br






Com quem vivemos nosso primeiro caso de amor?


Com a mãe ou com aquela que irá amamentar ou cumprir com a maternagem. O primeiro ato sexual de uma criança é com o seio da mãe - sua primeira experiência de satisfação. O seio entra como objeto de desejo. Tal vivência é tão forte que o filho tentará reencontrá-la em outras relações. Ele buscará algo que se assemelhe àquele prazer originário. Nós sempre vamos buscar o objeto perdido, objeto que causa desejo e que nos marcou para sempre.


Malvine Zalcberg em Amor paixão feminina afirma que para a mulher não existe amor sem palavras, e cita Philippe La Sagna: “o que envolve, enlaça o corpo sensível da mulher, não são, antes de tudo, palavras, palavras de amor?” Para a felicidade de todos, é melhor que o homem fale, escreva, desenhe, pinte, e não economize palavras de amor?


As mulheres demandam mais manifestações de carinho. Elas têm necessidade de ouvir de seus parceiros “juras de amor”. Geralmente, elas esperam que eles falem, expressem, com palavras, seus sentimentos. Não bastam gestos. É uma necessidade da mulher, que espera essa confirmação. Ela reivindica um lugar no desejo do homem e faz tudo para ser atendida em seu clamor por amor. Esta é uma questão complexa e está no centro da sexualidade feminina.


De que se trata essa complexidade?


A singularidade do feminino está no corpo. O registro de um corpo imaginário incompleto, ao se manifestar, cria na mulher a ideia de incompletude: ausência do significante universal do falo (pênis). O feminino é um ser que luta para descobrir sua instância fálica. Para Freud, a ausência do pênis denuncia a castração – marca de uma falta, de uma ausência. Diferente do homem que porta o significante que o define, a mulher não tem um significante que a nomeie e a defina. Isso explica por que as mulheres são mais insatisfeitas no amor, por que elas demandam mais palavras – elas requerem ouvir do amado “eu te amo”. Elas demandam um lugar, uma identidade, uma recompensa, um reconhecimento. Algo que as retirem da “síndrome de incompletas, inferiores”.


Foi pensando nisso que Freud formulou a inveja do pênis?


Embora exista um equívoco de interpretação em relação ao que Freud elaborou, podemos compreender que as mulheres, ao se sentirem incompletas, moverão mundos para se compensarem e encontrar o seu falo. O falo não é o pênis. O falo significa poder, é o significante do desejo. Quem tem o falo, ou está com o falo, é quem tem propostas; é o sujeito desejante. Reivindicar o falo é reivindicar poder, reconhecimento. Lacan preferiu nomear a mulher de “não-toda”, apontando para um corpo que registra uma ausência. Contudo, diferente do que muitos pensam, a mulher só tem a ganhar com essa “falta” originária, pois é ela que a mobiliza e a torna uma pessoa curiosa e desejosa diante da vida, cheia de energia para fazer várias coisas ao mesmo tempo. A mulher é plural. Não existe a mulher, mas muitas. A mulher é um ser desdobrável, como diz Adélia Prado no poema Com licença poética; múltiplo, como canta Chico Buarque em Beatriz “será que ela é moça, será que ela é triste... será que é de louça, será que é loucura”. Enquanto os homens, na ilusão de completude, lutam pouco para se tornarem pessoas mais interessantes; engajados na cultura, na vida dos sentimentos e do afeto. Em geral, os homens são mais acomodados. Tentam se equilibrar apenas em sexo-poder-dinheiro.


É essa ausência que diferencia mulher e homem?


Sim. Freud, nos seus estudos sobre a feminilidade, concluiu que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Mais tarde, Simone de Beauvoir consagrou a frase em O Segundo Sexo. Ou seja, a anatomia é destino, mas a sexualidade é construção. Tal questão reforça a diferença abissal entre o homem e a mulher. O homem, ao crescer com a ilusão de que porta o falo, é criado numa cultura em que dele é exigido pouco além de “transitar bem no poder, com bom desempenho sexual, prestígio e sucesso financeiro”. Poucos são os que se interessam por outros saberes, ou se preocupam em melhorar, fazer análise. Ainda são poucos os que aceitam se questionar, se confrontar. Já a mulher, como Ulisses, parte em busca de outros mares. Investiga seus enigmas, enfrenta esse continente negro, esse corpo obscuro. A histérica é o modelo emblemático da mulher que confronta o fantasma da insatisfação - aquela que quer saber o que é ser uma mulher. Ela deseja e procura saber, ao longo da vida, seja nas psicoterapias, seja alhures, sobre seus fracassos, insatisfações, fantasias.


Existe um ser completo?


Não. Todos nós, mulheres e homens, somos sujeitos incompletos e erráticos. A questão é por que as mulheres, em geral, se interessam por mais coisas como: viagens, culinária, decoração, esportes, dança, yoga, teatro, cinema, música..., além do sucesso profissional. Uma vez que as mulheres são marcadas pela insatisfação, é natural esse movimento delas diante da vida. Enquanto os homens, em geral, são menos estimulados e interessados em vivenciar novidades, em ter contato com experiências inéditas e diferentes. E uma das queixas delas, por exemplo, é que os homens têm muita facilidade para se adaptarem à rotina trabalho-família. Contudo, a ilusão de que “nascer homem basta” é uma sacanagem. Já é hora de as mães criarem os filhos (homens) longe desse imaginário falso, que só traz problemas para eles e para as mulheres, pois ambos terão que se haver com esse engodo. É uma das questões que dificultam o bom relacionamento entre o masculino e o feminino. Nascer com o sexo masculino não significa agir como um homem: aquele que assume seu desejo, banca seus interesses. Geralmente, os homens se submetem às mulheres com muita facilidade. É comum ouvir que “os homens têm medo das mulheres”. Acredito que eles temem o desejo da mulher que, quando sabe o que quer, sai de baixo! Muitos abrem mão por comodismo, por dificuldade para assumir o desejo. Mas tudo isso pode mudar, desde que os homens queiram ocupar uma outra posição diante de seu desejo, e que não se coloquem mais como demissionários diante da vida. Viver é briga pra cachorro grande, os frouxos não vão ganhar essa parada. O frouxo, seja homem, seja mulher, é aquele que vive na penumbra, na opacidade, não quer lutar pelo brilho da existência.


Homens e mulheres são mesmo diferentes em relação ao amor?


As mulheres buscam mais o amor. Elas gostam de se sentir amadas e desejadas. A mulher quer ser o objeto de desejo no desejo de um homem, pois a feminilidade se funda na confissão de um homem. Enquanto os homens não necessariamente buscam o amor. Muitas vezes, priorizam mais o sexo do que o amor. Quando a mulher age no amor como os homens, isso pode ser uma devastação, pois, no fundo, ela quer sentir que é dela que ele gosta. O amor está em crise mais para as mulheres, que sofrem mais com a moda da alta rotatividade, dos corpos descartáveis e de pouco valor. O amor mercadoria é um desastre para os corações femininos. Elas podem, a princípio, até se equivocarem, mas depois poderão se sentir usadas, exploradas, enganadas.


Atualmente, de que se queixam as mulheres na clínica?


As queixas mudaram. Hoje, muitas reclamam da sobrecarga de trabalho. Elas se inseriram no mercado de trabalho, mas ainda são as responsáveis pela administração da casa. Muitas reclamam da falta de cooperação de seus parceiros nos afazeres domésticos, julgando-os folgados. Esta é uma questão séria por ser cultural e diz da forma como as mães educaram seus filhos, poupando-os das obrigações domésticas. Muitos reconhecem essa desigualdade e tentam compensá-la. Contudo, muitos se sentem pouco confortáveis em realizar determinadas tarefas, reclamam da falta de treino, da inexperiência na cozinha, pois a mãe não os deixou participar, aprender. Há homens que reconhecem que o mundo feminino é mais interessante que o masculino, e que gostariam de ter sido inseridos nele. É claro que hoje muitos homens têm assumido cada vez mais, e de forma generosa e carinhosa, os diversos aspectos que cercam a vida familiar. Como há homens cujas vidas são muito mais interessantes do que as de muitas mulheres. Estou falando do imaginário que cerca o feminino e o masculino; os imaginários deveriam ser misturados, e não separados. Uma boa relação é aquela em que ambos se ajudam, em que há mais cooperação do que competição.


E os homens?


Em relação ao afeto, tem uma questão que varia muito de geração para geração. Os homens (de 50 a 70 anos) se ressentem da falta de tempo das mulheres para o amor, para o namoro. Isso se explica: hoje, as mulheres estão tendo menos tempo para a vida afetiva. Já os mais novos se interessam menos em namorar, pois foram treinados e até condicionados a formar vínculos afetivos efêmeros, menos consistentes. Suas demandas passam mais pela profissão, pois julgam que ganhando mais dinheiro poderão conquistar mais mulheres. Muitos ainda acreditam que o dinheiro compra tudo, como disse Nelson Rodrigues, “até amor verdadeiro”.


No seu artigo Amor e fantasia, você sugere que a conversa entre duas pessoas que se sentem atraídas deveria começar com uma pergunta sobre a fantasia de cada um: “qual a sua fantasia?” no lugar de “o que você faz?” ou “qual é a sua profissão?”. A fantasia pode ser o prenúncio de um encontro amoroso?


Sim. Talvez as relações estejam tão frágeis e tão líquidas por causa do déficit de fantasia. Um jovem que cresceu acostumado a ficar sentado, por longas horas, diante do computador e da TV, suas fantasias foram pautadas pela mídia. Há um empobrecimento fantasmático e isso reflete nas relações, pois são as fantasias que vetorizam o amor, elas dizem da forma como o sujeito foi marcado e afetado pela linguagem. É a linguagem que atravessa o corpo e o erotiza. O outro materno se dirige a uma determinada região do corpo por meio da linguagem – a boca, por exemplo, deixa de ser um orifício e passa a ser uma zona erógena. Daí a importância da língua materna, da qualidade do vínculo da mãe com o filho. Se antes havia mais mãe que mulher, hoje temos mais mulher que mãe. Muitas desejam ter um filho, mas não desejam ser mães. Mãe, mamar, maternidade, maternagem. Tanto a função materna como a paterna estão em declínio.


Significa que os filhos estão sendo menos erotizados pela língua materna?


Se o tempo da mãe com o filho for um tempo atropelado, ansioso, isso poderá comprometer a produção de fantasias. Vivemos um empobrecimento do simbólico. Muitos pais sacrificam o tempo de conversar, de contar histórias, fantasiar e simbolizar com os filhos. É um efeito da hipermodernidade, da convivência excessiva com as máquinas (computador, TV, ipod, celular...). O homem de outrora fantasiava mais o encontro amoroso. Ele se dirigia à amada cheio de expectativa, desejo, fantasias, pois muito do que ansiava não era passível de se realizar. Sabemos que o desejo advém da falta. Hoje, quando tudo é permitido, o jovem entedia-se rápido. Há pouca emoção no ato sexual contemporâneo. Muitos broxam diante de tanta oferta, tanta permissividade.


Como educar um filho para ser um bom parceiro afetivo?


A criança aprende a amar desde pequena vivenciando a relação com os pais: a relação do homem com a mulher, e a relação dos pais com ela. Um casal que prioriza a qualidade do afeto nas relações tem grandes chances de que seu filho se torne um bom parceiro afetivo. Veja os homens considerados bons amantes - que souberam amar as mulheres -, são homens que “surfaram” bem pela vida, transitaram na cultura, na música, na literatura. São exemplos de pessoas abertas e não reprimidas, pois amar é abrir espaço, expandir. Devem ter sido criados num lar em que se cultuavam a liberdade de pensamento, expressão e a criatividade. Quem fantasia bem ama bem. Eu tenho Chico Buarque e Vinicius como exemplos de homens apaixonantes, bons “amantes”. É claro que têm muitos outros, mas resolvi citar essas “divindades” como metáfora.


No divã o amor não cai de moda. Psicanálise é falar de amor em todas as idades?


Toda demanda é uma demanda de amor. É o amor que nos funda, portanto, é bom que ele seja um forte foco em nossas vidas. Não significa dizer que seja impossível ser feliz quando não estamos amando ou não estamos vivendo uma relação afetiva duradoura. Mesmo quando dizemos que “neste momento, a minha vida profissional é mais importante”, o que subjaz a esta frase é “ganhando mais, poderei cuidar mais de mim e me tornar uma pessoa mais interessante, com mais recursos a oferecer ao outro”. No fundo, sempre estamos buscando do outro reconhecimento, respeito, admiração. Hoje, tornou-se ridículo assumir que desejamos o amor. O mundo do consumo tenta nos iludir com “gadgets” (bugigangas), nos convencer de que os objetos são mais importantes do que as pessoas. Uma bela casa, se não houver amor entre as pessoas que nela habitam, se ela não for aconchegante, pouco vale.


Quem é o sujeito psiquicamente saudável?


Freud postulou que o homem vive bem quando ele se realiza no trabalho e no amor. O sujeito saudável para a Psicanálise é o sujeito desejante, aquele que prima pelo falo, luta para conquistar seus sonhos. É o sujeito que “surfa” bem na vida – tem seus nichos de interesse, de afeto (amigos, amores). Sabe estabelecer laços sociais, profissionais, como também sabe se recolher. Gosta de ficar sozinho de vez em quando. Não tem “pânico” da solidão. É capaz de passar um fim de semana em casa na companhia de um livro, por exemplo. É flexível, não se aborrece facilmente quando seus planos caem por terra, quando tem que abrir mão deles ou modificá-los. É uma pessoa que sabe lidar com as frustrações, com os “nãos” da vida. Também sabe controlar suas pulsões, simbolizar os sentimentos e não se envergonha deles - consegue chorar, se entristecer, se alegrar e se entusiasmar com os bons momentos.


O que dificulta o encontro amoroso hoje?


Você quer saber por que o amor está em crise? Muitos são os fatores que contribuem para a efemeridade das relações. Se hoje as pessoas circulam menos em seu espaço íntimo, em sua interioridade, singularidade, elas se tornam mais disponíveis e vulneráveis aos modismos. Lacan professou que a Psicanálise não perdoa quando o sujeito se demove de seu desejo; é a única culpa imperdoável. Esta questão aponta para uma covardia moral. Quando vivemos um estilo de vida que não é nosso, dando importância em demasia ao que não é essencial, comprando além do que necessitamos e desejamos, agimos movidos por estímulos externos. Nós recuamos diante de nosso desejo para seguirmos o desejo de um Outro. Assim, fragilizados, nos oferecemos ao Outro, comprometendo a nossa satisfação. Insatisfeitos, chegamos ao amor cheio de demandas, cansados e desgastados pelas premências do consumo. O que o amor precisa mesmo é de espontaneidade, autenticidade. Como transitar bem numa parceria afetiva se circulamos fora de nosso eixo identitário? O amor gosta de se enroscar na intimidade, esbaldar-se com naturalidade e liberdade no corpo do outro – tocar o outro em seu âmago. Amar é revisitar, com o outro, sentimentos, fantasias, rever histórias e criar novas. Diferente dessa pretória de exigências que inviabilizam tecer um novo tempo, uma outra ordem amorosa, na qual não mais nos angustiaremos diante de imperfeições e fracassos. O amor também sofre as influências da cultura. Desejar um(a) companheiro(a) é bem diferente de desejar um(a) companheiro(a) perfeito(a). Vale reverenciar o amor possível, aquele que iremos, com muita boa vontade, construir. O amor também não nasce pronto. Aqueles que desejam um amor gostoso e uma relação sexual duradoura devem por eles lutar, e deles cuidar. Tudo na vida requer paciência e dedicação. Amor que faz bem pro coração é aquele que nos encanta e descansa. Como disse Guimarães Rosa: “amor é descanso na loucura”. Pesadelos bastam os que a vida nos reserva.



(Entrevista feita por Viviane Campos Moreira, postada em Balaio da Vivi: uma prosa com Inez Lemos. http://videbloguinho.spaces.live.com)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

AMOR E FANTASIA

AMOR E FANTASIA
Inez Lemos

Onde guardamos o mapa da felicidade? Somos seres cuja concepção de prazer e de amor foi contaminada desde criança por discursos, tanto no espaço doméstico como social. Sabemos que nossas escolhas começaram desde cedo, a ser traçadas por aqueles que nos educaram, nos estruturando na linguagem, que dizia de seus desejos. Como superar o gozo forjado num cotidiano muitas vezes neurótico e competitivo, que nos marcou com significantes negativos, apontando o lugar da vergonha e do fracasso? Como apossar de um estado próprio, de um gozo que não ultrapassa o sujeito, que é medida certa, prazer encomendado, e que se ajusta à nossa hiância? Essa é a busca que nos faz acordar cedo, pular da cama, pisar firme, e sentir que a vida está nos chegando na proporção sonhada, desejada. Para tanto, precisamos saber de um outro gozo, aquele que nos amarra, paralisa e nos aprisiona em nossa falta. E faz nos sentirmos inseto morto, fixado na parede, à espera da chinelada de misericórdia, que chega e nos imerge no mergulho eterno, ponto final da trajetória de dor e sofrimento.
O conceito de fantasia em psicanálise é parte do psiquismo, onde registramos desejos inconscientes, dos quais ela faz parte. A fantasia revela a vida imaginária do sujeito, a forma como ele sente e representa a sua história, atavismos - tudo que funda sua realidade psíquica. Contudo, todos nós portamos uma fantasia que nos marca e nos direciona pela vida afora. Fantasias positivas ou negativas, bonitas ou feias, são elas que determinam nossas escolhas, seja no campo profissional ou afetivo. Tudo isso coloca a fantasia num lugar privilegiado de intervenção, quando, em todo trabalho analítico, parte-se dela para realizar, pelo ato da fala, a travessia.
Um caso de amor que devemos conservar é com a nossa língua. É ela que garante a travessia, que sinaliza ao sujeito uma outra posição diante da vida - a eficácia da análise materializada numa outra relação com o gozo. Saber tourear, enfrentar defesas, resistências que nos fixam no mesmo, nas neuroses - eis o percurso de uma travessia que irá nos jogar num outro lugar, onde uma outra vida se esboçará.
Num mundo que caminha para a exasperação dos mecanismos de controle e administração, otimização dos esforços, querer saber de nossa fantasia fundamental, quem somos e o que realmente queremos, pode soar como despropósito, proposta desordeira porque pede reflexão, pede discordância, mudança. Romper com um padrão interior de pensar a vida, a felicidade, o adestramento que reproduz, de forma voluptuosa, a mesmice padronizante. Eis o desafio. A fantasia barra o gozo. Aquilo que nos prende no amargo prazer do sofrer. Dor e volúpia.
Como remanejar as defesas, controlar nossas neuroses e nos preparar para enamorarmos do outro, com suas tão distintas fantasias? Amar é a razão maior de nossas vidas. Mas amar, (in)felizmente não arreda o curso da tragédia humana. Talvez por isso, muitos preferem “funcionalizar” a relação afetiva, como saída para fugir dos destemperos do amor, desumanizando-o, ou priorizando apenas o encontro sexual. Se somos uma porção de fantasias que mal sabemos, como querer acertar no amor, sem melhor delas saber? E como lidar com as fantasias do outro? Isso tudo faz do encontro amoroso um lugar incerto, vulnerável a fidelidades contratadas. Quanto mais achamos que estamos nos aproximando dele, mais ele nos foge, mais nos falta, nos deixa à mingua.
Um exemplo de desencontros, desses rotineiros: “Ele tem as raízes no mundo rural, ela no mundo urbano. Ele gosta de passar os fins de semana no sítio, ela, de passear em shoppings, filmes de amor. Ele, de ficção”. Até que ponto estamos dispostos a construir uma relação afetiva prazerosa, com interesses divergentes? Será possível traçar um enredo amoroso com cores tão distintas? Existem afinidades, ou elas também são resultado de trajetória árdua, de luta e conquista? Existe um amor pronto? Como resistir às agruras do amor, como reverter, resistir ao amor que chega com morte anunciada, funeral contratado? Como encetar um discurso amoroso que traz vida, promessa de cura, amor que chega para enfeitar um cotidiano desafetado, saturado de palavras vazias, amor promessa de muitos arrepios?
Quão difícil é saber renunciar às nossas fantasias, ao menos um minuto, para darmos ouvido às do outro. Geralmente, quando iniciamos uma relação amorosa, já chegamos com o um plano de metas - dificilmente deixamos o diálogo experimentar as pegadas da noite, os murmúrios do silêncio. No meio da euforia, nos exasperamos, sem darmos tempo para que um mínimo enredo se articule com segurança. Raramente temos a suavidade necessária para saber quem é esse outro que está ao nosso lado, em quais fantasias navegam seus temores e desejos. Nada no amor está pronto, seguro, fiduciário. Tudo está por ser reinventado. Geralmente, a paixão nos tampa os ouvidos, tal como na Odisséia, quando Ulisses escutava, amarrado, o canto das sereias, enquanto seus companheiros remavam de ouvidos tampados, simbolizando dois mundos - do prazer e do trabalho. Em qual mundo habitamos?
Uns foram marcados pelo princípio de realidade, pela ordem, obediência, trabalho e dinheiro. O outro traz dentro de si a soltura do princípio do prazer, a leveza de viver priorizando os poemas da vida. Dinheiro, para que tanto? Iniciam-se desacertos e desencontros. Duas realidades psíquicas, duas fantasias, dois mundos que tentam acertar as horas no mesmo relógio. O relógio da vida não é igual para todos. Um quer o tempo para a poesia - nas palavras, a busca para o encontro das coisas perdidas. O outro o quer para, justamente, fugir da falta de poesia que define sua vida. Acredito que, no fundo, todos nós queremos nos ocupar do prazer, esquecendo de ouvir o outro, sua concepção de felicidade. Vivemos imersos na miséria da usura. Quão penoso é abandonar o lugar da posse e deslocar-se até o outro.
Ela (encarnando aqui o protótipo da insatisfação feminina), em sua ânsia de amor, desejo de completude e fantasia de mulher - de se colocar como objeto de desejo no desejo de um homem -, geralmente não escuta o grito de misericórdia do companheiro, que não consegue suportar tanta demanda, tanta insatisfação! Ele ensaia, a vontade é de gritar: “Chega mulher! Calma! Abandona esse lugar burro!” - uma vez que toda neurose, toda histeria descabida encarna a burrice da repetição. Quando cessa a angústia, é possível o mergulho no outro, a união. O amor que se pretende saudável e que faz festa, exige que abandonemos o lugar do feminino (aquele que traz a falta registrada em seu corpo), no que o feminino tem de faltoso, incompleto. O casal precisa almejar o “não todo fálico”, abandonar o lugar da insatisfação, e, enfrentando a falta, ultrapassar incertezas e impossibilidades. Seja homem ou mulher, a posição fálica diante da vida não nos chega sem luta. Para descolarmos de nossas manias e defeitos, é necessário mais que academia de ginástica e rodada de cerveja em mesa de boteco. O desejo é um estranho que acampa em nossas medulas - como colonizador, que chega e nos leva no chicote. Para nos candidatar a um grande amor, há que se sobreviver às chicotadas. A histeria, seja no homem ou na mulher, é errância da carne, é quando o sujeito se coloca como escravo do desejo do outro. Ou quando, ao não conseguir renunciar ao convite de Dionísio para o banquete, se coloca como cão em lata de lixo - que se lambuza, se farta e se entope das sobras miseráveis do outro, tentativa frustrada de saciar o insaciável. Amor antropofágico.
Ela estava tomada pelo demônio do amor. O que é o demônio? Daïmon em grego, um deus, aquele que sabe. Curioso paradoxo. O possuído do demônio não é objeto de opróbrio por causa de sua ignorância, de seu erro, mas por causa do que sabe. Não devemos saber mais que o necessário, tampouco querer saber o que Deus sabe. O saber de Deus é um saber sobre o desejo, um saber sobre a existência do bem e do mal, do amor e da felicidade. Assim, ela, não satisfeita em esperar a hora para lhe dizer dela, e querendo sempre saber mais, demoniada, prossegue em sua errância. Geralmente, é essa a hora que pomos tudo a perder, meio a lamúrias e demandas. É quando o amor “tira os óculos dos homens, pula o muro e se estrepa todo”. A versão drummondiana do amor acusa a falta de lentes, para se ver além das fantasias.
O amor possível é do sujeito com o objeto, pelo caminho da fantasia. O encontro de duas pessoas passa pela fantasia de cada um, pelas marcas que carregamos, os traços do objeto primordial (geralmente, a mãe). Ao fantasiarmos um enredo amoroso, criamos um lugar, um delírio, e dele tentamos nos comunicar com o outro. Impossível! Penso que, no encontro entre dois, o início do diálogo deveria ser: “qual a sua fantasia”? Distante dos famigerados: “o que você faz”?, “qual a sua profissão”?
Ele falava de seu momento trágico, e ela, sem sua aquiescência, sonhava com “noites de luar e cheiros de dama da noite”. O propósito não é nos culpar diante do fracasso no amor, mas insistir na importância de com-versar. Versar com o outro, investigando desejo e fantasia. Devemos insistir no amor, pois nele atenuamos as perdas. O amor, além de nos deixar ébrios de sentimentos, dispensa a sinceridade, mas não a verdade! E a fantasia, pelas mais diferentes vias, sempre nos leva à verdade. Amar é suportar a dimensão incendiária e demoníaca da condição humana – e nos fazer perdoados.